para tirar alguma coisa boaRomantic estreou dia 17 de junho e está em cartaz quartas, quinta e sextas na Sede das Cias na Escada Selarón, Lapa. Espetáculo que contempla os 10 anos do Grupo Teatro Empório, fundado em 2004, aborda a história do personagem Leo (Leandro Bacellar) e o seu retorno ao passado que sacrificou – e contaminou – por ficar encarcerado por 10 anos (coincidência? eu não acredito). Mais do que o seu próprio crime, o foco não é o assassinato, a trama envolve toda a decomposição de uma família e suas parcerias após um crime, a princípio, frio e hediondo contra o próprio tio.

11649326_850075085029168_192776185_oA cena nos recebe com a projeção de luz de Romantic no proscênio, um tablado central (vazado no meio), hastes de madeira com ventiladores intercaladas ao fundo, um áudio em sussurros e vozerios, e os atores dispostos nas cadeiras. Temos uma espécie de apoio cênico que perpetua em alguns momentos, na presença de Diego Carneiro e sua dublagem/narração; um homem com peruca, calça legging e salto alto: feminino e aparentemente ameaçador.

Leo retorna e se depara com sua irmã Irene (Letícia Iecker), degradada e afundada no alcoolismo. Casada com advogado Felipe (Rafael Araújo), vivem num diário desconforto matrimonial. Ela desmerece incisivamente Karen (Marcela Büll), ex-noiva do detento e que trabalha na casa noturna do irmão, o policial Ruivo (Ramon Alcântara).

romantic-nivia-terra-leandro-bacellar-e-ramon-alcantara-foto-de-virgilio-libardiO texto, direção e protagonia é de responsabilidade do Leandro que, com esse texto, foi indicado ao prêmio Núcleo de Dramaturgia do Sesi/RJ no ano de 2014. Sendo assim, é redundante – mas necessário – frisar a inovação e peculiaridade do texto, não só pela história encadeada como pela disposição das falas, inclusive as gravações dubladas. Observo, contudo, que o desafio encabeçado pelo artista é audacioso acima da realidade; por vezes há a necessidade de um olhar clínico e fundamentado de fora para que o jogo entre os personagens não se esvazie e que eles, seguros e entrosados, guiem o espectador para o drama concebido. O que parece ao meu ver é que há muita atividade concentrada e, por isso, pouco trabalhada. Fragilidade de compreensão de personagem e de costura de cena – as transições de cada momento é esvaziada quando os atores “saem de vista” e sentam em suas cadeiras, o corte é brutal e massacra até as cenas mais contagiantes – seria solucionado com uma presença assertiva e assídua de um preparador de elenco ou um supervisor de direção.

Consequentemente, admito um desalinho entre o elenco na vertente interpretativa – o que nada tem a ver com a energia respectiva de cada personagem -, uma falta de estrutura harmônica na concepção. Letícia Iecker e Nívea Terra apresentam um caminho completamente diferente do resto do elenco; ambas transcendem a fala, o diálogo e acessam o outro – o ator com quem contracenam e o espectador – com naturalidade. No restante do elenco reconheço um esforço de mostrar algo para algum tipo de olhar específico, não são abrangentes nem disseminam a ação – remete a mim a um olhar demarcado, “se você não enxerga dessa forma, não farei você enxergar de outra”. A personagem da Karen me traz uma tensão que deve ser trabalhada até o último segundo do espetáculo, não pode ser abandonada e não pode achar que está solucionada. Tem que investir sempre na sua insanidade programada o que encaminha diretamente a uma das minhas personagens preferidas: Alice,de Closer.

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A iluminação de Larissa Siqueira e a operação de Lorrana Mousinho determinam um toque muito sensível do espetáculo, ele entra em encontro com o texto mais profundamente e defende com categoria a originalidade e nuances textuais. A concepção cenográfica encanta a primeira vista, mas é evacuada (ou transborda por ser excessiva) ao longo da trama. A beleza do tablado vazado (ou seria o túmulo do tio?) é o que se sustenta em meio a caixas que não se sabe se é de mudança ou do escritório e dos ventiladores que não informam nada a não ser que são ventiladores. Especificamente há uma passagem onde Irene vai visitar o tio assassinado. O silêncio perturba, entendemos que ela está diante de um cenário denso e o único som são dos ventiladores que mais parecem vozes do além, ou diálogos não ditos (o que me atrai ao vozerio no início do espetáculo).

O Grupo Teatro Empório tem em mãos um árduo trabalho e, para alcançar o devido mérito, o esforço é necessário. A evolução é o caminho, e creio que com essa obra de arte literária, o êxito é a consequência.

 

SERVIÇO
Romantic
Horário: 20h – quartas, quintas e sextas
Temporada: Até 10 de julho
Local: Sede das Cias
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Gênero: Drama
Duração: 90 min

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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