Em nosso último encontro, a hiper-realidade nos tomou em suas provocações. Desta vez, proponho uma caminhada através do simples em termos de dimensões físicas. Que fique claro e cristalino que a simplicidade a qual me refiro se dá no plano tão somente da dimensão física que por incrível ironia se desdobra em insuperáveis superfícies de experiências, divagações e percepções. Se em nossos encontros com o imenso nos deparamos com imagens que nos devoram e nos tragam em sua existência, há, por contraste, a possibilidade de nos afogarmos no diminuto e em suas dobras nos perdermos e descobrirmos que uma pequena área visual pode abrigar uma infinidade de universos.

O artista Felix Gonzales-Torres possui um trabalho cuja dimensão física não está no plano do hiper e, no entanto, se encontra repleto de dobras que nos permitem caminhar através do infinito de suas possibilidades de significados. Dois relógios, desses que colocamos em paredes de salas ou de cozinhas, um ao lado do outro. Ou seria um paralelo ao outro? Não, acredito que não. As linhas paralelas somente se encontram no infinito, ainda que nossa visão possa traçar essa ilusão de ótica quando estamos diante de linhas paralelas que se estendem por caminhos que não conseguimos ver o fim. Os relógios de Felix Gonzales, ao contrário de um paralelismo ao infinito, se encontram ali, com seus minutos e horas precisamente sincronizados, no mínimo do mesmo segundo de ponteira vermelha, no máximo do milésimo de segundo.

Que abstração é essa de nome tempo? Quem a inventou? Por que o fez? Será que foi naquele silêncio de câmaras anaecóicas nas quais conseguimos ouvir o pulsar de nossas veias e as batidas de nosso coração? De qualquer forma, a contagem me parece fazer sentido para coisas óbvias, exatas e que precisam ser mensuradas por questões de referência. Todo o mais não me parece passar pela questão da contagem, mas sim do sincronismo. Nesse sentido, os relógios me inundam de significados. Ponteiros que, mais do que marcar uma hora que poderia ser qualquer, me dizem que estamos, ao mesmo tempo, ao mesmo exato momento, na mesma posição, sentido a mesma coisa, passando pelo mesmo momento-segundo-sentimento. Is it possible? Possibilidade de perfeição, de sincronia, possibilidade de embalo ritmado. Possibilidade de driblar a física de Isaac Newton e sentir que dois corpos podem sim ocupar um mesmo lugar ao mesmo tempo.

Relógios pareados de forma a desenhar a meus olhos uma linha do infinito que passa, que caminha ao redor de suas curvas e me dizem que posso passar por elas infinitas vezes, pois o que importa não é o dia, o mês, o ano, nem a idade, mas a possibilidade de caminhar em sincronia, de viver as mesmas coisas juntos e sentir que, mais adiante, esse sincronismo continuará a ritmar a mesma-diferente-caminhada. Um infinito que se desenha ao redor da finitude de algarismos que romanos e arábicos criaram. E o zero? O zero se marca em todos os momentos em que se termina um e se funda o próximo. Quem foi mesmo que inventou o zero?

Dois relógios – dois espelhos onde “I see myself there where I am not, in an unreal, virtual space that opens up behind the surface; I am over there, there where I am not, a sort of shadow that gives my own visibility to myself, that enables me to see myself there where I am absent” me diz Michel Foucault ao refletir sobre outros espaços. Os relógios de Felix Gonzales-Torres me dizem que há espaços – outros espaços (ou seriam espaços outros?) – nos quais o infinito se desdobra e se perpetua àqueles que se dispõe. Um espelho frente ao outro – o infinito que se abre diante de meus olhos que não conseguem dar conta de ler todas as suas possibilidades. Um infinito que apenas me convida a caminhar por ele até onde eu for capaz, até onde eu me permitir, durante o tempo que eu não for capaz de contar, mas que eu souber fazer significar.

Ocupa-se o tempo de marcar a si mesmo? A sincronia que dita o movimento dos passos da trauseunte de Baudelair “que nunca mais verei” ou que faz soar o pousar do corvo de Edgar Alan Poe em toda a sua sabedoria é o que me importa. A rosa dos ventos que guia os passos dos “Perfect Lovers”* através do infinito não aponta para o norte, mas para a felicidade que se rebate e multiplica na sensação do infinito de dois espelhos que se miram e que se tocam.

*Perfect Lovers – título da obra de Felix Gonzales-Torres.

Caroline Alciones

Mês de bons ares e cores vibrantes

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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