Esses dias, navegava pela internet quando me deparei com um título que me despertou a atenção em meio ao costumeiro furor das redes sociais. Tratava-se de um Por que brasileiros não gostam de literatura de fantasia? Fui ao mesmo tempo atingido por duas reações diferentes: sei que a fantasia — assim como seus gêneros irmãos, ficção científica, terror, policial, entre outros — não é levada a sério nos meios literários por se tratar de um gênero “comercial”. Ao mesmo tempo, com o título tratando “brasileiros” no geral, estranhei essa possível falta de gosto, pois a fantasia faz sucesso com os leitores, com o grande público; qualquer livraria está, hoje em dia, apinhada com livros do gênero enfeitando suas estantes, desde A espada de Shannara a Crônicas do Gelo e Fogo, passando por Senhor dos Anéis e Prince of Thorns. Sem mencionar, é lógico, a fartura em qualquer seção de juvenis.

Então fui ler.

Como faz mais sentido, o texto fala mais da primeira característica do que a segunda — de sua falta de sucesso como literatura “de gente séria” do que propriamente ter caído nas graças de um público em geral. Assinado pela escritora e blogueira Melissa de Sá, o texto é uma defesa das qualidades da literatura de fantasia em também problematizar uma visão de mundo e de personagens, assim como possível nas literaturas ditas mais profundas. É uma resposta às polêmicas acusações da autora de livros infantis Ruth Rocha, que há algum tempo afirmou categoricamente que não considera Harry Potter — o querido de inúmeras infâncias, adolescências e vidas adultas ao redor do mundo, a minha inclusa — literatura. Além disso levanta alguns pontos interessantes nos quais também pensei de vez em quando. No entanto, ao final da leitura, senti que a questão-tema havia sido muito pouco abordada: mas por que afinal a fantasia não é levada a sério no Brasil?

Então quero escrever sobre minhas hipóteses, hoje. Menos que refutar um possível argumento da autora, gostaria quem sabe de complementá-lo.

O cerne da questão, abordado em seu sexto parágrafo, levanta um bom motivo, que eu gostaria que tivesse sido ampliado:

A literatura no Brasil sempre teve uma forte influência francesa, isso desde o romantismo. Temos uma forte tradição de narrativas realistas e isso se intensificou com a ditadura militar: valorizamos o relato, o testemunho, o sobrevivente. Temos um nordeste que passa fome, temos pobreza, miséria. Nossa literatura se ocupa com coisas sérias.

Engraçado. Estou no momento estudando sobre a história da publicação de ficção científica no Brasil, e o argumento mais recorrente que encontro contra o preconceito sofrido a princípio pelos expoentes do gênero é como essa dissociação do gênero com a realidade, o que também é aplicável à fantasia, mas no geral a estas formas de “baixa” literatura que fogem um pouco mais ao mundo comum. Otto Maria Carpeaux, um crítico literário outrora muitíssimo bem cultuado, já nos anos 1950 (quando a primeira “onda” de FC começou a surgir no Brasil), a atacava com unhas e dentes nesse sentido:

Essa literatura de cordel fornece ao leitor comum todas as trivialidades, horrores, sentimentalismos, etc., que a literatura moderna exclui cuidadosamente dos seus enredos (ou da sua falta de enredo). A science-fiction faz questão de não tocar nunca em problemas psicológicos ou questões sociais. Ao embarcar para o espaço, perdeu o contato não só com a Terra, mas também com a realidade. Evasão? Mas essa evasão tem objetivo bem definido: cancelar um processo histórico.¹

Sinto um ataque por duas frentes nesse sentido, que à época já era uma crítica recorrente e que talvez perdure até os dias de hoje. É aquilo: nossa literatura se ocupa com coisas sérias, como diz Melissa. Ele repete o argumento no final de seu ensaio sobre FC, falando que deveria ser dado enfoque “à Terra, onde existem coisas muito mais interessantes do que na Lua e onde há problemas para resolver que nem sonham os hipotéticos habitantes de Marte”.

