Nesta última crônica do ano, dedico-me a pensar sobre o enorme espetáculo visual das Queimas de Fogos de Réveillon. Nas páginas do romance medieval Tristão e Isolda a queima de fogos de artifício já era registrada. Por que e de onde vem nosso alvoroço e encantamento com shows pirotécnicos? Quando criança, nossos ouvidos tão aguçados, ao serem invadidos pelos estouros pirotécnicos, promovem um reboliço em todo o corpo. Um misto de temor pelo estrondo com encantamento tanto pela beleza visual decorrente da combustão, quanto pela batida que toca o coração e faz pulsar o peito.

 

Fogos de artifício. Linha plana e, de repente, um rompante, um estrondo. Um algo que rompe com a ordem natural das coisas e anuncia, em potência infinitamente superior aos velhos e graves badalos do sino da igreja, que “o novo que sempre vem”. Ao redor de todo o mundo, o chegar da meia-noite do dia 31 de dezembro vem acompanhado por uma grande combustão de cor, som e alegria. As mais variadas culturas unidas por uma mesma forma de observar e contar a passagem do tempo. Mesmo as culturas que comemoram a virada do ano em momentos outros são inundadas pelos fogos e luzes decorrentes do calendário gregoriano, se está correta a bula que li.

 

Houve um ano em que esperei o ano novo nas montanhas. Em um lugar de tamanha altitude e de tão poucos moradores que nem esperávamos ser visitados por fogos. Também não nos atrevemos a levar um sequer, respeitando o silêncio e o espetáculo da natureza daquele local. Contudo, mesmo lá recebemos a visita de uns breves e singelos fogos de artifício, anunciando-nos que o ano novo chegara. Ou será que teríamos imaginado na mais pura verdade de uma miragem?

 

Nessas ocasiões em que o céu veste sua roupa de gala para receber um tempo novo são muitos e infinitos os pensamentos, sensações e emoções, tal qual o firmamento. Temos a esperança de dias melhores, “dinheiro no bolso, saúde para dar e vender”. Sentimos saudades daqueles que as incompatibilidades das festas de fim de ano não nos permitiram estar juntos. Saudades ainda daqueles que se foram de forma (quase-)definitiva e que, não estando fisicamente por este mundo não poderemos sentir nos braços seus abraços nem o cheiro de roupa nova e perfume de festa. Saudades… saudades imensa das pessoas que se foram e que tanto comemoravam esta festa.

 

Por outro lado e de outro lado, posso olhar para cima. Posso olhar para o horizonte e ver o céu. Posso ver e sentir que o céu é único e o mesmo para todas as dimensões deste mundo. Posso pensar que as luzes de nossos terrestres fogos de artifício alegram não somente a nós que giramos os pescoços aos céus em prece (in)consciente de esperança, saudade e alegria, mas também alegram as estrelas que iluminam o firmamento e velam nossos 365 dias (ou 366) de todos (ou quase todos) os anos com a intensidade e insistência de suas luzes. É através do céu repleto de fogos, com o horário das 0h00 que me reconcilio comigo mesma, que me aproximo de meus mais queridos entes e que toco em oração aqueles que não posso mais ter junto à mão. E é também através dos fogos que me uno, ainda mais, àquele que está ao meu lado pela presença-presente-da-vida-infinita.

 

Fogos de artifício – Fogos de Réveillon. Fogos que anunciam o tempo e marcam um tempo. Fogos de todas as cores. Fogos de minha-infância-furta-cor. Fogos que reúnem e separam um tempo. Fogos que demarcam um tempo. Fogos que comemoram um tempo. Fogos que abrem infinitos caminhos.

 

Talvez da mesma forma possamos pensar a respeito da arte – um rompante na ordem natural das coisas e que nos põe em posição de contemplação não somente do show de imagens e de sons externos ao corpo, mas também do show de sensações e emoções que em turbilhão percorre nosso corpo perante a possibilidade do desconhecido que se aproxima. Há algo que nos anima. Há algo que nos faz ter esperança, que nos faz sentir que podemos ser melhor do que fomos até então, que o simples fato de sermos nós, em toda nossa potência, desde o poro, desde cada pelo e cada fio de cabelo, passando pelos ouvidos, pela adrenalina carregada no sangue e chegando ao coração, é o suficiente para sermos felizes, para sermos nós, para sermos plenos. Há algo que mais e muito mais do que simplesmente contemplar, podemos sentir e viver enquanto indivíduo e enquanto coletividade, algo que podemos ver com os sentidos.

 

FELIZ ANO NOVO!

Caroline Alciones

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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