Com os últimos acontecimentos violentos, que foram desde Charlie Hebdo, passando por Nigéria e mais todas as notícias horríveis que chegam fresquinhas como o pão nosso de cada dia, comecei uma reflexão profunda sobre o que eu acredito e minha posição política em relação a tudo isso que nos bombardeia –  (in)diretamente? – simbolicamente nos noticiários. O pão que chega é podre, bolorento e com ingredientes cada vez mais complexos, difícil de digerir.

O que tenho observado nas filas de banco, na minha casa e na timeline é uma necessidade de uma tomada de posição, como se fosse obrigação escolher algum dos lados, como se só houvessem dois: o bom e o mau, o ocidental e o oriental, o bandido e o mocinho. Análises rasas que pecam por achismos, verdades absolutas e que me dão, mais uma vez, dor no estômago. Mas, ao tratar de tema tão delicado, a tolerância deve ser o único imperativo.

Sempre sou questionada sobre a violência na Europa e, para surpresa de todos, sempre conto que vi mais violência em Barcelona em dois anos que em toda minha vida no Rio de Janeiro. Brigas de rua, pervertidos no metrô, culminando com uma menina violentada na porta da minha casa em um dos melhores bairros da capital catalã. Eu nunca vi isso no Rio.

Mas, em dois anos de Barcelona nunca ouvi um único tiro, nunca andei na rua com medo de morrer. E nunca, nunca mesmo, me senti sem estar sendo vigiada. Acredito que a Europa consegue aplicar muito bem o conceito de “vigiar e punir”, como na prisão descrita por Foucault, mesmo nas vielas dos povoados mais desertos, há uma sensação de vigilância. Lembro de um jantar na casa de uns amigos, éramos umas 15 pessoas, e chega a polícia (que havia sido chamada por um vizinho incomodado com o barulho) falando que se não descêssemos em 5 minutos teríamos que pagar mil euros por causa do barulho. E quando descemos, lá estava a viatura policial, esperando a gente e conferindo se de fato saímos de casa.  O que seria isso senão uma violência em prol da ordem? É isso manter a ordem?

Me sinto em um jogo de perguntas cruel: qual violência você prefere?

E aí, dentro desse modelo de sociedade o que significa um ataque no centro de Paris?

Acredito mesmo que o ataque foi mais simbólico que nada. E, é inevitável pensar que a sensação de vigilância sobre as minorias deve ser ainda muito muito maior. Assim eu me sentia em Lisboa, ao entrar em qualquer loja e quando pediam pra revistar a minha bolsa pra ter certeza que eu não havia roubado nada. Qual é o limite de um Ser Humano pra esse tipo de coisas?

Não quero com isso fazer mea culpa de nenhum, de todos os lados e pontos de vista dessas histórias. Mas, deixando de lado as teorias de conspiração (que por sinal me encantam muitas vezes) penso que somos todos pessoas muito desequilibradas tentando fazer um mundo falido dar certo.

Sobre o ataque a revista, só consigo pensar que morte nenhuma é justificável e penso mesmo que no Brasil é realmente difícil pensar em um veículo de comunicação tão explícito – agressivo. No Brasil não se pode nem falar o nome de um traficante ou miliciano em voz alta que é perigoso e arriscado. Quem dirá se existisse hoje um veículo de comunicação que satirizasse esses atores sociais no mesmo nível que os de Charlie faziam. Não digo que seria uma fã da revista francesa, mas invejo uma sociedade que abre essa possibilidade aos seus cidadãos.

Claro que em todos os temas que levanto, cabem discussões de horas (e confesso que adoraria tê-las), mas prefiro levantar essas questões e pedir, como peço a todos com quem tenho conversado sobre esses temas, mais generosidade.

Acredito que quando estamos em outro país e sofremos o preconceito entendemos muita coisa. Acredito também que quando se sai do lugar comum e a nacionalidade, religião ou qualquer outro signo identitário deixa de existir pra dar lugar a um nome próprio, as relações ganham uma riqueza sem tamanho e essas identidades inventadas, forjadas e compradas, deixam de ser importantes e o que fica é só compreensão. Ou é isso que minha utopia me leva a crer.

Por isso, sou partidária antes de tudo e de mais nada da viagem, do encontro e do outro. Quando se fala em islamismo ou em franceses, tudo se torna muito distante e o julgamento é frio e sem rosto. Quando se tem um amigo muçulmano, um judeu, um francês, quando essas palavras ganham um rosto e um afeto, não há julgamento, ou não deveria ter. Há a tentativa de empatia, de se colocar no lugar do outro. Em todos esses casos violentos, só posso pensar que altas doses de empatia teriam resolvido tudo.

E, deixo como referência para quem quer pensar mais sobre isso o filme argentino “Relatos Selvajes”. São várias histórias sobre violências, mostrando isso do limite de cada um e de como podemos nos converter em animais quando expostos a determinadas situações. De todas as maneiras, meu desejo continua sendo: Mais amor, por favor.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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