Todo mundo tem uma história para contar. Não é raro um autor já publicado, de certo renome, escrever as suas memórias. Pode contar sobre sua infância, seu relacionamento com a família na tenra juventude; pode narrar de seus causos como adolescente, ou pular diretamente para a parte de sua vida na qual engajou-se na carreira de escritor. Com toda a sua experiência literária, seu manejo destro do idioma, ele faz do que poderia ser facilmente uma obra jornalística, com seus fatos e documentos, uma leitura tão proveitosa e interessante quanto um bom romance.

Enquanto um relato biográfico padrão faz o máximo para se prender aos fatos duros, ao registro comprovado, um livro de memórias não raramente acaba se esvaindo em algum devaneio ou pensamento, a interpretação do passado. O monstro da memória imperfeita e a falibilidade de um narrador de fatos reais inevitavelmente acaba ficcionalizando, acidentalmente ou não, situações, personagens — quem sabe o próprio protagonista e narrador, este ser de carne e osso que está a redigir suas memórias como as lembra e como as tem. Mas entre o registro do relato jornalístico e a subjetividade da memória, até a completa não-factualidade de um romance completo, temos algumas áreas cinzentas que são muito interessantes.

O que acontece quando misturamos a ficção e não-ficção? Melhor, o que acontece quando misturamos a nossa não-ficção, ficcionalizamos nosso próprio eu e o inserimos em uma obra?

Esta experimentação, publicada e estudada sob o rótulo de “autoficção”, vem sido de certa forma popular na literatura contemporânea. Quando o personagem é o eu, e o autor se insere na história inventada como protagonista, onde ficam nossos referenciais do que é o real? Como sabemos o que de fato ocorreu no passado do autor e o que é invenção de sua arte? Perdemos as fronteiras palpáveis entre o real e o virtual. Nessa ambiguidade deliberada por parte do escritor, encontramo-nos em um campo desbravado e instigante, onde misturamos vida e invenção em um registro híbrido: meio literatura, meio biografia.

Este registro ambíguo pode surgir de várias formas. Em um estilo mais discreto, que não chega a ser própriamente autoficção, mas sim um romance autobiográfico, o autor pode fabular apenas de leve os acontecimentos mas manter temas similares aos da vida real. Mude o seu nome e aparência mas faça dos pensamentos, atitudes e situações os seus próprios, de modo a expressar artisticamente pedaços de sua própria vida. Insira ali sua vida travestida de romance. Um bom exemplo seria Adeus às armas¹, de Ernest Hemingway, que narra a história de um motorista de ambulância na Primeira Guerra Mundial que se apaixona por uma enfermeira, o que de fato aconteceu com o autor durante o seu tempo como estrangeiro no exército italiano.

Por outro lado, menos comum, podemos ter o autor como um personagem-narrador que não vivendo sua própria história, mas observando a crônica de outra pessoa; assim, torna-se um observador à distância. Ou siga pelo caminho contrário e insira a si mesmo, com seu nome, carreira, aparência e estatura, e reinvente os acontecimentos, que podem ou não ter relação com os fatos reais. Podem ser uma paródia ou uma releitura de sua vida, ou pode envergar completamente para o caminho da fantasia. Com a jogada publicitária certa, pode até mesmo confundir o leitor para fazê-lo duvidar do que aconteceu, atenuando esta fronteira entre a realidade e o simulacro.

Capa de Lunar Park, de Bret Easton EllisUm exemplo que gosto bastante é um romance chamado Lunar Park², escrito por Bret Easton Ellis e publicado em 2005, aqui no Brasil em 2006. Começa simulando uma autobiografia, com uma mea culpa do autor em relação à sua vida pública e livros passados, ambos controversos. Sua vida é regada a hedonismo, assim como os seus personagens e temas literários (nos quais constam os polêmicos Abaixo de zero e O psicopata americano), o que lhe rendeu vários incidentes com figuras públicas e movimentos sociais. Em Lunar Park, Ellis começa por narrar estes fatos como se fossem suas memórias; aborda seu casamento, sua vida familiar, suas separações e retornos, até aproximar-se do tema de um incidente fundamental que mudou sua vida nos últimos anos, que é então o tema do romance.

A grande sacada surge quando se descobre que, apesar de realmente ter publicado sua literatura e se metido nas polêmicas que expressa, sua família como representada não existe de fato, sendo meros personagens criados para a história. A biografia de Ellis colocada no primeiro capítulo do livro mistura arbitrariamente pontos reais e pontos inventados, de forma a não sabermos realmente onde acaba o verdadeiro autor e onde começa o narrador-personagem que leva seu nome. Além disso, apesar de o começo da história ser verossímil, tangível e realista, logo o romance se desenrola em uma história de horror sobrenatural que contém Bret Easton Ellis — ou o seu duplo real, seu eu ficcionalizado — como protagonista e agente principal.

Seus personagens de trabalhos anteriores retornam fisicamente para lhe assombrar; acontecem assassinatos, assinados pelo seu famoso “psicopata americano”, e realizados com um modus operandi similar a do protagonista de sua última obra. O livro se transforma em um meta-livro: um romance sobre seus romances, um autor-personagem-narrador que deve enfrentar suas criações passadas, que parecem ter deixado as páginas. E se apenas o começo era real, o resto falso, o quanto deste “resto” ainda representa autobiograficamente uma experiência com seu passado que Ellis deixa ambígua em sua obra?

Apesar de a autoficção e suas variantes no romance autobiográfico e as fabulações de si terem uma proposta artística — em minha opinião — interessante e passível da análise, ainda há um certo desinteresse por parte da crítica formal, que a considera demasiado egocêntrica, por sua fixação na imagem do escritor. Alguns a consideram um reflexo concreto da nossa pós-modernidade do século atual. Representam-na como um “paradoxo nesse final do século XX: entre o desejo narcisista de falar de si e o reconhecimento da impossibilidade de se exprimir uma ‘verdade’ na escrita”³. Pois, se por um lado, como dito acima, é impossível relatar e escrever os fatos passados sem deturpar de nenhuma forma os acontecimentos na escrita literária, por outro esse desejo egocêntrico do falar de si, de expressar a individualidade em sua forma mais pura, impulsiona alguns escritores a “escreverem o que conhecem”.

E o que conhecem melhor do que si mesmos?

Assim, misturam a si próprios com o simulacro para desenvolver uma nova subjetividade e dar asas à sua arte. Expõem-se, como memória, confessionário ou puro romance, para desfazer as fronteiras, fazer-nos esquecer onde acaba o real e começa o virtual. Enfim: o que acontece, quando o personagem sou eu, é que escrevo a minha vida mas escrevo ficção. Transformo minha vida em literatura.

Referências

¹ HEMNGWAY, Ernest. Adeus às armas. 10 ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. 406 p.
² ELLIS, Bret Easton. Lunar Park. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. 368 p.
³ KLINGER, 2007, apud TREFZGER, Fabíola Simão Padilha. Autoficção: entre o espetáculo e o espetacular. Artigo, 2013. ISSN 2317-157X. Página 3.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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