Uma coisa que venho pensando e que me deu vontade de explorar aqui é a relação entre Produção Cultural e Gestão Cultural. A distinção pode parecer óbvia para alguns, mas confesso que eu ainda estou com essa diferenciação em construção. Outro dia mesmo, uma amiga veio pedir ajuda para explicar o que seria Gestão Cultural para inserir no fechamento de um relatório de atividades. Vou tentar lançar luz sobre esse assunto, mas já aviso duas coisas de antemão: (1) não vou esgotar o tema e (2) no cinema tudo é diferente. Ou seria, fora do cinema tudo é diferente (?). Falando nisso, acho fantástica a organização do trabalho no cinema. Do curta ao longa, passando pela TV, as funções em uma produção audiovisual são todas muito bem definidas e muito claras para todo mundo. De repente faço um post sobre isso numa próxima.

Aí que você coloca o cultural no meio e tudo se confunde. De uns anos para cá, uma enxurrada de termos + Cultural ganhou fama. No fundo acho que tem a ver com a musa inspiradora de muitos optantes pela carreira de produção cultural, Maria Clara Diniz, mas ai de mim falar isso aqui. Iria render no mínimo umas 200 mensagens no grupo de Whatsapp dos amigos da faculdade. Brincadeiras a parte, faz o teste aí com um amigo que seja de outro área . Pergunta se ele sabe o que um produtor de eventos faz e depois pergunta o mesmo trocando o “de eventos” por “cultural”. Vai rolar aquela leve inclinação na cabeça e um olhar para o horizonte buscando alguma inspiração… Vivemos isso desde quando optamos por experimentar esse caminho formativo em cultura e arte.

Sinceramente acho que a questão não está entre produtor ou gestor. Penso que a real confusão começa quando colocamos o “cultural” na palavra. E aí a gente vai looonge… Essas oito letrinhas conotam e denotam uma infinidade de significados, materiais e imateriais, mas nem vou ensaiar enveredar por esse assunto. Vamos a tangibilização, afinal quero menos bocejos aqui. Para mim o “cultural” é um marcador. Ele contextualiza o fazer da produção e o fazer da gestão em um cenário ou mercado específico, no caso, o da cultura e das artes. Isto posto, recorro a ajuda do Romulo Avelar. Gestor e produtor cultural com anos de estrada, ele dedicou um capítulo inteiro sobre isso em seu livro O Avesso da Cena.

Em ambas as atuações podemos notar a presença de competências como criatividade, administração e intermediação de relações. Eu diria ser essa ultima uma das mais constantes e, arrisco, estratégicas do dia a dia de ambas as atividades. Isso porque estamos o tempo todo dependendo do bom desenvolvimento das relações entre pessoas (gestão de pessoas e equipes) e entre instituições, no caso de investidores e parceiros. Há aqui também um ponto crucial que vejo para o produtor e para o gestor: a tradução de linguagens. Fazer o mundo das artes conversar com o mundo corporativo é como fazer um japonês conversar com um alemão (generalizando aqui, ok?!). São mindsets completamente diferentes e por isso tanto precisamos entender bem as duas linguagens para enxergar os pontos de convergências e colocá-los em uma mesma relação. Isso é suor puro.

Sobre a administração, fiquei surpreso ao descobrir que o Conselho Regional de Administração de São Paulo publicou o perfil da administração na cultura, elencando conhecimentos básicos, complementares e úteis ao administrador cultural. Achei um reconhecimento bacana para nossa área e um apontamento para necessidade de apropriação de conhecimentos da administração tanto para o produtor quanto para o gestor. Mas essa apropriação deve ser criativa. Sobre a criatividade, gostaria de fazer um post somente sobre isso mais para frente. Tenho descoberto a criatividade como um campo novo (para mim) de conhecimento e totalmente interdisciplinar e preciso de um pouco mais amadurecimento para trazer aqui.

De toda forma, precisamos ser inventivos tanto produção quanto na gestão. Primeiro o setor formal de mercado de trabalho ainda precisa apresentar soluções adaptadas a realidade das profissões culturais, principalmente aqui no Brasil. Digo isso em termos de impostos, regulamentações e leis, por tanto temos que ser capoeiristas e usar da criatividade para lidar com as limitações. Em segundo, vejo a criação de programas e projetos que façam sentido para o público alvo e artistas envolvidos dentro da linguagem proposta e que ao mesmo tempo apresentem resultado ao incentivador. Por último, a criatividade entra aqui na correlação da cultura não somente como um campo em si, mas também na sua transversalidade com outras áreas, como educação, saúde, etc.

O que consegui assimilar das definições que vi é que existem muitos pontos de contato nas funções desenvolvidas por um e por outro, mas uma das diferenças seria o âmbito de atuação de cada um. Poderíamos relacionar produção e gestão da cultura com produto e o processo (Será?).  O produtor estaria então ligado mais a produção de um produto (projeto), em uma função executiva, mas não menos articuladora e inteligente, e o gestor mais focado em estratégia, preocupado com processo que começa anterior a ideia e que continua posteriormente a realização (programas). Seria então o produtor um gestor de um microuniverso e o gestor um produtor de um macrouniverso?

Acho que podemos pensar assim: eu ainda não conheci um gestor cultural freelancer. Na verdade, essa ideia soa até estranha. O mesmo não acontece com se dissermos produtor cultural freelancer. Não que o gestor para sê-lo precise ter carteira assinada, mas a ideia de carreira autônoma na Gestão Cultural me parece mais ligada a consultoria do que ao freela. O que quero dizer é que vejo uma conexão direta dessa função às instituições sejam públicas, privadas (próprias ou não) ou a coletivos culturais. Vejo também algumas subdivisões para o produtor que não acontece no caso do gestor: tem o produtor executivo, o diretor de produção, o produtor de campo, o produtor técnico, o produtor administrativo e por aí vai…

Enfim, termino fazendo um pequeno jaba dos amigos. O projeto Produção Cultural no Brasil buscou investigar com os profissionais da cultura, um retrato do fazer, do produzir e do gerir cultura no Brasil e fecho esse post com a entrevista do Danilo Miranda, gestor cultural do Sesc.

Inté!

 

Referências:

Livro O Avesso da Cena

Projeto Produção Cultural no Brasil

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

DÊ SUA OPINIÃO