Já não é novidade que as últimas novelas do horário nobre da Rede Globo não possuem mais a audiência de antigamente. Para isso podemos dar várias explicações. A internet, a trama, a concorrência, etc. Muitos estudiosos já analisaram o que está acontecendo. Uma coisa é real: os espectadores estão cada vez mais exigentes. Já não acreditam na verdade apresentada e exigem narrativas que os surpreendam. E o fator arriscar também pode ser um grande motivo para o público migrar para outras emissoras ou telas.

E isso vale para lado negativo e positivo. Por que as novelas das faixas das 18h e 19h têm tido melhor desempenho que as duas últimas do prime time? Por que elas se baseiam em tramas simples, mas com uma narrativa surpreendente. Quando A Regra do Jogo iniciou, houve uma grande expectativa simplesmente por ser uma novela de João Emanuel Carneiro. Durante Avenida Brasil estive fora do Brasil e não acompanhei, assim, quando estreou A Regra do Jogo fiz questão de acompanhar.

Para começar, a novela tem uma trama instigante e um timming de séries norteamericanas, muitas pessoas disseram que a novela tinha um tempo arrastado e que era muito complicada. E é justamente a complexidade e dualidade da trama e de seus personagens que a torna rica. Entretanto, sinto que desde da morte antecipada da personagem Djanira (Cassia Kiss), os acontecimentos começaram a se interpolarem e se tornarem um tanto confusos.

Como espectadora, perdi aquele delicioso momento de degustar uma cena e a digerir. Parecia que o dramaturgo tinha pressa de algumas ações acontecerem. Como exemplo, em uma destas cenas apressadas, a personagem Beliza chega ao Morro da Macaca para ficar com Juliano. Na seguinte, Adisabeba já contava ao pai de Juliano, Zé Maria que ele estava namorando a Beliza. Um pequeno furo, que para mim pode fragilizar a qualidade da trama. Este é um pequeno exemplo em meio a tantos.

A dualidade dos personagens ainda continua em vigor, ainda que alguns já mostraram a que veio, ainda temos personagens que não sabemos a natureza e que a cada capítulo adicionam um histórico que faz os espectadores duvidarem se são bons ou vilões. Um outro fator que prejudica a trama e o andamento da linha de ação principal são justamente as ações paralelas, que são totalmente dispensáveis.

A ação e o mistério da trama central perde força com personagens pequenos e plots dispensáveis, como o quatrilho envolvendo Rui, Indira, Oziel e Tina. Personagens que poderiam nem existir na trama. Assim como a família de Feliciano Stuart, embora Marcus Caruso e Otavio Muller façam valer a pena. Contudo, esse núcleo em especial, tem pequenas tramas totalmente dispensáveis e que muitas vezes são para encher a linguiça. O que contribui praquela barriguinha na novela.

E por falar em barriga, um outro erro que os dramaturgos dessa trama estão cometendo, que contribui imensamente para uma leve barriga, é a inconsistência de alguns personagens e a repetição de diálogos e situações. A inconsistência está mais forte nos mocinhos Tóia e Dante. Ambos mudam de discurso, não se sabe se é confusão do autor ou do próprio personagem. Se em uma cena Dante acredita em Juliano, na próxima está dizendo completamente o contrário. Além disso, ambos são personagens muito burros (sendo bem generosa). Tóia é a perfeita transposição do mito da caverna do Platão.

Acredita de olhos fechados em Romero e condena pessoas que a conhece pela vida toda. Não contesta nada e tudo é verdade se Romero diz. Só acredita o que está diante dela e não da verdade como um todo. Já o Dante é um policial que deve ter comprado seu diploma. Qualquer personagem consegue descobrir mais coisas que ele. O poder investigativo e o faro dele parecem que caminham em direções contrárias. Se isso faz parte de uma manobra do autor para algum turning point, que me perdoe. Entretanto, se isso não é… me parece um grande problema na escrita.

Ainda temos os repetitivos diálogos, que não são parte de um plano maior na dramaturgia. É pura encheção de linguiça. Repetem inúmeras vezes as mesmas falas e diálogos. Como se o espectador não tivesse compreendido na primeira vez. E por último, um fator que tem me chamado a atenção: a montagem. Desde a antecipação da morte da Djanira, a montagem tem cada vez mais parecido esquizofrênica. Muitas cenas empolgantes e vibrantes de ação são cortadas por outras de comédia, quebrando completamente o ritmo de um bloco. E muitas dessas vezes ficam 10 minutos em núcleos que são sem menor importância naquele momento.

 Outras vezes um acontecimento impactante na trama central, que o espectador quer ver o desenrolar é quebrada por outras centenas. Se passam dias na história, para então voltar à linha de ação central e dar continuidade àquela ação. Perdendo a credibilidade da linha narrativa, como se tivesse um pause na ação durante todos aqueles dias. No mais, acredito que estejam fazendo demasiadas ações para encher a história, quando apenas o núcleo central é necessário.

Acredito que se A Regra do Jogo, assim como as demais novelas da Globo tivessem a duração reduzida a até 100 capítulos, as tramas teriam mais agilidade, mais turning points e atrairiam mais os espectadores. E é claro, se o autor escrevesse a trama como uma obra fechada sem intervenção da própria emissora. E não podemos deixar de reconhecer o grande trabalho do casting!

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Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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