Então, criançada! Bora conversar um pouquinho? Hoje eu tava pensando em compartilhar com você um pouco de um dos meus processos de aquisição de referências e influências. Mais conhecido como “como eu descubro música nova”; não sei se você realmente se interessa por esse tipo de coisa, mas eu acredito que a gente sempre tem algo pra aprender com os métodos alheios, seja pra cortar cebola, dar impulso numa bicicleta ou encontrar doideira na internet. E também tô afim de falar disso, então você vai ter que me aturar. Mas relaxa que de quebra você ainda vai conhecer um monte de artistas e músicas legais que eu tenho ouvido nas últimas semanas! Talvez não seja nada surpreendente, porque confio no seu nível de rataria da internet. Pense nesse post como uma conversa; uma troca de informações. Entre ratos da internet.

 

rat meme

 

Vamos começar do começo: Não sei se você sabe, mas eu trabalho produzindo trilhas e efeitos sonoros pra games principalmente. E por isso um dos meus passatempos favoritos é dar uma sacada periodicamente num fórum de desenvolvimento de games indie, na sessão de devlogs. Um devlog é um blog de desenvolvimento: um lugar onde os criadores do jogo podem concentrar todas as informações que acharem pertinentes sobre o processo de confecção do mesmo, desde arte, programação e, pasmem, música! Onde já se viu, música em vídeo games, né? Pois então, nesse fórum me deparei com o devlog de um jogo muito lindo chamado Thief Story. E quando eu digo lindo, é muito lindo mesmo; o que me deixou tarado pra fazer a trilha. Não posso ver um jogo com arte maravilhosa e mecânicas incríveis que já quero fazer a trilha dele! Sou desses.

Dá uma olhada na potencial tela de abertura e me diz se não é a coisa mais linda do mundo:

 

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“Vou roubar sua casa e você vai me perdoar porque sou fofo demais!”

 

Legal a gente começar falando de rataria e partir direto pra um projeto de game em que o protagonista é um gatuno. De qualquer forma, antes de ser cara de pau e importunar os devs me oferecendo pra fazer tudo de áudio que eles quisessem, dei uma lida no thread e claro que eles já tinham um compositor incrível trabalhando no projeto, né? Mas tudo bem porque descobri um artista sensacional com uma das linguagens mais autênticas que já ouvi! Sério, escuta esse som do Bo-en:

 

 

Não é uma fofura? É impressionante como a música é cheia de texturas e milhões de coisas acontecendo ao mesmo tempo; de modo que quando você olha pro contador e ele ainda tá marcando 50 segundos, simplesmente não dá pra acreditar! Os climas vão mudando um atrás do outro e você vai sendo levado por essa viagem frenética megalomaníaca de fofura e bons pensamentos sem nem perceber! Quando ouvi isso fiquei imediatamente apaixonado pela estética do Bo-en e ouvi logo tudo que ele já tinha produzido. Mas eu, como qualquer ser humano que prova leite condensado pela primeira vez, queria mais; então eu tinha que dar um jeito de encontrar gente que fizesse um som parecido. O Bo-en é um artista londrino que também faz trilha sonora pra games e tem um contato muito íntimo com a cultura japonesa; dá pra perceber só ouvindo as músicas mesmo ou vendo qualquer material gráfico dele. Então o que eu fiz foi procurar algum artista japonês bombado que o Bo-en seguisse. Tipo alguém com muito mais seguidores que ele; alguém que ele admirasse, sei lá. E bingo!

Taquwami in da house:

 

 

Dá pra identificar umas semelhanças entre os dois, não dá? O gostinho por baterias super complexas cheias de viradas e os reverbs aloprados colocados estrategicamente nos momentos perfeitos pra dar a sensação de espaço. Sem falar em toda a vibe japa; até porque o Taquwami é japonês mesmo da gema. As linguagens realmente são um pouco diferentes; enquanto o Taquwami tem uma pegada mais direta, mais balada mesmo, o Bo-en parece que tem uma cabeça mais voltada pro jazz e pro lado do vídeo game. E talvez isso tenha me feito curtir tanto o som dele. Então o que você faz agora que quer encontrar algum artista com uma linguagem mais vídeo game e, consequentemente mais próxima da do Bo-en? Exatamente. Procura alguém que tenha tido uma música remixada por ele e voilá!

Spazzkid:

 

 

Gente esse post tá muito amoroso do oriente! Até rimou! Não é uma lindeza essa batida de trap com atmosfera de coisas boas se abraçando a tardinha? Acho que dá pra argumentar que o Spazzkid fica mais ou menos no meio do caminho entre o Bo-en e o Taquwami, né? O que é bacana e até faz um certo sentido geográfico porque o cara é da Califórnia e tal. O que une esses três caras de uma forma mais palpável é justamente essa estética neo pop eletro japa com sonzinhos de brinquedo e 8 bits fazendo a festa. Então pra continuar no papo da estética parecida você pode procurar alguém com quem o Spazzkid tenha colaborado (o que é bem diferente do remix, porque colaboração geralmente rola com artistas solo ou bandas), e encontrar uma banda de eletro pop neo japa muito gracinha!

Kero Kero Bonito:

 

 

Esse beat já começa totalmente aloprando com um sample do Super Mario 64 e em 22 segundos a logo da Konami! Dá pra perceber claramente a influência da M.I.A. ou não? É como se fosse a linguagem dela aplicada a essa estética que a gente vem investigando desde o início do post. Todo esse pessoal que acabamos de conhecer tem entre 20 e 30 anos e só isso já bastaria pra dizer que eles tem referências em comum; mas com cada um vivendo num continente, fica claro que a internet é a responsável por aproximar toda essa galera com seus remixes e colaborações. É a mesma internet que permite que a gente seja capaz de sair de um fórum de games direto pro Reino Unido, depois Japão, dar uma passadinha nos EUA e voltar pro Reino Unido de novo, descobrindo um pedacinho novo da mesma coisa a cada parada. Mas não descansa ainda não que falta um último destino! Espero que essa viagem tenha sido proveitosa, que você agora possa se gabar do seu conhecimento da cena eletro pop japonesa pros seus amigos incultos e que tenha se acendido no seu coração a chama da descoberta de novos sons muito doidos!

Última parada! São Paulo, Brasil:

 

 

Mas esse não vou dizer como encontrei não! Rá!

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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