Foto: Chase Elliott Clark

A captação de recursos é um o calcanhar de Aquiles de todo produtor cultural. Falando no bom e velho português: é um drama. Você trabalha, trabalha e trabalha para criar um belo projeto, fruto de um processo de criação inteiramente entregue ao processo e não somente ao resultado, agrega pessoas incríveis e agora precisa captar para decolar.

Na verdade, tendo a achar que a captação encontra o projeto, não o inverso, pois imagino que uma vez que você está com a sua presença inteiramente no processo, começam a acontecer aquelas “coincidências” como mencionei em outro post. Mas para isso aconteça é preciso focar sem perder a visão periférica, adquirir muitas referências e muito conhecimento. Por isso é preciso ao pegar o jornal, por exemplo, parar de ler só o segundo caderno. Há grandes chances que a informação que você mais precisa esteja no caderno de economia, em uma coluna ou até nas cartas dos leitores – Ah.. então leio tudo – Bom, seria ótimo, mas quem tem tempo? A atenção aqui é uma só: uma vez que você está com a questão definida e exaustivamente explorada, você adquire uma lente de percepção, que ressalta a informação, o acontecimento ou a pessoa que pode agregar ao seu trabalho agora ou futuramente.

Porque estou dizendo isso? Por que isso também se aplica para a captação de recursos. Claro que ter bons contatos é uma grande vantagem, mas é necessário ir além do QI e conhecer o perfil das empresas, instituições e órgãos. Quando eu digo conhecer, é entender a mecânica que os apoiadores funcionam, por meio de pesquisa sobre o que eles dizem que apoiam, o que eles apoiam de fato, o que eles desejariam apoiar, o contexto ao qual estão inseridos e suas visões de futuro. É aí que vejo que aquela lente vai funcionar, destacando quem e como abordar para captar um determinado projeto.

No projeto mora algo que alguém quer dizer, ele tem relação com a história de seus criadores e com o contexto ao qual se insere dentre os projetos similares. Por exemplo, se o projeto for de dança, onde ele se encontra em comparação aos outros projetos de dança que existem? O que o difere? Qual sua contribuição para a linguagem? É só mais um? Por que? Para que?

Apresentar um projeto para um potencial patrocinador, penso eu, passa por mostrar para ele qual a relação entre o que diz meu projeto, sua história e seu contexto, e a empresa que o receberia. É necessário fazer esse cruzamento. O momento de captação é um flerte em que rola um jogo de conquista. Mas o patrocínio é um namoro e por mais que a pessoa seja linda, o sustento da relação passa pelo conteúdo, pelas afinidades, afetos (entre outros). Por isso, por mais lindo que o seu projeto seja, ele precisa fazer sentido para o patrocinador, considerando atuação da empresa, a mensagem que ela deseja passar as pessoas, seu contexto atual e sua história. Se a empresa tem uma política cultural, ótimo, mas é apenas mais um elemento para considerar dentre outros, como missão, visão e valores, as últimas notícias que saíram na mídia e as matérias mais relevantes, relatórios de desempenho e sustentabilidade, sua origem e fundação, seus dirigentes atuais etc.

Há também de se considerar que namoros com patrocinadores não duram para sempre. A verdade é dura, mas é real. A gente sabe, mas não custa lembrar: um patrocinador pode terminar a relação com você a qualquer momento, do dia para a noite, sem a menor compaixão. Afinal, quando o calo aperta, quando a crise se instaura, quando sobe o dolar ou quando mudam os dirigentes de uma instituição (o que é bastante recorrente), aquele seu projeto vai na primeira leva de cortes. Isso porque patrocinar projetos culturais não é core business da maioria das empresas estabelecidas hoje no mercado. Por mais importante que o investimento cultural possa ser para uma empresa, este sempre será adjacente ao seu negócio. Digo isso não porque a cultura é desimportante, mas porque as empresas que hoje patrocinam cultura foram consolidadas em uma ordem baseada em outras importâncias como a acumulação de capital, o lucro. Obviamente que sua atividade deve preservar esse core.

Calma, não vou abrir um discurso socialista ou anti-capitlista aqui. Quero apenas dizer que minha sensação é de que as coisas estão mudando e haverá uma nova ordem – quem sabe daqui há 50, 100 ou mais anos – onde os valores se inverterão (ou reverterão?). Isso significa que a cultura passará a ser core business de todas as empresas? Não. Mas que o investimento em ações que valorizem o indivíduo e o coletivo pode vir a fazer mais sentido do que investir mais na bolsa de valores ou no circulo vicioso Produção-Consumo-Lucro-Produção-Consumo-Lucro…

A mudança, como sempre foi, será gradual e conviveremos durante muito tempo com modelos diferentes. Justamente por isso, é preciso haver muito diálogo. Não posso exigir de uma mega corporação que ela seja tão mega social/culturalmente quanto ela é em seu negócio. A porta se fechará na hora. Com calma, muita conversa, convencimento, passos de formiga e pequenos ganhos, vamos avançando sem ferir nenhuma parte. O mundo não muda rápido, nem de uma vez só.

Essa história pode parecer  um grande desvio do assunto, mas tem um sentido. A internet é um player fundamental dessa transformação de mundo que estamos vivendo e no campo das atividades culturais no brasil, um dos novos modelos de captação de recursos que pega essa carona é o financiamento coletivo. Imagino que o termo crowdfunding já esteja amplamente difundindo, mas acho que tem alguns pontos que queria trazer para cá. Como já escrevi demais, fica para o próximo capítulo, ok? Inté!

TO BE CONTINUE

 

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

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