Toda arte tem seus diferentes formatos. A literatura tem o romance, a novela, o conto, o folhetim. O audiovisual tem o curta, o longa, o clipe, a série, o programa de TV. A música tem ópera, álbum, orquestra. E nem sempre isso diz muito coisa sobre a obra em si, mas é ótimo para alimentar discussões duradouras e criar rixas entre amigos. Por isso pegue seu bloco de anotações, porque você vai aprender tudo o que eu sei sobre os formatos dos quadrinhos. Portanto, vai ser um texto curto.

O primeiro e mais comum de todos é a tirinha ou cartum. É nossa amiga para toda hora. Sua principal característica é a síntese. Na maior parte das vezes tem três ou quatro quadros, mas pode chegar ao ponto de ter um quadro apenas, aí nós chamamos (eu e o Orlando meu vizinho) de charge. É o formato mais popular, porque sua síntese permite que seja facilmente divulgado pela internet. No face da Maria Nanquim, você encontra fácil trabalhos de gente de peso como Laerte e André Dahmer. Sem falar que muitos memes não deixam de ser tirinhas e charges, só que com fotos no lugar de desenho.

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Uma tirinha do The Perry Bible Fellowship: http://pbfcomics.com/

Os gibis, revistinhas ou comics são os adolescentes dos quadrinhos, por assim dizer. São revistas com histórias curtas, geralmente seriadas, e que se amassam com muita facilidade quando você senta sem querer em cima delas, no sofá da sala. É Turma da Mônica e super-heróis, mas também tem muito coisa além disso. E dizer adolescente foi uma maneira breve e redutora, como quase todo conceito (daí as rixas entre amigos). Por ser um formato mais barato e de transporte fácil é um dos preferidos dos independentes. Muito coisa boa é feita em gibis. Os mais artesanais são chamados de fanzines. Quando você vai numa convenção de HQs tem vários estandes de fanzines para todo gosto.

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Turma da Mônica Jovem

No mesmo estilo, mas com suas particularidades, o mangá (quadrinho japonês) também são revistas de encadernação barata, com histórias geralmente seriadas. Sua diferença principal é o uso de preto e branco (ou, mais raro, branco e rosa, ou branco e outra cor qualquer). São histórias muito dinâmicas, mesmo quando tem os temas mais esdrúxulos possíveis, tipo floricultura ou jogos de tabuleiro. Também há vários tipos de mangás: one-shots, tankobon, antologias, shoujo, hentai… É uma infinidade.

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Chihayafuru, um mangá sobre Karuta, um tradicional jogo de cartas japonês.

Mas, com certeza, o formato com maior reconhecimento da crítica é a graphic novel (novela gráfica). São quadrinhos que se assemelham ao romance literário. Ou seja, histórias fechadas, mais longas, com encadernação semelhante a um livro, vendidas em livrarias. Geralmente graphic novels se tornam muito populares quando concorrem a algum prêmio literário, e aí rola polêmica nos jornais especializados se é justo ou não, como foi o caso do Chinês Americano, de Gene Luen, finalista do National Book Award de 2006.

Geralmente esse formato pega um público que não é tão acostumado com quadrinhos e é considerado mais artístico. Isso, claro, é relativo. Porque hoje a maior parte das HQs são vendidas em livrarias, o que significa que recebem um tratamento gráfico mais próximo de um livro, muitas vezes com capa dura. E, mesmo obras consideradas como clássicos das graphic novels, às vezes foram lançadas seriadas. Igual aos folhetins de Charles Dickens, que hoje são livros clássicos.

O exemplo mais emblemático disso é Maus, de Art Spielgman, um das melhores obras sobre os campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Ganhadora do prêmio Pulitzer, ela foi lançada em 1980 pela revista Raw, sendo publicada em capítulos como um folhetim até 1991, sem chegar a terminar. Só depois de ser publicada numa revista que os capítulos começaram a ser reunidos na forma de livro, mas ainda por partes. Hoje, aqui no Brasil, você encontra o volume único da Companhia das Letras. Embora seja melhor procurar pela lojas virtuais, pois faz tempo desde o seu lançamento.

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O formato não diz muito sobre o conteúdo, mas influencia a narrativa. Quando se tem tempo para contar uma história, pode-se pôr mais detalhes; quando se tem menos tempo e espaço, tira-se detalhes. Ser uma tirinha não obriga a contar piada, ser uma graphic novel não obriga ser literário, e uma revista seriada não tem a ver com ser pueril.  Cada formato vai ter o seu ponto de ruptura e autores que vão quebrar regras e sobrepor estilos. Todos merecem ser lidos e é ótimo saber que nosso olhos, e nossas mentes, podem se adaptar a qualquer tamanho e estilo.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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