Escrever sobre cultura no exterior é uma tarefa tão árdua quanto desafiante e deliciosa. Nesta coluna, espero passar o que vejo e experimento más allá das nossas supostas fronteiras brasileiras. Vivendo em Barcelona e viajando bastante, pude conhecer iniciativas que muitas vezes me fazem pensar “ Por que não tem isso no Brasil?”

Sem deixar de levar em conta as peculiaridades de cada lugar e, sem adotar uma mirada “de fora é melhor” – que é perigosa, tentadora e limitada – , quero emprestar meus olhos, ouvidos e dedos para que os leitores – sim, você – possam também conhecer outras possibilidades, criações, coisas que dão certo, políticas, espaços, espetáculos e tudo que me enamoro a cada esquina. Também pretendo contar curiosidades e histórias sobre as andanças por esse mundão. Desejo que esse espaço possa servir de inspiração a quem divida do sonho de construir um Brasil grande como ele pode ser – e, é.

Dito isso, é necessário considerar que cada país tem uma constituição política própria, que justifica suas maneiras de produção cultural. No caso Espanhol, temos a divisão em Comunidades Autônomas, que comparando com o Brasil, poderíamos entender como as regiões (Sudeste, Nordeste, etc.), sendo que na Espanha são 17 Comunidades que possuem suas próprias leis e muitas delas, sua própria língua.

Preciso dizer que, para uma brasileira, entender que um país que é territorialmente um pouco menor que o Estado de Minas Gerais, tenha tantas diferenças em termos de costume, línguas e que não se entende como um, é bastante difícil. Costumo dizer que a colonização portuguesa foi “bem feita” no sentido de sufocar as vozes dissonantes, preciosas e diferentes e que a ditadura a costurou com maestria, forjando uma identidade nacional forte, delimitada (limitada?) e passional (A copa do mundo é nossa!).

Outro dia me perguntaram: Mas, ninguém no Brasil quer separação? Eu ensaiei contar a Farroupilha, mas, cheia de orgulho de que meu país “era unido”, fui interrompida pela segunda pregunta: E você acha isso bom? … Soco na boca do estômago, anos de construção pelo ralo, vida que segue. Não… – respondi – São Paulo já falou algo de separação, o Sul brinca que é Europa, mas o Brasil não fala em separação. Desculpa a ignorância, acho isso bom e me entender como brasileira aquieta – quase – toda minha ansiedade existencial. (Valeu, Giddens!)

Falar da Espanha desde a minha posição é falar do Brasil, e me entendendo parte de um país que territorialmente engole a Europa, um país de 200 milhões de pessoas que antes de ser carioca, paulista, nordestino, realmente se entende como brasileiro, entender os separatistas espanhóis é algo que exige mais que ler sobre o assunto.

Entretanto, somente vivendo há bastante tempo e propondo-me a entrar na cultura local de cabeça, pude começar a entender e experimentar as diferenças de cada região da Espanha e de como isso influi na formação da ideia de o que é o país e cada uma de suas Comunidades e, claro, na criação, produção, distribuição e consumo da cultura.

A identidade Catalã, Andaluza, Galega, Vasca, etc. é muito bem construída e com a convivência pude perceber as milhares de Espanha’s que existem e entender os que falam de separação. Ainda que considere isso uma pena, já que o que é bonito na Espanha, como no Brasil, é ver as cores que se misturam, os idiomas e apesar de seus sotaques, expressões, comidas e times de futebol, eles se identificam de alguma maneira. Ou pelo menos, eu vejo assim.

Para começar, divido uma das razões que escolhi Barcelona para viver. Ao ver esse vídeo, quis amar essa cidade como esse paulista, que devolveu sua gratidão a desconhecidos na rua. Espero que vocês a vejam com olhos tão generosos quanto os dele e, agora, quanto os meus.

Continua 🙂

Saludos,

Annanda.


Foto: Ana Vázquez Domingo

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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