A sociedade é norteada pelos seus livros, filmes, novelas, produtos que servem de um referencial sobre como você deveria estar se sentindo agora. As construções e panoramas de comportamento são alimentadas constantemente pelas literaturas. A partir disso, como é amar e o amor romântico em tempos de Nego do Borel onde ficar sozinho da Caô? Ou ainda nos tornamos mais imediatistas já que a Ludmilla disse que é hoje?

Amar em tempos de pré-carnaval é – em terras cariocas pelo menos – considerado uma extravagância emocional. Para quem já esperou 11 meses pra sossegar ao lado de alguém, escolher janeiro para fazê-lo é sinal de amor verdadeiro, porque os foliões que acabaram de trocar a roupa branca do ano novo por fantasias, glitter e cerveja gelada nos blocos de finais de semana, preferem enrolar um pouquinho mais, pagar com traição a quem sempre lhe deu a mão e passar a festa da carne mais livre, leve e solto. Às vezes penso que há o amor e há o que acontece no Rio de Janeiro, que seria uma coisa bem similar, mas, talvez, com forte resquícios da malandragem, o samba faça morada mais intensa e presente nas relações estabelecidas e enroladas na cidade maravilhosa.

E, isso fala tanto da cidade quanto do panorama e imaginário que temos do Amor. Não sei pra vocês, mas, pra mim, o amor é o A moreninha de Joaquim Manuel de Macedo e todo aquele romantismo próprio dos autores que morriam de tuberculose. Alguma coisa de Shakespeare, também considero amor. E, Neruda, definitivamente é amor.

Entender o amor é tarefa antiga, Platão há quatro séculos antes de Cristo, no seu livro “O banquete” já tentava entender o amor, sua construção, natureza e qualidades e isso é algo a que os filósofos vêm se dedicando desde sempre. Lembro da minha surpresa ao ler “O banquete” e de quase não poder acreditar que as questões são e persistem sendo as mesmas desde 380 a.C.

N’O banquete, Platão narra um jantar, onde os filósofos da época foram convidados a proferirem discursos sobre o amor. Antes disso cada um teria que tomar 5 (CINCO) litros de vinho. Antes da cota de bebida, não era permitido começar o tal simpósio. Já se vê que a tarefa era difícil e que é um clássico o combo bebida + falar de amor (não só com o Marcinho).

No livro, os filósofos contam sobre a natureza e as qualidades do amor, alguns falam que só existe amor de verdade entre os homens, ou entre os mancebos e que as mulheres seriam só para reprodução, falam sobre o Deus Eros e a relação do homem com o sentimento. Falam da magnitude e na dificuldade de explicar o amor em palavras.

No entanto, o que mais me chamou a atenção foi o vinho e a obrigatoriedade de somente começarem os trabalhos depois de atingida a cota de bebida. Será que somente fora da nossa consciência conseguimos alcançar o que é o amor?

Se foi Platão que inventou o amor, já temos a prova: ele possivelmente estava bêbado.

Se mesmo os inventores da Filosofia tinham que beber pra falar do dito cujo, é natural que a gente se perca e que Renato Russo tenha pedido uma explicação pra quem inventou o amor. Muitos séculos e alguns milênios depois, o filósofo francês, Roland Barthes, publica em 1977 seu livro “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, onde faz um trajeto desordenado por vários estudiosos de diversos campos que trataram o tema amor.

Vejo a relação de Barthes com o que se lê n’O Banquete de Platão, quando ele diz que O sujeito apaixonado é atravessado pela ideia de que está ou vai ficar louco e, essa é a exata sensação ao se ler o seu livro… A falta de organização, quase uma embriaguez das ideias que parecem próprias de uma cabeça apaixonada, e ao ler sobre o amor partindo de sociologia, psicologia, etc. Ainda assim, afirma Barthes, tudo no livro é como algo que se leu, ouviu ou experimentou. E é verdade, meu trecho favorito é quando ele fala sobre as cartas de amor. Para quem ficou curioso sobre o Fragmentos de Discurso Amoroso deixo a referência aqui.

Penso se os corações cariocas se sentem assim, se encontram na literatura de Barthes ou nos discursos platônicos sentido pro que se sente, uma vez que a cultura é outra. O aparato local trata o amor com outras abordagens que convocam mais cuíca e temas locais, mas ainda assim, consumimos peças universais que representam o amor quase que de maneira afinada. As borboletas no estômago e o sorriso bobo são um denominador comum no amor romântico?

Bêbados ou loucos, fato é que o apaixonado é aquele que é retratado nas literaturas como o que sai do lugar comum. O personagem que corre, no último minuto do filme, em busca do ser amado que parte pra uma viagem sem volta pra longe dele. É o Romeu que toma o veneno e a Julieta que morre com ele, algo em torno de sacrifício, entrega e redenção. Que, acredito, é melhor deixarmos pra conversar depois da quarta-feira de cinzas, quando o amor maior já tiver passado pela avenida.

 

 

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Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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