Se em 2015, o assunto na roda era a diferença salarial entre mulheres e homens, 2016 começou bem quente com o anúncio dos indicados ao Oscar. Para quem não está por dentro, tudo começou quando o cineasta Spike Lee veio a público dizer que é o segundo ano que não há atores negros indicados e que consequentemente estaria iniciando um boicote, não atendendo a cerimônia.

Logo, Jada Pinkett Smith se pronunciou aderindo ao boicote. Seu marido Will Smith também. Assim como o documentarista caucasiano Michael Moore. Mark Ruffallo que está indicado, se pronunciou e talvez não compareça. Já Charlotte Rampling que está indicada a Melhor Atriz, vestiu a carapuça, se sentiu ofendida e disse que esse boicote era um racismo branco (WTF). Michael Caine foi mais diplomático e revelou que não se escolhe um ator só porque ele é negro. Ice Cube, que dirigiu e produziu Straight Outta Compton (um filme que ganhou inúmeros prêmios e trata justamente sobre o movimento Hip Hop) foi mais direto: você não boicota algo que nunca foi convidado.

Gostaria de deixar algo bem claro antes de iniciar: não vou tomar partido da campanha de boicote, nem acusá-la. Além disso, não tenho parâmetros para criticar nem julgar a escolha de indicados da Academia, pois não vi todos os filmes indicados nem as possíveis indicações.

20

Vamos aos fatos:

  1. Segundo o Censo de 2010, a população afroamericana nos EUA é de 12%. Logo, representam de fato a minoria.
  2. Apenas 4 filmes lançados no último ano, contemplam boas atuações de atores negros: Beasts of no Nation, Os 8 Odiados, Straight Outta Compton, Creed e Um Homem entre Gigantes.
  3. Chris Rock, um comediante afroamericano, será o host da edição e depois da confusão editou seu monólogo de abertura.
  4. Creed foi estrelado e dirigido por negros, mas apenas o coadjuvante branco (Sylvester Stallone) foi indicado aos prêmios.
  5. A presidente da Academia já pronunciou uma mudança não apenas no grupo votante, como também o aumento de indicados a Melhor Filme e Atores.
  6. Beasts of no Nation é uma produção Netflix. Não teve estreia nos cinemas, considerar o serviço de streamming como tela de cinema será uma grande revolução em Hollywood.
  7. Os últimos dois anos os principais prêmios foram para os mexicanos Alfonso Cuarón e Alejandro Iñárritu, que é o grande favorito deste ano.

O Oscar não é parâmetro. Afinal, um grupo de homens caucasianos se juntam e escolhem o que melhor cabe em seus gostos. Por muitos anos, diversos diretores foram esquecidos e subestimados pela Academia, como Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio. A premiação do Oscar é puro reflexo da indústria cinematográfica. Para isso, devemos voltar ano passado quando a diva Viola Davis ganhou o Emmy de Melhor Atriz, sendo a primeira afroamericana a ter éxito, ela disse: “Você não pode ganhar prêmios se não tiver oportunidades”.

Por que isso é tão importante? Porque os personagens delegados a negros são relacionados a um perfil específico. Exemplo: um escravo, uma dona de casa, uma babá, um traficante… É muito difícil ver um papel importante como o de DiCaprio em Titanic a um negro, ou diferenciado como a Katiness Everdeen de Jennifer Lawrence a uma jovem atriz negra. Atores negros, em sua grande maioria, interpretam personagens negros. Atores brancos, interpretam personagens.

Salvo algumas exceções como Idris Elba, Will Smith, Denzel Washington entre outros grandes atores, que conseguem sair pela tangente e estrelar grandes personagens em produções importantes. A nossa conterrânea Taís Araújo já se pronunciou sobre o mesmo tema, muito antes dessa controvérsia. Segundo ela, um ator se faz com papéis. Não tem como um ator se desenvolver, melhorar e mostrar seu talento se não tiver boas oportunidades e grandes papéis. E é nesse drama que a TV e cinema vive no momento. A falta de oportunidade.

Por que o Oscar está tão branco?

Porque a indústria audiovisual americana (eu incluo o Brasil) não dão o merecido valor e oportunidades aos grandes talentos afrodescendentes. A realidade é que se baseando em poucas produções com protagonismo negro lançadas ano passado, fica difícil saber o quanto eles mereciam estar entre os indicados e o quanto eles seriam indicados apenas para preencherem uma cota.

Quer receber mais conteúdo? Cadastre-se no nosso Clube de Cultura

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

DÊ SUA OPINIÃO