Geralmente o que faz alguém comprar um quadrinho são os traços marcantes de um bom desenhista. Veja bem, geralmente! Porque às vezes nós fãs de quadrinhos nos forçamos ao processo sadomasoquista de ler revistas com artes — se é que podem ser chamadas assim — que parecem ter sido feitas por um homem preso em alguma ilha perdida, cuja única referência de outro ser humano é um montinho de pedras e gravetos com o qual conversa todo dia.

São desenhistas que entortam a anatomia e o mundo para que fiquem parecidos com a mente torta deles. E eu fiz questão de colocar alguns representantes ilustres desse grupo, que não é pequeno. Serve de exemplo do que há de pior na indústria e do que afugenta tantos leitores em potencial. Que comece a Reunião dos Artistas Bizarros Sem Competência!

MARK BAGLEY
Gente, olha só a postura da MJ! Quem fica sentado assim, todo esticado?? Ainda mais quando está triste. E a cabeça dela está maior do que a do Peter., que está em primeiro plano.
Saca a postura natural e confortável da Mary Jane! Só senta assim a galera que tá com medo de mostrar o pneuzinho da barriga.

Eu costumava adorar o Mark Bagley quando comecei a ler quadrinhos. Não sei dizer quem mudou mais: o meu gosto ou o traço dele. Mas nos últimos anos os trabalhos do Bagley têm sido horríveis. O estilo dele é exagerado demais. Quando é preciso algo mais sutil, como diálogos ou pequenos traços de expressão, as cenas ficam forçadas. Fora que é difícil você perceber marcas de idade nos personagens dele, um personagem pode ter 15, 20, 30, 40 anos que isso não transparece na imagem. Ou ele pode parecer mais velho numa página e mais novo em outra.

Mark Bagley poderia ser um artista melhor, mas se acomodou e não soube evoluir.

DAVID FINCH
Os heróis da Marvel te olhando com cara de cu. Estilo CTRL C + CTRL V.
Os heróis da Marvel te olhando com cara de cu. Estilo CTRL C + CTRL V.

O David Finch é aquele cara que parece, só parece, que desenha direito. Mas no fundo ele representa os defeitos dos quadrinhos de super-herói. Sua arte é impessoal; os personagens expressam pouca emoção, e esta costuma variar entre cara de prisão de ventre e cara de cu. Além disso o design dos personagens é repetitivo: homens musculosos e mulheres magrinhas e peitudas, pra variar. Todos sempre com muita pose, sempre em posição de combate antecipando cenas épicas, mas quando você vai ver, na hora da porrada, as cenas de ação são bem pobres. E pouquíssimas, envolvendo aqueles socos e pernas pro ar, sem qualquer sensação de impacto. David Finch é sem graça e de mau gosto.

Saca só, o balão questiona a SURPRESA da Mulher-Maravilha. Essa cara de cu de modelo é a expressão de SURPRESA dela. Vai pra Hades!
O balão de fala questiona a SURPRESA da Mulher-Maravilha, certo? Então, esta cara de cu de modelo de shampoo é a expressão de SURPRESA dela. Dá pra acreditar? Vai pra Hades!
HUMBERTO RAMOS
Os olhos que o Humberto Ramos faz são perturbadores.
Os olhos que o Humberto Ramos faz são perturbadores.

Nos quadrinhos de super-herói, é comum ver artistas de baixa qualidade ou que abaixam o nível de seu trabalho para cumprir os prazos surreais das editoras. Mas o estranho é quando um artista de evidente baixa qualidade vira uma estrela do ramo e passa a desenhar as principais revistas das editoras. Uma das razões que me fizeram parar de acompanhar quadrinhos de super-herói foi esse cara aí: Humberto Ramos. Valeu, Humberto!

Ele ajudou a estragar um dos grupos mais interessantes de super-heróis da Marvel: os Runaways, filhos de supervilões que decidiram fugir de casa e tentar corrigir os erros dos pais. Era uma mistura de Goonies, Clube dos Cinco e X-Men. Foram dois ótimos volumes com Brian K. Vaughan e um terceiro volume mais ou menos com Joss Whedon, e então chegou o Humberto Ramos e tornou o quadrinho intragável. Quer dizer, vê só a imagem abaixo e diz se você conseguiria ler mais páginas disto:

Isso são mãos ou patas???
Isso são mãos ou patas???

