Ilustração: David De las Heras

Minha primeira imersão em outra cultura aconteceu graças a Universidade Federal Fluminense, realizei a mobilidade acadêmica através do convênio da UFF com a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. Como aluna de Produção Cultural, assisti as aulas do curso de Ciência da Comunicação que tinha como especialidade o curso de Gestão Cultural.

Explico isso porque junto com minha experiência internacional dentro da produção cultural, a nomenclatura da profissão ocupa um grande espaço ao analisar as diferenças das responsabilidades e funções que tem um produtor cultural dentro do contexto brasileiro.

No curso em Lisboa, as matérias tinham outro recorte: antes de refletir sobre a variedade de temas que a minha escola de origem tinha como proposta, em terras lusitanas tínhamos que saber fazer. O ensino estava diretamente ligado a técnica. E, foi assim que aprendi qual fita adesiva é melhor para um palco ou que marcas de gelatina deveria evitar. Como calcular a cor e editar um vídeo. Lembro do dia que perguntei ao professor de cinema qual era a bibliografia e ele me olhou como se olhasse a um E.T. e respondeu: se você quiser pode ler o manual da câmera.

Eu não li o manual da câmera e aos poucos fui descobrindo que junto com o nome da profissão mudava também a função e o papel desenvolvido pelo profissional. Tanto em Lisboa quanto em Barcelona, pude descobrir o papel do “programador” que não tem nada a ver com o programador que trabalha nos websites e norteia o nosso imaginário quando ouvimos essa palavra. Programador é a pessoa que escolhe as atrações, que faz os contatos. É uma mistura de relações públicas com o que entendemos como a figura do curador. E a seu cargo fica manter as relações, ser o rosto do espaço, conhecer as últimas novidades e escolher as atrações de acordo com a filosofia do lugar.

Existe o Produtor Executivo que se encarrega tão somente das questões operacionais. Isso acredito funcionar igual ao Brasil. No entanto, um ponto que me encantou é a figura do Gestor e como ele é também entendido como um criador, que tem sua assinatura nos modelos de gestão que utiliza.

Pude ver em um equipamento do governo, semanalmente as rodas de imprensa, onde toda a imprensa é convidada para uma apresentação sobre o espetáculo da semana e podem fazer perguntas. O gestor ocupa o lugar de destaque, o dono da casa que é quem dá o tom do espaço e é tratado como celebridade e reconhecido nas ruas. A cada temporada o gestor escolhe o tema que vai nortear as escolhas do programador.

Dentro desse panorama, algo que achei bastante válida foi a experiência no contexto crise. Com as verbas para cultura reduzidas e os empregos em falta, os chamados “criativos” começaram a inventar novos lugares. Barcelona é famosa por concentrar a maior quantidade de designers e artistas visuais e plásticos  do mundo (dado inventado por mim e confirmado por 11 entre 10 que conhecem um pouco mais a fundo a cidade) e todo esse capital criativo arruma maneiras de fruir independente das leis do mercado e Estado: os produtores e os criativos inventam novos espaços. É muito comum oficinas em cafés, em bares e em lugares que aceitam essas experiências. E é assim que por algo em torno de 20 reais você pode ir a um café e ter uma aula sobre feminismo e literatura francesa ou uma oficina de silk screen. Ou seja, fora do circuito e com o equipamento cultural do Estado funcionando aquém da maneira ideal, há iniciativas que funcionam e que surgiram pela necessidade.

Acredito que a diferença que mais percebi, e isso tem a ver com a minha experiência, é como as funções são bem divididas e como cada um têm claro o seu papel. Enquanto na minha experiência de produtora aqui, já diria um grande amigo Produtor cultural: eu jogava nas 11. Claro que esse é um texto que fala sobre minhas impressões e da minha experiência. Acredito que hajam espaços no Brasil que têm essa divisão do trabalho clara e que o gestor seja tratado e considerado como criador. Acredito que as experiências aqui estão cada dia mais interessantes e, entendendo minha experiência desde o começo, entendo também a complexidade que é ser produtor cultural, ser criativo, programador ou gestor. Tudo tem a ver com mostrar pra sociedade outras possibilidades de vida, de criação e de existir. Que a nossa função seja cada dia mais valorizada e que a gente possa experimentá-la na sua completude: fazendo os outros felizes.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

1 COMENTÁRIO

DÊ SUA OPINIÃO