Pra descansar um pouco dos questionamentos musicais pesados que a gente vinha fazendo nos últimos três posts, queria propor uma reflexão mais tranquila, mas que tem potencial pra gerar até uma certa polêmica se for levada a sério demais; ou ainda descreditar completamente meu conhecimento musical se for levada a sério de menos!

Putz, será que é uma reflexão tão tranquila assim, afinal? Bom, acho que se você encarar esse post mais como uma espécie de provocação; vai passar batido pela suposta polêmica, deixar minha reputação quietinha no canto dela e de quebra se ligar em algo muito interessante! Então pra acabar com o mistério: já reparou como as músicas dos comerciais de boneca tem muito de Rock Progressivo?

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Pronto, essa deve ter sido a coisa mais doida que você leu hoje. E o pior é que eu nem tô brincando! Tá, talvez um pouquinho, mas é uma brincadeira séria, acredite. E se você continuar lendo vai entender o que estou sugerindo. Possivelmente.

O Prog é um sub-gênero do rock que se popularizou no Reino Unido no fim dos anos 60 através de bandas como Pink Floyd, Genesis, Yes, King Crimson e um bocado de outras. Surgiu como uma tentativa de conferir ao rock o mesmo grau de credibilidade e sofisticação que a música erudita, por exemplo, possuía. Caracteriza-se principalmente pela total liberdade artística em todos os aspectos musicais: mudanças de andamento, modulações, compassos compostos, instrumentação variada e mais um monte de outros termos técnicos que você provavelmente não sabe o que significam e nem precisa, uma vez que já provamos nos posts anteriores que você tem dois ouvidos e um cérebro sensacionais, lembra? Vou te dar um exemplo musical e você vai se ligar instintivamente em todas as características do prog:

 

E aí?

Uns ritmos muito doidos; vários climas diferentes seguidos; texturas de vozes; de repente surge um swing pesado que logo vai embora, substituído por uma cama de flautinhas doces e por aí vai. Resumindo: piração total, né?

Agora escuta isso:

 

Ta rindo, né?

Mas deixando a palhaçada de lado, você consegue perceber alguma semelhança entre as duas canções? Comecei com um exemplo mais sutil (se é que dá pra ser sutil com a Polly) de propósito, mas elas estão aí, é só prestar atenção!

Uns ritmos muito doidos? Pode ser.

Vários climas diferentes? Talvez.

Texturas de vozes? Acho que sim, hein!

Podemos concordar que essa também foi piração total, pelo menos? Beleza!

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Um dos fatores de maior importância na música progressiva é a fórmula de compasso, ou simplificando, o tempo; que pode se manter constante ou mudar. E se você se lembrar do que leu logo ali em cima, o prog se caracteriza pela liberdade, certo? Então pra que ficar no 4/4 feijão com arroz o tempo todo? Porque não dar uma variada?

 

 

Se você já ouviu falar no infame 4/4 mas não sabe exatamente o que ele representa, aqui vai um exerciciozinho moleza pra você finalmente conhecê-lo:

Da próxima vez que você estiver andando na rua ou na esteira (ou pode ser agora também se você caminhar sem sair do lugar), comece a contar de 1 a 4 no mesmo ritmo dos seus passos e sempre que chegar no 4, em vez de seguir pro 5, volte pro 1. Pronto, você descobriu o 4/4! Agora só pra deixar as coisas mais interessantes, experimenta contar de 1 a 5 e ver o que acontece de diferente em relação ao exercício anterior. Quem foi esse que você descobriu agora?

E pra fechar sua série eu quero que você tente contar de 1 a 4 de novo, mas dessa vez acompanhando a música da Barbie Escola de Princesas, por favor:

 

Muito difícil ou impossível?

A música desses comerciais tem tanto em comum com a música progressiva por causa de um fator imprescindível e definidor que as duas compartilham: a tal liberdade artística de que falamos no início do post. E o que é a liberdade se não a possibilidade de mudança constante?

Assim como o Gentle Giant ou o King Crimson, os exemplos da Polly e da Barbie estão se transformando o tempo inteiro; acompanhando cada nova informação que aparece na tela. Os motivos são diferentes, mas o resultado é o mesmo; uma audição dinâmica. O ouvinte precisa se dedicar à escuta mais do que o usual se quiser absorver todas as nuances dessa experiência, seja um solo de flauta doce ou o fato de o cabelo da Polly mudar de cor com água. Toda essa mudança constante exige mais do ouvinte.

Não faz sentido?

 

A essa altura você já deve estar mestre no Prog Rosa e na audição dinâmica, mas queria propor uma última reflexão pra encerrar o post finalmente.

Você ta feliz da vida aí se gabando porque já entendeu tudo depois de ver o que? Três videozinhos? Agora imagina o público alvo dessas propagandas. Aquela galerinha do barulho que apronta altas confusões sentada vendo Cartoon Network o dia inteiro, sendo bombardeada por Prog Rosa em um comercial atrás do outro! Quanto potencial pra ritmos complexos, harmonias infinitas, tempos mutantes e instrumentações absurdas não deve estar guardado naquelas cabecinhas!

 

Muito cuidado com aquela sua sobrinha. Ela pode entender muito mais a Música que você!

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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