cinema3Empregada doméstica e babá não são cargos que só existem no Brasil.

Exploração e maus tratos em local de trabalho, também não.

Dito isso, podemos dizer que o filme sobre o qual falo hoje trata de relações humanas dentro de uma sociedade desigual. De acordo? Então, vamos lá.

“Que Horas Ela Volta?” é uma versão café-com-leite de um estigma social profundo: em um país de desigualdades (qualquer que seja o país), fronteiras sociais são estabelecidas a olhos vistos. Mas e quando essas fronteiras começam a se dissolver? Como os membros de ambos os lados vão se comportar? E aí é que a diretora e roteirista, Anna Muylaert, pega leve e deixa que a simpatia da personagem Val (Regina Casé) alivie o constrangimento e faça o público sair levinho levinho da sala de cinema.

Imagine uma família de classe alta do bairro do Morumbi, em São Paulo, que segue com rigor os estereótipos desse segmento social. Ela teria a mãe (Karine Teles), que parece ter saído diretamente de um episódio de “Mulheres Ricas” (comparação feita por Andrea Ormond, em sua crítica para a revista Cinética); o pai-artista-frustrado (Lourenço Mutarelli), herdeiro e provedor da casa luxuosa; o filho (Michel Joelsas), um adolescente doce que vive protegido em sua bolha social; e claro, a empregada, “um membro da família”, Val, mulher nordestina que trabalha ali há mais de 10 anos, e que deixou para trás a própria filha para sustentá-la sendo “mãe” de outra criança.

Nessa família, fica bem fácil odiar de cara a patroa passivo-agressiva, se afeiçoar um pouco do garoto amoroso, vestir a camisa “Val Team” e ver o filme no mais absoluto conforto de que você está torcendo pelo personagem certo, com a certeza de que as coisas são sim preto no branco (e não “descasadas” como a personagem de Casé diz sobre um jogo de louça de café com peças pretas e brancas).

O maior problema de “Que Horas Ela Volta?” é apenas acender uma faísca, quando poderia fazer um verdadeiro incêndio.

A invisibilidade social, as regras veladas do “pobre tem o seu lugar”, a exploração do trabalho doméstico… Está tudo lá. Você vê uma face de realidade. Mas e o conflito? Jéssica, a filha de Val, chega de Pernambuco para prestar o vestibular em São Paulo. Uma adolescente que não aceita a posição submissa da mãe e nem tratamento de “filha da empregada”.

“Ótimo! Agora vamos ver algo acontecer! ”

A jovem, interpretada por Camila Márdila, pergunta com indignação porque a mãe nunca entrou na piscina dos patrões (?), pega escondido na geladeira o sorvete caro da família (?)… Tudo nos leva a acreditar que, em alguns anos, essa jovem, tendo ascendido socialmente, terá na sua casa um exemplar de “Val” para cuidar de seus filhos enquanto cuida dos negócios. Então qual é a mudança?

Em diversos momentos, a simplicidade e a simpatia de Casé na pele de Val arranca risadas do público, e a naturalidade com que os personagens interagem é um mérito do trabalho da direção e dos atores. Sendo um filme essencialmente feminino, nenhuma personagem do gênero poderia ser meia-bomba, e Karine Teles, no papel da (convenientemente nomeada) Bárbara, faz sua parte e nos entrega um ótimo exemplar de uma parcela preconceituosa e assustada da sociedade: ela assiste a ascensão social daqueles que jamais esperou ver, inclusive os vê a caminho da faculdade, disputando vaga com seu próprio filho. É claro que fica aquela vontade de ver um outro lado dessa personagem, e não tão estereotipada, com seu crachá da maldade destilando veneno pela mansão.

“Que Horas Ela Volta?” foi o escolhido pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil em uma disputa por uma vaga para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano que vem. Há sete anos, um outro filme brasileiro conseguiu essa vaga e entrou na disputa para o prêmio norte-americano.

 

 

 

 

Para esta colunista, a inversão que se vê no cartaz do filme de 1998
já te dá a dica de que esse é um filme que realmente vai tirar algumas coisas do lugar.

 

O estado de espírito de quem sai da sessão de “Que Horas Ela Volta?” é leve e amaciado pelo humor e pela sorridente interpretação de Regina Casé. Você pode até ter se remexido na poltrona em alguns momentos, mas no fim, tudo se encaminha para um final feliz e tá tudo certo.

É importante ressaltar que o filme fala de seres humanos e de lugares sociais que estes ocupam, então não venha me dizer que seu amigo gringo ficou horrorizado com a situação apresentada, porque ele provavelmente tem um vizinho que faz o mesmo e se ele não vê é porque está tão atento a isso quanto os convidados da festa que Bárbara promove na mansão do filme.

Trailer do filme:

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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