Visitar o passado foi algo que, de uma forma bem forte e estranha, sempre me rendeu longas e diversas imaginações. Desde criança, me flagro a olhar fotos, ler notícias e ouvir músicas de anos, décadas, eras atrás… Imaginar o cotidiano, entender o contexto, mergulhar naquela realidade outrora presente inundam meus pensamentos e me fazem buscar paralelos com o atual. A motivação? Existem diversas: uma foto antiga de um local muito conhecido, um prédio velho com traços característicos de alguma época, a comemoração do aniversário de algum acontecimento importante ou uma música que transcende o amarelado dos anos passados e se faz viva, mesmo com uma roupa já gasta. Contudo, não foi preciso tanta poesia assim pra me fazer voltar algumas décadas, ao longo das últimas semanas.

Enquanto eu “fritava na timeline”, comecei a ver diversas notícias e comentários sobre a volta da formação original do Guns N’ Roses, a participação de Axl Rose como vocalista do AC/DC, entre outras, que me transferiram da timeline para os sites que produziam essas matérias. Se não fosse pelo visual descolado e atual que esses portais de notícias têm, poderia jurar que a cena do rock estava num misto de final dos anos 80 e início dos 90 com a maioria das manchetes a tratar de bandas e personagens dessa época. Num olhar mais profundo, além das matérias principais, o cenário continua parecido: discussões sobre bandas antigas, tentativas de “rankear” as músicas mais épicas – a maioria já passando dos 25 anos de existência –, debates sobre temas que já não são tão atuais, etc. Acabei percebendo que todas essas notícias e artigos não eram apenas uma visita ao passado ou um breve momento de lembrança da cenas anteriores, mas como o cenário atual ainda vive nele.

tumblr_nnn1rxGKvD1u9jw54o1_500Essa vida no passado chama atenção para um fato que me decepcionou: o rock envelheceu seu pensamento e sua forma de ser. O que antes era um movimento de libertação e contestação, hoje passa por momentos conservadores e uma moderada reclusão da atualidade. É bem verdade que o rock ‘n’ roll já teve uma fase de ouro, onde novidades e debates pertinentes não faltavam, mas isso não pode ser usado como argumento para essa fuga do presente que está acontecendo.
Aliás, essa fuga dificulta bastante a renovação do cenário das bandas, seja no aspecto de originalidade das melodias, seja nos temas tratados nos lançamentos. Uma considerável parte das músicas novas, que são consideradas boas e salvadoras do rock, soa como um “revival setentista”. Apesar de adorar a sonoridade e a energia desse tipo de rock, pouca coisa, ou quase nada, é acrescentado com músicos jovens seguindo passos já caminhados. Sim, é difícil criar algo novo num lugar onde muita coisa já foi feita. Mas acredito que essa dificuldade está de alguma forma ligada com esse envelhecimento na cultura do rock. Não é como se não existisse mais o quê ser criado; quando vejo alguns artistas novos, sinto falta da vontade de romper com o antigo e usar dele apenas como referência.

Já se tornou o maior clichê falar que o rock morreu e/ou que precisa ser salvo, e quando alguma banda surge como o expoente dessa salvação, geralmente fica a impressão de já ter ouvido tal som antes. Em outras palavras o famoso “mais do mesmo”. Evidente que não se trata de óbito, tampouco da falta de um salvador do movimento, pois ainda se consome bastante rock e toda hora surge um novo artista, mas da necessidade de um rejuvenescimento; um olhar crítico do que foi feito, pra perceber que a transgressão que esteve tão presente no nascimento e na fase de ouro, hoje, anda um pouco ignorada.

Como essa é uma batalha a ser travada pelos artistas que se expressam por essa corrente e, ultimamente, temas pertinentes têm ganhado bastante notoriedade na música como um todo, fica a torcida para que mais uma vez o rock de um passo diferente e reapareça jovem, de novo.

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Victor Antunes
Apaixonado por arte, tenho a música como primeiro amor nessa lista. Difícil definir um gosto musical, mas meu xodó incontestável é o blues. E sim, os Beatles são a melhor banda até agora e quem discorda ou não entende a obra deles, ou quer aparecer, rs.

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