Louise Bourgeois 1982, printed 1991 by Robert Mapplethorpe

A crônica desta semana se dedica à exposição: Portraits and Self-Portraits na Tate Modern. A exposição dividiu o complexo trabalho de Mapplethorpe em três salas nas seguintes categorias: sala 1, retrato de amigos de Mapplethorpe; sala 2, retratos de figuras proeminentes do mundo da arte de Nova York e o que nomeiam de “estudos esculturais de corpos masculinos e femininos”; sala 3, os autorretratos de Robert Mapplethorpe. Esta categorização simplista da produção do artista parece denunciar que a exposição não pode dar conta daquilo que é o trabalho do artista. Neste sentido, nos ateremos apenas a duas fotografias das que são expostas. Os demais trabalhos, talvez venhamos a discutir nas próximas crônicas. Talvez não, talvez eu prefira aguçar a curiosidade dos leitores e somente isso. Talvez eu esteja sem tempo também e acredite que o mais importante é iniciar a discussão e o que o leitor fará dela, somente o google poderá dizer. Assim, vamos aos trabalhos…

Andy Warhol 1986, printed 1990 by Robert Mapplethorpe 1946-1989

 

A primeira sala, dedicada aos amigos e figuras proeminentes, é apresentada a partir de uma fotografia de Andy Warhol seguida por um texto que versa sobre dados pontuais da vida do fotógrafo, como o ano e o lugar onde nasceu, o trabalho que realizava com assemblages de esculturas antes de se dedicar à fotografia, acrescido de informações que justificam a existência de uma sala dedicada aos amigos e personalidades famosas da ocasião como William Burroughs e Louise Bourgeois. Neste tocante, pelo menos dois pontos parecem não se encaixar na composição coerente que os curadores da exposição parecem propor. O primeiro dos pontos diz respeito à (in)coerência entre a imagem de Andy Warhol e o texto de apresentação da sala que define que “como os trabalhos nesta sala demonstram, Mapplethorpe favoreceu o isolamento da face ou a figura em ambientes simples e utilizando uma luz precisa para lançar suas características em um relevo nítido.” A fotografia de Warhol possui evidente destaque para o rosto, avivado pela cor branca decorrente dos louros cabelos do artista. Contudo, não podemos ignorar o contraponto existente entre o rosto e as mãos de Warhol, mãos estas localizadas abaixo do baixo-ventre de Warhol em uma sugestão de branco-acinzentado possibilitado pela iluminação da fotografia e da cor clara da pele em diálogo com o rosto. Os dedos se tocam levemente, quase se cruzam, o polegar da mão esquerda parece impedir que o polegar da mão direita se erga ou, talvez, somente queira tocá-lo. O formato das mãos é de um triângulo cuja base estaria voltada para cima, paralelamente ao rosto no extremo oposto da fotografia, e os dedos em formato de seta para baixo, em direção aos pés que não se vê; a fotografia termina (ou começa) na parte superior da coxa de Warhol. Apesar do convite que a fotografia faz aos olhos de percorrer a imagem como um todo, os curadores da mostra compreendem e afiançam destaque ao rosto.

 

Louise Bourgeois 1982, printed 1991 by Robert Mapplethorpe
Louise Bourgeois 1982, printed 1991 by Robert Mapplethorpe

 

Outro ponto que observamos diz respeito à breve descrição feita da fotografia de Louise Bourgeois – “alegremente travessa”. Duas palavras que parecem conformar um eufemismo para o fato de que além do sorriso travesso de Bourgeois. Nesta fotografia, observamos um diálogo entre a face e as mãos da artista que carrega de baixo do braço, literalmente, um pênis, ou melhor, a escultura de um, com sua bolsa escrotal amparada pelo cotovelo direito de Bourgeois, culminando na glande firmemente segurada pela mão da artista. Novamente podemos observar o diálogo entre rosto e mãos em se tratando de iluminação na fotografia em contraste com o fundo e com as roupas trajadas. Novamente a descrição do texto curatorial parece não dar conta, ou talvez não queira dar, daquilo que Mapplethorpe de fato fotografou.

William Burroughs 1980 by Robert Mapplethorpe 1946-1989
William Burroughs 1980 by Robert Mapplethorpe 1946-1989

 

A fotografia de William Burroughs, por mais alinhada que esteja aos propósitos da exposição da Tate e de seu texto curatorial, apresenta o evidente diálogo entre rosto e mãos de um romancista acusado de obscenidade em seu tempo. O homem de mãos cruzadas, antebraços apoiados nas pernas, olhar na direção de seus polegares. Neste trabalho, Mapplethorpe parece querer nos lembrar que “quem vê cara, não vê coração”, ao retratar de forma tão comportada um literato cuja produção escrita teria causado alvoroço devido ao que as instituições de arte compreendem como obsceno.

 

Por agora, me despeço do leitor. O tempo anda apertado, mesmo que Foucault diga que a questão de nosso tempo não seja mais o tempo e sim o espaço. Até porque o tempo parece fundamental para que possamos resolver as questões do espaço. Quem tiver a oportunidade de visitar a Tate não se arrependerá. Para aqueles cujo projeto dependa de tempo cronológico e/ou financeiro, o site da instituição disponibiliza muitos dos trabalhos que estão na exposição. Nada como ver o trabalho de perto, mas sempre uma oportunidade de aguçar a imaginação.

 

Uma boa semana a todos!

Godot quando chegar vai me esperar…

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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