Quando a gente percebe que está se distanciando do que somos na essência, é hora de parar. Você sempre foi muito apegado à família e, de repente, se viu preso em um trabalho que te impede de participar das confraternizações familiares? É hora de parar. Nunca foi apegado a celular, computador ou qualquer tipo de tecnologia e se vê obrigado a passar 24h conectado, a espera de informações importantes que podem chegar a qualquer momento? Se isso te deixa ansioso e irritado, é hora de parar. Esse texto é sobre minha despedida do TagCultural, mas principalmente sobre as relações exploratórias em que nos envolvemos na prática de profissões criativas, sendo a Produção Cultural uma delas. A dita liberdade que gozamos não pode nos tornar reféns.

Dois caminhos profissionais mostram-se logo no início da carreira, resumidos em uma pergunta: você prefere a estabilidade do emprego de 8h por dia, cinco dias por semana, ou a liberdade dos projetos passageiros, dos serviços freelancer, que garante ao mesmo tempo flexibilidade nos horários e incerteza financeira? Eu sou o tipo 2 e acredito que nenhuma frustração relacionada à prática vai me fazer mudar de lado. Sou geminiana e a estabilidade me enfraquece. Assim como Barney Stinson, de How I Met Your Mother, pra mim “the new is always better”. No entanto, tenho pensado nessa dualidade de tipos profissionais sob outra perspectiva: enquanto as pessoas do tipo 1 são contempladas não apenas com estabilidade financeira, mas emocional, parece que a nós é destinado o fardo do terror psicológico, a vida constantemente vira uma gincana. A um freelancer é cobrado o dobro da produtividade de um funcionário fichado na empresa, são solicitados serviços não acordados e, mesmo que ele entre no meio do projeto, é responsabilizado pelo insucesso de metas não cumpridas devido a erros cometidos no início da execução. Esse profissional precisa ser um super-herói, sua humanidade é negada em muitas situações. Os prazos, sempre apertadíssimos, prejudicam sua saúde física e mental.

Já vivi no cenário descrito acima, mas hoje gerencio um projeto cultural e posso afirmar: o terror psicológico não existe devido à posição de subalternidade que o freela ocupa, mas sim porque, seja em posição de empregado ou líder, aos profissionais criativos é exigido malabarismo. E, se você não o fizer, é considerado mal profissional. Já tinha lido isso relacionado ao trabalho da mulher: ela precisa trabalhar três vezes mais que um homem, pra mostrar que é capaz e obter reconhecimento. O profissional criativo também precisa trabalhar 24h para obter reconhecimento. Talvez nem assim consiga. Nesta semana, por exemplo, o Diretor de Cultura do município onde atuo me disse que o que eu faço qualquer um faria. Risos. Penso em registrar esse tipo de pérola quando encerrar minha atuação aqui, porque são muitas e de diversas naturezas, mas gostaria de lembrar que esse tipo de comentário é comum, direcionado ao produtor, designer, assessor de comunicação, entre outros. Precisamos de leis trabalhistas que regulamentem tais profissões, esse é o caminho prioritário, mas isso merece uma reflexão aprofundada, assunto para outro post.

Diante disso tudo, decidi então parar. Não com o projeto – um contrato com a instituição financiadora e uma enorme vontade pessoal impediriam -, mas com uma atividade passiva diante dos que exigem do produtor cultural heroísmo. Mais ainda: parar de naturalizar, eu mesma, o heroísmo – não incluir no orçamento do projeto custos básicos, assumindo eles, ou considerar razoável trabalhar 16 horas por dia, sem final de semana ou feriado, diz sobre isso. Mas também decidi parar de escrever para o TagCultural, por entender que não conseguia assumir mais esse compromisso. É honesto comigo e com a equipe desse espaço tão bacana. Um dia volto, pois, quando eu cumprir a meta de abandonar apenas o que faz mal, deixarei de parar com o que faz bem. Até lá!

 

Adriana Santana
Em trânsito permanente entre o sertão e o litoral baiano, gosta dos dias quentes. Geminiana, com ascendente em Áries e Lua em Aquário, respeita a astrologia. Podem acusá-la de patriota, uma vez que prefere cinema, literatura e música nacional. No entanto, não é bairrista: gosta de sotaques e só viaja para ouvi-los. Na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), se formou em Produção Cultural. Profissionalmente, desenvolve projetos culturais comunitários e presta assessoria de comunicação para eventos. Academicamente, estuda Cultura e Território e Políticas Culturais. Apaixonada por conversas, ainda que despretensiosas, acredita no diálogo e no trabalho colaborativo.

3 COMENTÁRIOS

  1. Obrigada, Gabriel! Massa o seu depoimento, prova que isso a gente enfrenta em qualquer área. Tomara que seja só uma fase e que as coisas melhorem. Abraço!

  2. Boa sorte! Tudo de bom nessa empreitada, adorei seu texto!
    Faço medicina, pensando em juntar prestígio, ajuda ao próximo e retorno financeiro em uma só carreira. Estou quase na metade do curso e tudo que posso dizer é: desumano! Nossa grade de estudo é absurda, a cobrança, a pressão, a necessidade de fazer ainda mais atividades optativas. Desumanho. Tenho pensado em parar, está me fazendo muito mal…mas dizem que é só uma fase. Espero que seja verdade.

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