Quando em 2009 consegui a bolsa de iniciação científica do CNPQ para trabalhar no setor de Políticas Culturais da Fundação Casa de Rui Barbosa, não poderia imaginar a grande volta que minha vida daria. O projeto ao qual fui vinculada tratava do Conselho Federal de Cultura, que até o momento não significava nada para mim e que com o tempo de pesquisa, descobri ser um dos órgãos mais interessantes para se pesquisar e me ajudou a entender o que de fato são as políticas culturais.

Agora o que o Conselho Federal de Cultura tem a ver com Identidade?

Um mundo de relações poderiam ser traçadas aqui, já que o CFC era o órgão responsável pela cultura nacional, algo como o ministério da cultura do período da ditadura. Cultura e Identidade Nacional são termos sempre usados nos regimes ditatoriais, por isso comecei a pesquisa com muito cuidado, tentando analisar o Conselho a partir das suas ações mais do que o discurso vigente.

A pesquisa era feita em dois momentos: leitura sobre a história das políticas culturais do Brasil e restauração e primeira organização dos arquivos do CFC. Então, conforme fui conhecendo os conselheiros, as autarquias e como a política se organizava no Brasil, também tinha em mãos a fonte primária: pareceres, discursos e os projetos que os produtores culturais da época enviavam ao Conselho para pedir de apoios e compra de materiais.

Dessa maneira, pude analisar qual era a visão do CFC sobre as artes de caráter erudito e popular e, como o órgão se relacionava com esses âmbitos.

É necessário entender que as identidades popular e erudita, não são fixas e estáticas e, ainda, que há o popular relacionado ao folclore/tradição e o popular de massa, aquele que provém da cultura pop. No caso do Brasil, acredito ainda ser mais especial, porque há o pop de importação – que relaciono com a cultura de massa – e o pop do Gueto – produzido nas ruas e comunidades. Já a arte erudita vêm dos cânones, da referência que temos academicamente, os clássicos. Este item também pode ser questionado, já que historicamente também vemos que isso é construído. Todavia, os eruditos podem ser considerados mais “fixos”.

Um exemplo que gosto muito de dar quando trato esse tema é a música: o samba era marginal popular, agora é cool popular e consumido pelas elites, a mesma coisa acontece com tango argentino e com outras manifestações que eram marginais e passaram a ser consumidas por outras esferas da sociedade. E, sim! Esso dá MUITO pano pra manga e discussões sobre.

O que gostaria de centrar era em como o CFC desenhava suas políticas culturais e como podemos perceber isso através da análise dos apoios concedidos pelo órgão. A distinção entre o que era apoiado pelo Conselho ou não era geralmente a partir do seu caráter, isso percebi e pude publicar no artigo premiado pela Fundação Casa de Rui Barbosa em 2010: “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes de caráter erudito e popular”.

Pude perceber, analisando os pareceres, que os apoios centravam-se em manifestações de caráter erudito: pianos para universidades, verba para orquestras, apoios para festivais de Beethoven em pleno agreste Brasileiro. Uma contradição com a realidade nacional e uma vontade de difundir manifestações clássicas.

Os apoios para manifestações populares também existiam e eram centrados nas quais, segundo o conselho, detinham caráter tradicional, justamente, para reforçar uma política que potencializava uma identidade nacional brasileira forjada – no sentido de construída. Assim podíamos ver projetos ligados ao folclore nacional sendo apoiados, enquanto, uma vez ou outra, encontrávamos pareceres negativos a apresentações de Caetano Veloso e artistas contemporâneos à ele. Podemos ler a partir dessas subvenções e negativas a linha política e identitária que o órgão adotava? Eu acredito que sim.

Ainda que fosse parte do governo ditatorial, o CFC possuía um caráter vanguardista, sendo contra, por exemplo, a censura do filme “Terra em Transe” de Glauber Rocha (se interessar mais, procure o artigo sobre o tema da autora Renata Maury). Não declaradamente por seu teor político, senão, por sua qualidade artística e estética… Ou isso alegavam os conselheiros. Durante sua existência, teve entre seus conselheiros grandes intelectuais como Ariano Suassuna, Rachel de Queiroz, Ferreira Gullar e muitíssimos outros que, na minha mais pessoal e, de admiradora, opinião: encontravam no Conselho um lugar para existir e continuar produzindo e apoiando arte através da máquina estatal e se valendo das políticas culturais vigentes.

O arquivo do CFC é uma fonte inesgotável de material para quem se interessa por pesquisar esse momento do nosso país. Mas, a lição que ficou de pesquisá-lo foi de que nada é 100% nada e que as políticas culturais têm maior impacto na sociedade do que eu poderia sequer imaginar. Ver como a linha de subvenção de um governo diz muito sobre ele foi determinante para entender o momento atual e de que símbolos identitários nos devemos valer para fazer nossos projetos acontecerem, por isso a importância da discussão e aprofundamento nas políticas culturais é urgente.

Na imagem: Os conselheiros em 1989.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

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