Urra! Essa semana o Tag homenageia ele: o homem do terninho xadrez de linho verde-musgo com mostarda pescando siri! O diretor que tem o cabelo milimetricamente aparado toda manhã por irmãs cabeleireiras siamesas com suas tesouras de bauxita! O cara que se fosse um instrumento musical, seria uma tuba de 1920 assombrada pelo simpático e mal-humorado fantasma do antigo professor de matemática de Stravinsky! Eu posso ter dito um monte de loucuras (e talvez até algumas mentiras), mas vai dizer que não ajudei a construir a imagem do cara direitinho? Wes Anderson, minha gente! Ele mesmo! Nosso time de colunistas resolveu espremer o coitado de todos os ângulos e pontos de vista possíveis essa semana! Tipo o Comentário Geral, lembra? Mas é pra dissecar, hein! Ontem tivemos uma visão de empreendedorismo em Grande Hotel Budapeste com a Red e hoje vamos discutir um pouco o papel da trilha sonora no mesmo filme e de quebra descobrir porque eu dei tanta importância ali no início do texto para aquela descrição esdrúxula e estrombólica, tentando transformar um ser humano real quase num personagem! O que eu ganho com isso? E o que isso tem a ver com o nosso papo de trilha sonora? E o que eu ganho com isso, caceta?

 

"Lide com esse hype."
Lide com esse hype.

 

Tá certo, então o que eu quis dizer com aquele monte de bobeira ali em cima? Só que o Wes Anderson é um maluquinho adorável e sorridente? Bom, também, mas mais importante do que isso é que de alguma forma eu tentei descrever o dito cujo com várias informações diferentes de simplesmente “ele é meio doidinho”, ou “ele usa o cabelo compridinho partido pro lado”, ou ainda “ele usa roupas vintage”. É claro que essas três afirmações são descrições fiéis do figura, mas nenhuma delas quebra a barreira do superficial; é só olhar e ver! O que eu fiz no primeiro parágrafo foi mais do que só enumerar algumas qualidades físicas do Wes. Por mais que eu tenha inventado (quase) tudo, as coisas que escrevi funcionaram como a caracterização de um “personagem”, com diversas informações extras e até a introdução de novos personagens! Todo esse monte de baboseira serviu perfeitamente pra fazer seu cérebro pescar direitinho qual é a vibe do diretor. Ele é um personagem sem nem precisar abrir a boca! E esse é um dos grandes truques da narrativa Wesandersoniana, se me permite. Contar uma história através da caracterização apenas. Contar uma história sem contar a maldita história!

O que nos leva ao segundo e importantíssimo ponto da nossa discussão: Estética! Escuta só:

 

 

Adivinha em que filme toca essa música? Muito bem! O Grande Hotel Budapeste fica lá na ponta mais leste do leste europeu. Quase, quase na Rússia (ou União Soviética, se preferir) dos anos 1930. Então é claro que a trilha teria que incorporar a sonoridade e a linguagem da música balcã, né? Nosso querido Wes não brinca em serviço quando o assunto é caracterização e por isso mesmo chamou o genial Alexander Desplat pra confeccionar toda a estética musical do projeto. E o resultado foi muito louco, porque qualquer pessoa que veja o filme ganha de graça uma aula de texturas e sonoridades infinitas do leste europeu! Quer apostar? Bora fazer um exercício pra ver se você pesca o que eu tô querendo dizer com esse papo de estética sonora e caracterização: essa música que você acabou de ouvir é uma peça folclórica tradicional russa, então não tem muito dedo do Alex aí mesmo. Mas escuta essa próxima (que já não é nem folclórica nem tradicional) e tenta identificar alguma semelhança entre as duas:

 

 

Conseguiu ouvir um ‘blrbrlbrlrbrlbrlrbrlbrlrbrlbrlrb’ bem característico presente nas duas peças, né? Olha que tá fácil, hein! O nome dessa técnica é trinado (trrrrrr) e tá sendo feito numa balalaika. Então, instrumento russo sendo tocado com linguagem de música folclórica russa? Hipsteragem forte, né? Não tem como errar! Mas se você reparar mais um pouco, vai notar alguns adendos que o trilheiro espertamente misturou com as sonoridades mais tradicionais: uns sininhos, dando um ar meio infantil, meio conto de fadas; junto com umas flautas fazendo ‘flrlfrlflflrlfrlf’, que contribuem ainda mais pra um clima de suspensão e mágica que simplesmente não existe no primeiro vídeo, por exemplo. E é aí que a técnica do Wes Anderson encontra a do Alexander Desplat! Eu meio que tentei dizer no início do texto que o Wes arma os personagens dele com tantas características marcantes e interessantes que muita coisa a respeito deles é percebida sem que seja necessária uma linha de narração. Quer dizer, olha esse moleque:

 

"Serviço hoje tá pesado!"
Serviço hoje tá pesado!

 

Olha esse moleque! Quanto mais tempo olho, mais coisa descubro e mais história invento pra ele! E isso pode ser aplicado a qualquer personagem em qualquer quadro do filme, quer apostar?

 

Minha neta já leu Guerra e Paz duas vezes!

 

Você deve tá achando que quero falar da vovó, mas dá só uma olhada no fundo do quadro. Caceta, essa menininha com metade da cara aparecendo e sem abrir a boca tem 10 vezes mais personalidade que o Danilo Gentili e o Roger juntos! Tudo nesse filme é abarrotado de caracterização, desde os personagens, passando pelos cenários e claro, a trilha. Essa caracterização é tão forte, tão expressiva, que a música se torna mais um dos personagens do filme! Cheia de detalhes e coisas penduradas que te fazem pensar de onde vieram e o que estão fazendo ali, do mesmo jeito que com o garoto engraxate ou o presidiário grandão calado com a cicatriz na cara. O que to querendo dizer é que a música desse filme é tão característica que ela raramente toca enquanto outros personagens falam, e nessas ocasiões se atém a um murmúrio. A trilha é tão importante que ganha tempo pra falar sozinha, pra dialogar com os personagens, como se personagem fosse! E é!

Ó!

 

 

Esse exemplo não é muito bom, mas foi o melhor que encontrei no Youtube: cada um dos personagens tem suas falas e ações, e depois que todo mundo faz o que tem pra fazer a música entra ‘paaaaaaaaaaaammmmmm‘, com seu comentário pra tomar cuidado com o terrível Willem Dafoe. Além dessa e de várias outras, uma cena incrível pra dar uma olhada é a que o Zero descobre a morte de uma certa pessoa no jornal e corre pra avisar o M. Gustave. Foi nesse momento que me deu o estalo e a partir daí não consegui mais separar a trilha do resto dos personagens do filme. Vale a pena assistir (de novo ou pela primeira vez) e tentar caçar as situações em que a música participa das ações ou diálogos quase como se pudesse interferir na trama! É bem divertido e você vai se sentir muito inteligente decupando um Wes Anderson!

Olha, achei esse clipe pra você dar uma treinada antes de passar no Popcorn Time pra ver inteiro! Tem umas duas situaçõezinhas, mas já tá valendo!

 

 

Agora pra você aí que achou injusto o Oscar de melhor trilha sonora para O Grande Hotel Budapeste do Alexander Desplat em vez de Interstellar do Hans Zimmer; só tenho duas palavras com um hífen no meio:

 

Trilha-personagem.

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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