Teixeira Coelho no 10º Enecult. Foto: Carolina Pereira / Labfoto © 2014

Na última semana, entre 27 a 29 de agosto, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizou a 10ª edição do Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult), um dos principais eventos brasileiros de debate sobre a cultura. A programação contou com a presença de Teixeira Coelho, um dos mais importantes pesquisadores da política cultural, pioneiro ao analisar esta como disciplina específica. Autor de diversas obras, inclusive do Dicionário Crítico de Política Cultural, livro de 1997 reeditado há dois anos e considerado uma bíblia para a pesquisa em cultura, Coelho ministrou o minicurso intitulado “O futuro da política cultural”, promovendo questionamentos perturbadores sobre o setor.

Ajudada por sites que fizeram cobertura do evento – a saber, o do próprio evento e da Agenda Arte e Cultura da UFBA –, listei as principais questões apresentadas no curso. Mais tarde irei me deter sobre algumas delas:

– O campo das políticas culturais padece do mal de achar que não precisa pensar, de achar que as perguntas e respostas já estão prontas e à disposição.

– Os agentes responsáveis pela formulação das políticas culturais precisam aprender a fazer as perguntas corretas, a fazer novas perguntas e se questionar o tempo inteiro sobre suas ações.

– No campo da política cultural, o que dá para fazer? Qual o limite entre o desejo e a possibilidade? O que tem sido feito hoje atende às reais necessidades postas pela cultura?

– As políticas culturais continuam atuando como se a internet não existisse, como se ela fosse um mal. Por que as políticas culturais continuam voltadas para o período pré-internet? Por que não consideram as tecnologias em suas ações e programas?

– Qual a real necessidade da existência de instâncias governamentais para a promoção e regulação da cultura?

– Os agentes culturais entendem que a distância entre a cultura e a política cultural é menor do que de fato é. Assim, se discute política cultural no Brasil como se discutisse cultura.

Em 2009, quando cursei o primeiro semestre do curso de Produção Cultural, na disciplina de Políticas da Comunicação e Cultura, ouvi da professora Daniele Canedo algo fundamental: aquela turma deveria se sentir privilegiada, por estudar o campo da cultura em pleno governo Lula (no plano nacional) e Wagner (no cenário baiano), pois antes dali as políticas culturais eram praticamente inexistentes. Era um privilégio começar a estudar cultura naquele momento, conseguir acompanhar o passado próximo de negligência ao setor e, ao mesmo tempo, o futuro que estava sendo construído. Essa lembrança vem à tona após o minicurso de Teixeira Coelho porque me propõe uma dúvida: a imersão nesse novo cenário de preocupação política com o setor cultural é responsável por deixarmos de lado outras questões da cultura? Restringimos a cultura à política cultural sem nos darmos conta? Sendo entendida como “modo inteiro de vida” e, portanto, impossível de sofrer intervenções em alguns níveis, o que dá para fazer pela cultura?

Demonstrando que homens inteligentes guardam mais perguntas que respostas, Coelho não resolveu essas ou outras questões lançadas, queria mesmo propor a reflexão. Não só conseguiu, como causou certo desconforto na plateia quando perguntou sobre a necessidade atual ou futura de órgãos reguladores da cultura, como um ministério ou secretarias. Afinal, como nós, produtores ou pesquisadores que lutamos tanto pela criação de instituições públicas autônomas para gerenciar a cultura, podemos pensar em um mundo sem elas? O pesquisador cita o caso da Alemanha, que se obrigou a não ter um Ministério da Cultura por conta do temor ao nazismo, baseado na padronização da “cultura oficial”. Daí que surge outro argumento do pesquisador, aparentemente simples, sobre o qual já nos detemos em algum momento durante os estudos, mas que formulado assim surge como uma pedrada: a política cultural nasceu para servir ao Estado, está associada ao controle até hoje. Sendo a cultura algo a se perpetuar no comportamento e hábitos das pessoas, a ideia de intervenção parece artificial e pouco eficiente. Assim, a finalidade da política cultural só será atingida quando as pessoas tomarem nas mãos as rédeas de suas escolhas culturais. Ou seja, quando a pergunta “que intervenções podemos fazer pela cultura?” se transformar na aceitação de que ela caminha sem a necessidade de determinadas intervenções.

Fazendo o estilo “não concordo nem discordo, muito pelo contrário”, não consigo refutar ou apoiar a leitura de Coelho. O exercício de pensar as políticas culturais no futuro foi realizado com sucesso, não é necessário por ora identificar respostas. Não enquanto as instituições públicas de regulação do setor continuarem indispensáveis, assim como a política de editais e o percentual mínimo do Estado para investimento na área, tudo a fim de desfazer desigualdades que ainda não ficaram no passado.

Adriana Santana
Em trânsito permanente entre o sertão e o litoral baiano, gosta dos dias quentes. Geminiana, com ascendente em Áries e Lua em Aquário, respeita a astrologia. Podem acusá-la de patriota, uma vez que prefere cinema, literatura e música nacional. No entanto, não é bairrista: gosta de sotaques e só viaja para ouvi-los. Na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), se formou em Produção Cultural. Profissionalmente, desenvolve projetos culturais comunitários e presta assessoria de comunicação para eventos. Academicamente, estuda Cultura e Território e Políticas Culturais. Apaixonada por conversas, ainda que despretensiosas, acredita no diálogo e no trabalho colaborativo.

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