Mas pensemos: a “evasão” da realidade cancelaria quaisquer aspectos de crítica social ou psicológica que o livro buscaria abordar? Não seria essa uma extrema limitação de um campo de visão? Tudo bem que o texto foi escrito há sessenta anos, mas é um pouco, digamos, sem criatividade imaginar que, para se falar da realidade, tem que se falar exatamente da realidade. Como o texto de Melissa fez questão de levantar, a fantasia e a ficção científica podem muito bem abordar de temas pertinentes ao real através da extrapolação para mundos distintos.

Arte de Tom Gauld
Arte de Tom Gauld

Ao mesmo tempo, parece que outro argumento inserido naquele para desmoralizar essa forma de “literatura baixa” é o seu “cancelamento de um processo histórico”. No caso, a ideia de que a fuga para uma realidade distinta que mantém os processos de produção e relações de trabalho, esquecendo delas, “eternizaria” esse processo e portanto seria uma literatura “de burguês”, sem mérito ideológico.

Muniz Sodré, em sua A ficção do tempo, de 1973, ecoa esse argumento, por exemplo, ao falar de FC: “O discurso da arte literária passa a funcionar como a forma de uma fala que coloca o romance burguês como único tipo verossímil de narrativa do imaginário. O mito se apropria da literatura, esvaziando-a de qualquer sentido contestatório face à ideologia”². A ideia é de que essas histórias pressupõem uma relação de produção burguesa por padrão, sem dar chances ao revolucionário em mundos distintos. Isso é mais comum à FC, no entanto — ou talvez em fantasias com mundos mais historicamente avançados.

Mas também há uma cruz principal: a tendência experimentalista de certas literaturas brasileiras. Talvez aí entre o âmbito diferencial que, até hoje, impede que esse tipo de literatura seja levado a sério aqui, e que advém provavelmente de nosso período modernista e vanguardista. Há uma valorização da forma, das brincadeiras com o idioma, da, digamos, “dificultização” da língua, da reinvenção do idioma. Ou, mesmo, o estilo, se não formos muito experimentais — uma marca autoral que transforma o texto em produto artístico e que, em muitos casos, acaba alterando radicalmente uma possível experiência de leitura. Esse estilo marcado e específico está muitas vezes pouco presente na literatura de fantasia: a herança desses autores é outra. Isaac Asimov fala um pouco disso em seu texto sobre a dicotomia entre o “mosaico” e a “janela”: seu objetivo é alcançar uma “janela”, transparente e lisa, no qual a história seja contada da maneira mais clara possível. Contrasta a abordagem com a do mosaico, mais bonito e enfeitado, mas que dificulta a experiência de apreensão do que há por trás.³

Então, quando acontece de um livro fugir à realidade, fugir dos temas mais sérios, e ainda por cima apresentar uma forma pouco estilizada, ocorre o inevitável: esta obra separa-se do ideal proposto e valorizado pela alta literatura e é levada menos a sério.

Isso, portanto, não é de hoje. Mas também, como podemos averiguar em certas polêmicas — menos frequentes, mas igualmente sintomáticas —, também não é exclusivo ao nosso verde e amarelo. Afinal, essa separação entre cultura alta, artística, e a cultura de entretenimento para as massas vem de longe, e de muitos lugares. Quem sabe não é universal? C.S. Lewis já escrevia a respeito em seu ensaio High and Low Brows, no qual abordava essa dicotomia. E não dificilmente podemos encontrar discussões sobre a “mainstream literature” contra a “genre fiction” em colunas e afins. A diferença talvez seja que lá o pensamento não é hegemônico ou, mesmo que seja, sempre encontramos os espaços em que a fantasia e seus correlatos possam ser levados a sério. O que é um tanto mais raro aqui em terras tupiniquins.

