O ano de 2015 tem sido quente no backstage de Hollywood. Graças às lindas e guerreiras atrizes que cansaram de serem colocadas de lado e estão cada vez mais gritando ao mundo a discrepância, não apenas salarial, mas também dos personagens oferecidos e participações em filmes se comparadas aos homens. Tudo ganhou força no Oscar deste ano, Patricia Arquete em seu discurso de vitória gritou ao mundo pela igualdade salarial. Ela estava louca? Não. Afinal, qual é a lógica de uma atriz que teve a mesma importância numa produção que o homem, trabalhou igual, receber menos que ele?

Para se ter uma ideia, Robert Downey Jr. é o ator mais bem pago de Hollywood e tem um ganho de 80 milhões de dólares (tirando contratos com participação na bilheteria), já Jennifer Lawrence – a atriz mais bem paga – ganha apenas 52 milhões de dólares (sem esquecer que ela ganhou um Oscar e estrela franquias de sucesso como X-Men e Jogos Vorazes). O valor ganho por Lawrence corresponde ao mesmo ganho por Jackie Chan, o segundo ator mais bem pago em Hollywood.

E por falar em Lawrence, a mesma tem estampado notícias nos últimos dias. A corajosa atriz resolveu também colocar a boca no trombone. Cansada de ser mal paga e por vezes ganhar menos que seus coadjuvantes masculinos resolveu reclamar nas redes sociais. Entretanto, Lawrence estava mais desapontada com ela mesma, por não brigar por um salário igualitário. Segundo ela, não queria parecer uma “jovem estúpida e mimada”. Isso porque meses atrás, o email da Sony foi hackeado e o que a mídia só conseguia dizer era que “Angelina Jolie era muito egoísta e mimada”. Por quê? Somente porque Angelina Jolie brigava por um salário melhor e exigia um tratamento igualitário.

Se um homem briga por um salário justo, ele está lutando por seus direitos; mas se um mulher o faz ela é uma “crazy stupid bitch” ou está na TPM. Para deixar claro, não farei um manifesto feminista, até porque Annanda é a expert no assunto. Farei sim, um manifesto contra o sexismo em Hollywood e os apresentarei ao lindo projeto #AskHerMore. Começou em 2011, para os fãs de premições que estão acostumados a ver o famoso tapete vermelho, os famosos chegam com seus lindos trajes e enfrentam os jornalistas. O que acontece frequentemente é vergonhoso. Enquanto os homens respondem perguntas sobre suas apostas na premiação ou sobre seus projetos, as mulheres tem que responder à uma mesma pergunta: “O que você está vestindo?”

Algumas atrizes, encabeçadas por Amy Poehler e Cate Blanchet deram força e são porta-vozes desse movimento recusando-se a responderem tais perguntas. Diante de qualquer pergunta fútil, elas simplesmente revidam com “você pergunta isso aos homens?” ou apenas ignoram e não respondem nada. Reese Whiterspoon antes de qualquer tapete vermelho publica em suas redes sociais as perguntas que gostaria de ver suas companheiras de trabalho respondendo ou as que ela gostaria de responder com a hashtag #AskHerMore.

Olha o que acontece quando os homens passam pelas perguntas que as mulheres têm que responder:

E isso não é tudo. Há alguns meses atrás, a modelo Cara Delevingne fazia sua estreia como protagonista do filme Cidade de Papel. Uma entrevista mal sucedida reverberou em vários meios de comunicação, ao vivo os apresentadores perguntaram coisas como “Você leu o livro?”. Cara, muito debochada, respondeu ironicamente que não havia lido o livro, nem o roteiro e que havia improvisado tudo. Sua atitude apática foi assunto. Atrizes como Whoopi Goldberg foi contra a atitude da modelo, pois segundo ela: “Esse é o seu trabalho, por mais que te façam as mesmas perguntas idiotas deve responder como se fosse a melhor do mundo”.

Já o autor do livro, John Green, saiu em defesa e teve um argumento plausível. A questão não era Cara Delevingne ter que responder às mesmas perguntas sempre, e sim, ser questionada sempre se havia lido o livro. Enquanto seu companheiro de cena não tinha que passar pelo teste literário. Ok, então supõe-se que o ator tenha lido o livro e a atriz e modelo loira não? Há algum sexismo aí? E para finalizar, outra deusa que foi também assunto nos últimos meses. A atriz Rose McGowan, decidiu usar o twitter para denunciar o sexismo em uma produção de Adam Sandler. Ela recebeu o roteiro onde dizia que a atriz teria que estar vestindo uma blusa decotada para o casting. Ela denunciou a misogenia no twitter. E o que aconteceu? O agente dela a demitiu.

O que apresentei hoje é apenas a ponta do iceberg. Não levei em conta que as atrizes depois de uma certa idade têm menos papéis de destaque ou consideravelmente interessantes, ou elas são as mães ou alguma coadjuvante extra. Ou que apenas 12% das protagonistas em filmes são mulheres. Ou que as personagens femininas falam 30% menos que os demais personagens. Ou que apenas 17% dos diretores, roteiristas, produtores e editores são mulheres. Ou até mesmo no Brasil, Anna Muylaert é a segunda diretora mulher a ter um filme brasileiro sendo candidato aos nomeados a Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Essa é a ponta do iceberg. E parafraseando Reese Whiterspoon, “nós somos mais que vestidos elegantes”, portanto pergunte mais a elas e dê o devido valor (e pagamento) a essas maravilhosas atrizes!

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

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