E, por incrível que pareça, Humberto Ramos está aí até hoje, desenhando Homem-Aranha, Vingadores, X-Men, Wolverine e outros títulos importantes. Ganhando muito dinheiro (se bem que sei lá se a indústria paga bem), enquanto gente de talento mendiga freelas por aí. Vai explicar.

MASAMI KURUMADA
Cavaleiros no anime.
Cavaleiros de bronze na versão do anime.
Cavaleiros na versão original do mangá.
Cavaleiros na versão original do mangá, desenhados por Kurumada.

Não se engane quem viu o desenho dos Cavaleiros do Zodíaco na infância. O Masami Kurumada engole nanquim e transforma em cocô. É assim que ele criou o mangá dos Cavaleiros do Zodíaco. Se no desenho animado os personagens eram esguios, no mangá do Cavaleiros eles eram atarracados e pouco expressivos. Se no desenho as armaduras eram elegantes e com um design trabalhado, no mangá as armaduras eram simples e semelhantes entre si. Se na TV os personagens não se mexiam lá muito (fora subir escadas e correr para algum lugar — os caras alcançam a velocidade da luz, mas demoram horas pra transpor alguns degraus), nas páginas os personagens são tão agitados quanto postes.

Dá uma olhada no Shiryu desviando do Meteoro de Pégaso (lê-se: Meteoru de Pega-ZÚ) e impressionando os coleguinhas, menos os leitores com mais de dois neurônios:

O cabra se multiplicou em 4 tons diferentes de cabelo! É muita emoção, gente!
O cabra se multiplicou em 4 tons diferentes de cabelo! É muita emoção, gente!

E agora agradeça de joelhos ao artista Shingo Araki e à artista Michi Himeno pelos bonecos com armaduras legais que você teve na infância. Porque, se não fosse pelos dois e pelo Seiji Yokoyama, o santo que criou aquela trilha sonora foda, Cavaleiros do Zodíaco seria uma merda fumegante. Graças a eles é uma merda suportável, o que é um grande feito.

ROB LIEFELD
O clássico Capitão América Peitudo. E ele ainda tem um peito maior do que o outro.
O clássico Capitão América Peitudo. E ele ainda tem um peito maior do que o outro.

Agora a parada chegou ao fundo do poço. Daqui, até hoje, ninguém conseguiu descer mais um nível. Rob Liefeld não é só mau no que faz, como também influenciou toda uma geração de quadrinhos. Suas mulheres com pernas com quatro vezes o tamanho do tronco, homens com músculos que parecem mais câncer mal tratado, e uniformes que incluem sempre coldres e cartucheiras por toda parte do corpo, independente do personagem usar arma ou não, são a cara dos anos 90.

Todos os personagens que ele cria são a mesma coisa: imitações do Wolverine. A sua imitação de Wolverine mais famosa é o Deadpool, que recentemente foi adaptado para os cinemas. Só que a versão do Deadpool que se tornou popular não é bem a que o Rob Liefeld criou. O personagem foi praticamente reinventado por Joe Kelly e se tornou uma paródia dos quadrinhos de super-herói e de tudo que o Rob Liefeld representa. Felizmente, no mundo dos super-heróis, tudo pode ser refeito.

Deadpool boladão, cheio dos cintos, bolsos, cartucheiras, armas.
Deadpool boladão, cheio dos cintos, bolsos, cartucheiras, armas.

Para terminar a R.A.Bi.S.Co de hoje, antes que a presença de tantas entidades maléficas acabe abrindo um portal para o inferno, fiquem com uma das lindas mulheres de Rob Liefeld, com um corpo perfeitamente de acordo com a realidade. Só que não.

E não, ela não é uma mutante.
E não, ela não é uma mutante.
Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

DÊ SUA OPINIÃO