Mas enfim, respondendo a pergunta do título: acho que é por isso que essas literaturas menos realistas são menosprezadas pela academia, crítica e os mais literatos. No entanto, elas continuam a fazer sucesso com o público e, querendo ou não, ressoam com temas pertinentes da vida e do mundo, seja em sua abordagem mais simples, ou mesmo em empreitadas mais experimentais como a New Wave da ficção científica anglo-saxônica na segunda metade do século XX, que descobriu nomes artisticamente bem respeitados na “alta cultura” como Ursula K. LeGuin ou Philip K. Dick (na França). No entanto, muito da literatura “das massas”, como abordei em meu último texto O mercado não é o diabo, continua a desaparecer das vistas mais sérias.

P.S.: Assim como Melissa, também não gosto do nome “literatura fantástica”.


Referências

¹ Publicado originalmente no “Suplemento Cultura” de O Estado de S. Paulo em 16 de maio de 1959 por Otto Maria Carpeaux.
² SODRÉ, Muniz. A Ficção do Tempo: Análise da Narrativa de Science Fiction. Petrópolis: Editora Vozes, 1973. Pp. 111-112
³ ASIMOV, Isaac. Asimov on Science Fiction. New York: Doubleday & Company, 1981. Pp. 60-63

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

3 COMENTÁRIOS

  1. Só pra citar um dos autores que mais tem se dedicado à linguagem na fantasia atualmente é o China Mieville, você deve conhecer. E o que ele ganhou de prêmios não é brincadeira. Locus Award, Arthur C. Clarke Award, Hugo Award… e ainda existe gente nesse retrocesso de que linguagem é pra quem gosta de Umberto Eco e faz Letras.

  2. Bruno, eu concordo com a maioria do que está escrito no texto, mas gostaria de ressaltar que essa dicotomia apontada por Asimov pode ser falsa, e isso precisa ser investigado mais a fundo. O que eu quero dizer é: só existem essas duas formas de abordar um texto literário? Mosaico e janela? E dentro do que se considera um mosaico, por exemplo, por que esse tipo de construção entraria na frente da história, impedindo seu entendimento no lugar de favorecê-lo? Parece um reducionismo bastante arbitrário e subjetivo dizer que uma aliteração, uma frase centopéica, ou uma rima são automaticamente pedantes e recursos exclusivamente dificultadores de compreensão, quando, na verdade, podem ser utilizados para sugerir atmosfera, clima, sentidos e sensações novas, que carregam, por si só, estímulos que levariam muito mais tempo para serem descritos numa linguagem simples.

    Muitos livros de fantasia pecam nessa noção – e nisso eu concordo com a dita “alta literatura” – de que rebuscamento é pedantismo e subestimam demais a capacidade do leitor, confundindo “concisão” com “simplicidade”. É claro que isso não tira o valor do texto escrito no formato “janela”, mas problematiza essa visão que parte da premissa de que um texto literário tem de ser útil, de fácil compreensão, e carregar uma mensagem facilmente identificável. O que mais se comenta em teoria literária é a abertura que as obras dão à plurissignificação e as variadas recepções que os leitores podem ter acerca de um mesmo texto, o que se aproxima muito mais de uma real preocupação com o leitor do que essa neura com a forma da linguagem ( cristalina ou opaca).

    Acredito que tudo isso dependa da abordagem ( e não intenção, intenção é irrelevante) da obra em si. Você consegue, por exemplo, imaginar Ernest Hemingway escrevendo um conto do Lovecraft e criando algo satisfatório? Muito da atmosfera da obra de H.P. Lovecraft só se alcança pela forma ( linguagem) que ele escolheu, e ainda assim alguns fãs criticam a purple prose dele – essa que não é um erro de iniciante, como apontam os inúmeros guias de escrita, mas uma escolha. Li recentemente The Mist do Stephen King, que tenta atingir a mesma atmosfera, tratando das mesmas criaturas bizarras, mas enxugando toda sua linguagem. O resultado, em minha humilde opinião: o universo ficou extremamente verossímil, mas as criaturas ficaram uma porcalhada genérica. A linguagem cristalina, nesse caso, torna o mundo verossímil, mas o fantástico e o terror, por conseguinte, extremamente monótonos. Por isso, acredito que esteja mais do que em tempo de se repensar e problematizar essas questões que correlacionam forma da escrita ao suposto entendimento ou imersão na obra.

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