Muita gente conhece a Mafalda, a menina com o cabelo e o espírito mais revoltados dos quadrinhos. Mas poucos conhecem seu autor de bem menos cabelos, mas de espírito igualmente revoltado, o Quino. E o trabalho desse argentino octogenário vai muito além da Mafalda.

Quino começou a publicar tirinhas em 1954, só uns 10 anos depois Mafalda entraria na história. E a personagem não durou uma eternidade, como outros personagens de jornais — Quino parou de desenhá-la em 1973. Ou seja, a Mafalda, ainda que bacaninha, é só uma pequena parte da obra do cara. E é esse restante da obra dele que o torna um gênio dos quadrinhos.

Humor de símbolos

Tirei esse cartum do livro Bem, Obrigado. E você? - Editora Martins Fontes.
Tirei esse cartum do livro Bem, Obrigado. E você? – Editora Martins Fontes.

Uma das características marcantes de Quino é como ele consegue construir humor e sentido sem precisar de palavras. Ele carrega cada traço com significado, de forma que um único desenho pode parecer uma história. Acima temos um exemplo. Um cartunista qualquer poderia usar três quadros para contar a mesma piada: primeiro quadro, os passageiros parando na escada do avião para olhar algo; segundo quadro, o piloto sendo carregado bêbado para dentro do avião; terceiro quadro, os passageiros fazendo alguma careta de desespero.

Mas Quino habilmente usa a asa do avião para dividir a imagem em duas, de forma que olhamos do piloto bêbado para os passageiros, criando nós mesmos a narrativa. É muito mais intrigante do que ver uma cabeça falando e depois outra cabeça falando. Os quadrinhos de Quino permitem aos leitores deduzirem; nada está entregue de bandeja.

Mesmo quando usa balões de fala ou pensamento, ele o faz de maneira inusitada: o balão de fala não é só texto, é um símbolo também. É um desenho por si só. Dá uma olhada:

Tudo o que você precisa saber de matemática na vida.
Tudo o que você precisa saber de matemática na vida.

Aqui o balão de pensamento funciona como se fosse um outro quadro. O seu conteúdo textual, ou melhor, numérico, pouco importa. Poderia ser qualquer número. O que importa é como os elementos se posicionam: o camarada grande de óculos na ponta da casa dos milhões, e o camarada de bigode na outra ponta, na casa dos centavos, substituindo um zero. É um símbolo claro da desigualdade econômica e da exploração do trabalho.

 

Experimentalismo

A busca por trabalhar cada elemento dos quadrinhos vai naturalmente resultar num experimentalismo da forma. Acho que essa foi uma grande razão para Quino ter colocado um fim para Mafalda no auge. O formato tradicional de tirinha é muito limitador para o seu estilo. Quino é capaz de fazer quase tudo com seus traços em preto e branco e só perde em experimentação para outros deuses da arte sequencial, como Art Spiegelman, criador do Maus. Mas até mesmo Art Spielgman bateria palmas em pé para o próximo quadrinho.

quino7

Quino criou duas narrativas paralelas que se encontram em um ponto: o dinossauro que vira gasolina e a evolução do homem. A grande dificuldade desse tipo de quadrinho é como guiar o leitor. Seriam opções menos elegantes o uso de setas ou separar mais os elementos, o que atrapalharia apreender o quadrinho como um todo. A escolha de Quino foi fazer pequenas brechas nas molduras, que lembram aqueles labirintos de almanaque, em que você tem que traçar o caminho até a saída com lápis.

Eu gosto muito dessa ideia de quadrinhos como labirintos em que o leitor tem que seguir as pistas que o autor deixou para chegar ao final. É um dos prazeres mais peculiares dessa arte.

 

Erguendo o dedo médio para o sistema

Quino é um grande crítico social. Para começo de conversa, o cara conseguiu criar uma personagem infantil declaradamente política que se tornou sucesso em boa parte do mundo. Quer dizer, menos nos Estados Unidos, onde Mafalda nunca foi publicada. Por que será, né?

Então, é de imaginar que o trabalho mais independente dele seria igualmente recheado de crítica ao capitalismo, neoliberalismo, exploração do trabalho, repressão, consumismo; tudo o que impede o espírito humano de ser livre e sociedade de ser justa. E sempre com humor inteligente e certeiro. Para quem se entope desses programas de TV que se acham irreverentes, recomendo ler Quino para desintoxicar.

Deixo vocês com um dos meus quadrinhos favoritos dele, que une tudo que falei aqui e mais um pouco.

quino3

Quer receber mais conteúdo? Cadastre-se no nosso Clube de Cultura

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

DÊ SUA OPINIÃO