Uma recente polêmica nas terras anglicanas me chamou atenção para um assunto importante. Até que ponto vai (ou deveria ir) o papel de um patrocinador? Não vi grande repercussão desse ocorrido em nosso pedacinho de terra, mas de fato é algo para pensarmos bem ao negociar com um patrocinador. Vamos fatiar a questão, como fazia o bom e velho Jack.

O fato

O Museu de Ciência de Londres recebeu o patrocínio de um grupo de óleo e gás para sua galeria sobre mudanças climáticas e, de acordo com o jornal, a empresa teria influenciado a curadoria do espaço. Foi solicitado que a troca de e-mails entre patrocinador e patrocinado fossem abertas ao público, o que ambos concordaram em fazer. Li a matéria e achei as conversas e preocupações levantadas completamente plausíveis. Sem querer defender ninguém, mas a atividade de exploração de bens naturais causa impacto ambiental e as empresas precisam se preocupar com a repercussão de seus patrocínios. Vale lembrar que estamos falando de marketing cultural, então é lógico que o interessante para a empresa é ganho de imagem e não vejo problema nisso. Por mais que você não concorde, e eu me incluo nesse grupo, vivemos no capitalismo, mas acho melhor patrocinar uma exposição de arte do que comprar 30 outdoors na principal Avenida de Londres.

Em uma carta, o Museu alega que não houve qualquer alteração na curadoria por conta das questões levantadas pelo patrocinador e nem quero entrar nesse mérito, mas pensemos bem: o Museu de Ciência de Londres é uma das instituições culturais mais importantes da europa e um dos maiores (se não o maior) museu de ciência do mundo, acho que ele não ia se queimar por conta de um patrocínio desses.

O financiamento à cultura

Na gringa o financiamento público direto e particular/individual é muito comum, por isso as críticas e cobranças dos patrocínios recebidos por empresas são muito pesadas. Para se ter uma ideia, existe um grupo ativista específico que defende o fim do patrocínio de empresas de petróleo a projetos de arte e cultura. Pensando no tamanho do Museu de Ciência, ele poderia até prescindir de um patrocínio de empresas desse setor, mas a sustentabilidade econômica é uma questão para o setor de cultura em qualquer lugar do mundo. Aqui no Brasil, como bem sabemos, a situação é ainda mais grave. O mercado depende (e muito) do financiamento das empresas via leis de incentivo, então essa crítica feita ao Museu de Ciência não ganha tanta força como lá.

Estratégia

Pensando em estratégia por parte do patrocinador, tenho que reconhecer que é preciso coragem para patrocinar uma exposição sobre mudanças climática sendo uma empresa produtora de petróleo. Se a empresa está de fato disposta a discutir essa questão de forma transparente, o caminho seria esse mesmo e eu bato até palma. Mas se não, talvez esse não seja o melhor patrocínio a ser feito.

Já sobre a estratégia por parte do proponente, quando misturamos arte com política e com ciência, tocamos em temas muito sensíveis para as empresas, o ideal para esses projetos seria o desvencilhamento total da iniciativa privada, buscando meios alternativos de captação de recursos, como organizações internacionais ou mesmo o financiamento coletivo. Mas caímos novamente na triste realidade econômica da cultura… Ao optar pela via corporativa e ainda de empresas do setor industrial/exploratório, adquire-se o pacote completo e é preciso estar preparado para as críticas.

Os limites

Ajustes pontuais, negociação de contrapartidas, esclarecimentos sobre conteúdo do projeto são normais. O que não se pode fazer é algo que venha a ferir o conteúdo em si ou alterar um conceito por conta de uma demanda de um patrocinador. Lembrando: patrocínio cultural não é prestação de serviço. Como temos a lei de incentivo aqui no brasil, existe uma regulação clara para isso, que impede que o projeto patrocinado via lei não gere vantagem financeira/competitiva para o patrocinador. É bem claro o que podemos e não podemos trazer a mesa de negociação com uma empresa: cota de ingressos e produtos, inserção de logo em materiais impressos e digitais, menção do patrocínio nos releases e entrevistas, dentre outros. Aqui no Brasil existem os projetos por encomenda, que a classe cultural e o MinC veem com maus olhos, mas que infelizmente a lei atual tem brechas que permitem isso.

Para fechar, patrocinadores vão querer sempre mais por menos. Essa é a cultura corporativa. O conhecimento das leis de incentivo, o entendimento do mercado cultural e a sensibilidade para as artes são características do gestor cultural. Ele é que tem que dar o limite. Simbora!

Inté!

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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