Um texto raramente está pronto. Eu não diria que essa é uma verdade universal e aplicável a todo e qualquer caso; e, no entanto, de novo e de novo podemos apreciar as evidências de que esse é o caso. O texto é aquele ser mutável e informe, que vamos mexendo e remexendo, moldando da pedra bruta ou do barro em algo que podemos chamar de belo. Se em um primeiro rascunho, o impulso criador que a tudo dá a origem, erigimos da pedra uma forma rude, é apenas a partir de uma revisão constante, de novo e de novo, limando aqui, incrementando ali, mudando a forma e refazendo as partes, que pode-se fazer do bloco a estátua.

Que todos os escritores tem suas próprias idiossincrasias e métodos não é segredo: quantos artigos descrevendo seus hábitos e processos de criação já não vemos? Mas raramente, é indubitável, cada um deles deixou de revisar o que escrevia após a composição de um rascunho. Pois é nesse segundo momento — geralmente melhor apreciado e mais efetivo após um “descanso” do rascunho na gaveta — que o escritor pode se sentar com o original nas mãos e pensar consigo mesmo: agora como deixar isso realmente bom?

Algumas pessoas operam sob a falsa impressão de que o livro chega na livraria letra a letra como saiu da pena da tinta do autor (ou melhor, nesse caso, do contato de seus dedos com as teclas). Se artigos sobre o processo editorial desmistificaram essa parte do senso comum, então pode-se pensar que, tudo bem, mas ele chega da mesa do autor rascunhante para a editora, de preferência imediatamente.

Ledo engano: o rascunho, popularmente conhecido lá fora como o first draft, é geralmente o que é: o esboço, o autor narrando a história a si mesmo, botando o material para fora. Após isso é o processo de auto-edição, uma revisão própria, uma polida do texto, a enxugada do desnecessário, a construção que se baseia nessa contradição entre o que está na mente, do impulso criativo, e o que efetivamente está na página.

Cenas são cortadas, o conteúdo é alterado, expandido ou enxugado, como já se vê em, também, dezenas de dicas sobre o processo de criação literária. Mas não somente! Pois o estilo também tem sua jogada aqui, e às vezes é nesse ponto em que ele pode e deve ser polido até a satisfação do autor. Frases que podem estar encadeadas errado, parágrafos que são abertos ou fechados, mesmo a tentativa de dar o tom coerente, a ambiência, o feeling que tão frequentemente é a diferença entre um livro regular e um excepcional.

E depois disso?

Depois disso, de novo. E de novo. E de novo.

Um escritor vai precisar, em algum momento, botar o prego final no caixão, a última mão de tinta na parede, ou ficará preso para sempre em um processo de revisão repetitiva. Alguns podem adorar ler o que escrevem, preferir a revisão à própria escrita; outros podem detestá-la, tratado essa leitura com a ojeriza que o processo das mãos no teclado não causa. Mas o motivo principal é: o incômodo.

O incômodo de achar que ainda não está bom o bastante. O incômodo que faz o escritor olhar para a obra, um mês depois de ela finalmente ter saído em papel e estar à sua frente, pegar uma frase alheia e pipocar em sua cabeça três formas diferentes de melhorar este pedaço. Porque, não importa o quanto haja edição e revisão, como eu disse, um texto jamais fica pronto. Sempre acharemos modos de olhá-lo com os olhos da crítica, analisar em busca de cada possível chance de melhoria. E, se não for colocado um ponto final, um marco onde se diga “OK, aqui está bom”, essa constante re-re-revisão pode jamais acabar. Não se é incomum autores pedindo modificações da obra em sua última prova de revisão, logo antes do livro seguir para a gráfica.

Esse incômodo faz horrores.

Permite que os livros saiam efetivamente bons. Dá menos trabalho para a editora. E mais: permite que o escritor pratique uma técnica fundamental para o seu ofício: essa do acabamento, do polimento, da transformação do material bruto na pedra preciosa, com o melhor material do qual dispõe: as palavras.

Então: revise.

E revise de novo.

É só saber a hora de parar.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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