Pegando carona no post passado, fiquei com vontade de falar um pouco mais sobre o produtor cultural (não precisa voltar e ler o outro não, segue aqui que vai dar tudo certo). Desde que optei por essa profissão… Na verdade, corrigindo, desde que optei por esse assunto e comentei por aí, grande parte das pessoas tem a mesma reação: “Que legal! Mas o que um produtor cultural faz?” A pergunta que virou bordão para a minha e algumas outras turmas da faculdade. Antes de continuar, faço um parêntesis um pouco mais longo.

 

Fiz a correção anterior e quis evidenciá-la por um simples motivo, eu não sabia de fato o que era a profissão do Produtor Cultural. Tudo que conhecia disso foi o que o famoso (na época) Guia do Estudante dizia e minha escolha foi pela identificação com os assuntos tratados. Porém existem 3 coisas diferentes nisso que conhecemos por escolha da profissão: a descrição do curso, o que o curso efetivamente é e a profissão que você vai exercer. A profissão pode ou não estar diretamente relacionada com a faculdade. A profissão, ou melhor, os trabalhos que você vai desenvolver e que podem lhe dar retorno financeiro além da realização pessoal, são construídos por você a partir dos conhecimentos que você adquiriu estudando determinados assuntos. Isso é o que eu gostaria de ter ouvido naquela época. Teria otimizado meu tempo com essa escolha. Fecha parêntesis.

 

Para explorar o grande bordão da Produção Cultural, vou fugir da academia. Tem uma literatura ótima para aprofundar o assunto, como o clássico verbete do Dicionário Crítico de Política Cultural, um  alinhamento de conceitos super importantes para o campo da cultura no Brasil, feito pelo Teixeira Coelho. Vou então recorrer a melhor linguagem, a mais palatável possível, o audiovisual. Um grupo de alunos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte fez um video simples, mas bem interessante para a entrada (por alguma razão o audio se foi, mas ainda da para captar a ideia):

 

 

Como o pessoal aí em cima diz, o produtor é quem ocupa a posição central, quem faz a mediação entre poder público, sociedade, artista e iniciativa privada. Em outras palavras, é quem liga todas essas pontas para realização de um evento, ação ou política cultural. É alguém que precisa ter uma visão holística de todo esse sistema, entender as linguagens e interesses de cada um desses elementos. Por isso que o produtor, para mim, tem que conhecer um pouco de tudo. Um generalista de carteirinha. Saber falar de arte e de administração, de políticas e de religiões. Estar antenado a tudo que esta acontecendo no mundo e estudar sempre. Isso é o que tenho descoberto em meu próprio caminho. Existe uma visão de que o produtor é um executor de tarefas e preciso dizer que não. Não só. Tarefas estão presentes em todos os trabalho e em diferentes níveis de acordo com o desenvolvimento da profissão e o estágio da carreira. Mas produtor precisa ir além, precisa ter pensamento crítico e criatividade para fazer as conexões necessárias entre gentes, instituições e ideias. É bonito pra caramba, mas tão duro quanto.

 

The Producers

Como prato principal, trago dois filmes que falam ludicamente sobre a profissão. Um que não gosto muito, chamado Os Produtores (The Producers). Uma comédia, puxada para o pastelão, de Mel Brooks, que prefiro mais a versão de 1968 do que a de 2005. Ainda assim, vale uma olhada em alguns trechos, onde podemos ver algumas fases da produção. A captação de uma ideia, busca de um artista, liberação de direitos, levantamento de recursos e execução. A parte toda a picaretagem dos protagonistas, claro. Filtra isso. Mas se seu tempo é escasso, foca na próxima referência.

 

O segundo filme esta na prateleira dos meus prediletos. Vatel, Um Banquete para o Rei (Vatel). Normalmente indicariam esse filme para mostrar como era vida da realeza francesa do século XVII, mas precisamente do rei Luis XIV. Somando a isso, a bela atuação de Gerard Depardieu e um humor leve delicioso, o filme já vale a pena. Mas meu olhar para ele é outro. Vatel é tido como o cozinheiro do Príncipe de Condè, incumbido de fazer um grande banquete e para receber uma visita do rei. Mas logo na primeira cena podemos ver que ele é o grande responsável não somente pela cozinha mas por toda a festividade. Comida, cenário, encenação, direção, ornamentação… enfim, ele estava atento a todos os detalhes e conhecia de tudo um pouco. Seu personagem acaba exercendo muito de um produtor cultural. Vatel compreendia os interesses do príncipe e sabia o que agradaria o Rei-Sol. Ele era o elo de ligação entre essas duas pontas, que trazia nessa conexão todo um espetáculo. Altamente criativo. O que quero mostrar aqui são algumas características que vejo no personagem comuns ao do produtor cultural. Não vou entrar em juízo de valor sobre o tipo de evento, ou por ser somente o evento, ou pelo objetivo ser agradar o rei, etc. A comparação aqui é para exemplificar alguns aspectos e não para esgotar uma definição.

Outro ponto clássico do produtor, que o filme apresenta logo na entrada, são os credores. Vatel deve a todos. Uma triste realidade, mas que faz parte do cotidiano de muitos produtores, já que o risco final é deles. Por isso, o produtor cultural no Brasil tem que ser capoeirista. Tem que dançar, cair levantando e já dando o próximo golpe, tem que ser fluido e leve. Gestão de dívida é um campo do conhecimento que só desenvolve-se na pratica da produção nesse país. Imagine uma empresa de produção cultural: ela recebe recursos de fontes diversas, cada uma com uma regra de uma lei de incentivo específica, cada projeto em uma conta específica, cada empresa patrocinadora com uma exigência diferente… Pense nessa contabilidade. A conta de luz sai do projeto x, o salário do seu produtor, que esta la todos os dias, com carteira assinada, sai do y e a papelaria do seu escritório do projeto z. Fora os atrasos nos repasses e os projetos trabalhados e não captados. Disse que era duro. Mas que realização incrível não é fruto de muita dureza?

 

Como sobremesa, para arrematar com aquele café, faço um leve paradoxo contrariando todo o objetivo desse post e da própria coluna. Tento aqui caminhar junto para tentar entender mais sobre esses assuntos, como Produção e Gestão Cultural. Mas eis que na tentativa de entender as coisas vem a arte e bagunça tudo, o que faz essa busca por conhecimento ser ainda mais gostosa. Vai Abujamra, vai Clarice:

“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.” Clarice Lispector

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

1 COMENTÁRIO

  1. Massa, Thiago! Acho que faltou uma outra referência audiovisual: o filme nacional “Saneamento Básico”. Até então, era minha indicação clássica. Vou assistir aos que tu indicou, pra ver outras possibilidades. 🙂

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