A morte de Gabriel García Márquez chocou todos os amantes da literatura e até mesmo aqueles só o conheciam por algumas frases pinçadas no facebook, twitter ou qualquer outra rede social. De todos os escritores da América Latina, Gabo é a única unanimidade: não conheço ninguém que leu e não gostou. Por quê?

A única coisa que me dói pelo fato de morrer, é que não seja de amor.
(Amor nos tempos do cólera)

 

Simples. Porque é bom. Essa resposta é genérica e não diz nada, mas nem por isso deixa de ser verdadeira. Acredito que momentos de comoção generalizada são ótimas oportunidades de se conhecer algo. E é para celebrar a sua vida que eu digo: se você nunca abriu um livro dele, pare tudo o que estiver fazendo e leia Gabriel García Márquez agora. Devorar seus livros deveria ser algo obrigatório – não como ter que trabalhar ou manter as visitas ao médico em dia; não, deveria ser uma obrigação do tipo que você tem que fazer para não enlouquecer com a dureza da realidade.

— Porra! — gritou [Úrsula]. Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião. — Onde está? — perguntou alarmada. — O quê? — O animal!— esclareceu Amaranta. Úrsula pôs o dedo no coração. — Aqui — disse.
(Cem anos de solidão)

 

Sua própria vida foi um romance. Gabo não se contentava com a realidade. Como um móvel indesejável, se ela não servia, ele colocava outra no lugar. Por exemplo, seu biógrafo Gerald Martin teria passado uma noite de chuva sentado em um banco, em Arataca (a que inspirou a mítica Macondo, de Cem anos de solidão), para sentir o “clima da cidade” e entender melhor a escrita de Cem anos de solidão. Mito. Tal fato nunca ocorreu, mas foi disseminado por Gabo como o mais puro fato. E a lição que Gabo nos deixa é que o mito e a fantasia não são inimigos da realidade.

Não desejo o sucesso para ninguém. Acontece como a um alpinista, que se mata para chegar ao topo e, quando chega, o que faz? Desce ou trata de descer devagarzinho, com a maior dignidade possível.
(Ninguém escreve ao coronel)

 

Não é à toa que sua maior obra, Cem Anos de Solidão, é considerada o maior expoente do realismo fantástico (ou mágico, se preferirem). Essa classificação pomposa e paradoxal ilustra uma literatura em que a realidade social é emoldurada pelo lirismo dos sonhos. A fantasia na literatura de Gabo é sinônimo de liberdade.

Ela lhe perguntou num daqueles dias se era verdade, como diziam as canções, que o amor tudo podia – É verdade – respondeu ele – mas te fará bem não acreditar nisso.
(Do amor e outros demônios)

 

A liberdade de contar uma história sem que a distância seja um empecilho para uma gota de sangue revirar a cidade até chegar à casa de uma mãe, anunciando a morte de seu filho; a liberdade de fazer chover flores no dia de uma despedida; a liberdade de mortos fazerem as pazes com vivos; a liberdade de cartomantes lerem o passado; a liberdade de contar toda a história da América Latina através da singularidade de uma cidade inventada, mas nem por isso menos real. É impossível ler Cem Anos de Solidão e não querer se mudar para Macondo.

Tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não são os amores felizes mas os contrariados.
(Memórias de minhas putas tristes)

 

Se Cem anos de solidão foi sua obra-prima, Amores no tempo do cólera é, sem dúvida, a mais bela história de amor já contada. Quem não se apaixonar pelo amor de Florentino e Firmina (que perdura a cinquenta anos de afastamento) talvez passe pela vida sem amar. Casamentos sem sentimentos, sexo sem compromisso, a rudeza no trato de um homem, digamos, bronco – nada disso tira a beleza da história. Pelo contrário, tudo a faz tão real que é possível até sentir o cheiro das cartas perfumadas entre os dois amantes. E vale dizer: Gabo se inspirou livremente numa história familiar…

Mas sabia, mais por castigo que por experiência, que uma felicidade tão fácil não podia durar muito tempo.
(Amor nos tempos do cólera)

 

Esses dois romances são seus livros mais conhecidos. Mas há outros que, se não são tão badalados, são tão belos quanto. A bibliografia completa está em qualquer site da internet (vou dar uma colinha básica, esse site ). Uma dica pessoal: Ninguém Escreve ao Coronel.

BÔNUS: Segue uma das passagens mais bonitas de Gabo e que sempre me emociona:

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.
(Memórias de minhas putas tristes)

 

 

*Escrito por Yago Barbosa – Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Literatura de 02 de abril à 02 de agosto de 2014.

Yago Barbosa
Fã de literatura desde pequeno, obcecado por ciências sociais e cognitivas, amante de fotografia e design gráfico, Yago Barbosa transita entre a multidisciplinaridade e um interesse genuíno de entender como os meios de comunicação operam e quais são as consequências de um mundo midiático. Estudante de Comunicação Social, na Escola de Comunicação da UFRJ, se especializando em Produção Editorial, em sua breve história como gente grande já atuou como designer em uma grande empresa de logística; participou de projetos de iniciação científica; na organização do Seminário Internacional de Fotografia e Experiência, em 2012 no Centro Cultural da Justiça Federal; e atualmente é estagiário de Ficção Estrangeira no Grupo Editorial Record, o maior conglomerado editorial da América Latina. Espantado com os poucos sites e materiais publicados no país sobre o mercado editorial, pretende compartilhar dados, informações e tendências do mercado de forma crítica e acessível.