Bailarinos e Produção Ballet Romeu e Julieta

É satisfatório quando vemos um espetáculo de dança impecável no palco, bailarinos com técnica de alto nível, cenários bem feitos, trilha sonora adequada e boa organização da produção. Diria até que é louvável quando presenciamos um espetáculo assim, diante das atuais condições de recursos financeiros  para produções artísticas  no Brasil.

Com isso, acabamos  condicionados  a nos contentar  só com o  espetáculo em si e esquecemos que é sempre possível ir além da cena, criar outros produtos dançantes e produzir novas “maneiras de dançar”. Afinal a dança não se limita ao palco, ela é muito mais. Seus produtos são muitos e podem vir de várias formas. Formas estas que  educam, divulgam e formam público,  alimentando  a cadeia produtiva desta arte.

Venho hoje falar da São Paulo Companhia de Dança, instituição criada em 2008 pelo Governo do Estado de São Paulo e atualmente sob a direção de Inês Bogéa. Já fiz parte desta companhia como bailarina e pesquisadora.  Por isso, resolvi  contar aqui um pouco do trabalho que esta instituição tem realizado além da cena, no campo da dança. Um trabalho de Ponta!

"Canteiro de Obras" de 2013
“Canteiro de Obras” de 2013

A Companhia possui o Programa de Registro e Memória da Dança, que contempla uma série de ações. A primeira delas é  “Canteiro de Obras”,  uma série de documentários produzidos a partir de uma panorama do funcionamento cotidiano da companhia, através de depoimentos e imagens dos artistas e espetáculos. Posteriormente, esses documentários são distribuídos gratuitamente em instituições educativas, culturais e também em universidades, divulgando o  fazer artístico da dança e os seus bastidores.

Outra importante ação do programa é a série “Figuras da Dança”,  que produz DVDs com depoimentos públicos de artistas que constituem a história da dança no Brasil.  Na gravação, o próprio artista homenageado conta sua história em entrevista à diretora da companhia e também em diálogo com o público e com pessoas que fizeram

parte de sua trajetória. Abre-se assim a possibilidade de um artista que dançou a vida inteira com o corpo, poder “dançar” com sua voz e deixar registrada sua história para a posteridade.  Já foram lançados vinte e seis DVDs desta série.

 

A companhia também produz anualmente, um livro com publicações de autores convidados de diversas áreas, estabelecendo conexões entre a dança e outros campos de pesquisa. Sim, também é possível dançar com palavras. Alguns textos são verdadeiras coreografias!

Livro “Jogo de Corpo”

Em Agosto de 2013, a companhia realizou o seu primeiro Seminário Internacional de Dança, que englobou conferências, mesas-redondas, encontros temáticos e também espetáculos de outras companhias profissionais. Lá foram formados grupos de discussão que  refletiram Seminariodurante dois dias sobre quatro diferentes temas: Memória da Dança, Produção Cultural, Performance e Novas Mídias e Projetos Artísticos Educacionais. As reflexões provenientes desses debates foram publicadas em um livro, com selo de cultura acadêmica.

Já no ambiente virtual, foi lançado o programa “Dança em Rede”, uma enciclopédia colaborativa online da dança, que busca conhecer e divulgar a dança do país, apresentando até o momento mais de mil e quinhentos verbetes, com o objetivo de ampliar e democratizar o acesso à esta arte.  Tive o prazer de já ter escrito cem verbetes sobre a dança no Rio de Janeiro para esta plataforma e acho realmente  uma iniciativa incrível, por reconhecer, registrar e  divulgar o trabalho tanto de artistas já consagrados quanto o  de jovens talentos.

E além de tudo isso, a instituição ainda se preocupa com a questão da acessibilidade. Desde o ano de 2013, utiliza o recurso de audiodescrição, que por meio de fones de ouvido, transmite ao público com deficiência visual informações sobre cenário, figurino e os movimentos dos bailarinos.  Em 2014, ampliou ainda mais o seu programa de acessibilidade, utilizando  a tecnologia avançada do aplicativo Whatscine, que transmite para smartphones e tablets os recursos de audiodescrição, interpretação em Libras e subtitulação, permitindo às pessoas com deficiência entrar em contato com a experiência da dança. Atualmente, ela é a única companhia de dança totalmente acessível na América Latina.

 

Portanto, no meu ponto de vista,  a São Paulo Companhia de Dança se apresenta na atualidade, como o mais fértil e atuante centro de pesquisa, divulgação e  produção em dança. Além da excelente qualidade cênica que  apresentam pelos palcos do  mundo, que é indiscutível, eles ainda viabilizam toda essa produção mais teórica e imagética, contribuindo e muito para o registro e memória da nossa dança brasileira.

Quando a produção dança junto com os bailarinos, podemos dizer que o ciclo dançante está completo!  São Paulo Companhia de Dança, um exemplo a ser seguido.

Bailarinos e Produção Ballet Romeu e Julieta
Bailarinos e Produção
Ballet Romeu e Julieta

 

Conheça um pouco mais sobre a São Paulo Cia de Dança:  http://www.spcd.com.br/

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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