John Cassavetes foi um diretor e ator estadunidense. Ele é conhecido por ser o pai do cinema independente norte-americano. Entretanto, Cassavetes teve uma vida dupla. Para bancar seus filmes independentes, ele fez algo terrível aos olhos da classe cinematográfica: vendeu sua alma e atuou em produções comerciais. Mas ninguém o julga por isso. Hoje quero falar de algo que causa ânsia em muita gente: as comédias nacionais. Muitos cineastas, produtores, cinéfilos, etc… culpam as comédias americanizadas pelo mau desempenho dos demais gêneros. Para início de conversa, precisamos parar de julgar as comédias brasileiras.

Não, eu não sou fã das comédias nacionais. Não, não estou por dentro das estreias do gênero. Não, este post não é patrocinado pela Downtown Filmes, nem pela Mariza Leão, muito menos pela Globo Filmes. E não, não estou pedindo que vocês comecem a ver as comédias nacionais. Não quero criticar a qualidade do conteúdo e muito menos levantar bandeira. O que quero com esse texto é que tiremos o olhar preconceituoso e pseudo-cult e analisemos as benfeitorias das comédias no consumo dos espectadores brasileiros.

Até que a Sorte nos Separe

Em 2014  tivemos:

  • 2 comédias brasileiras liderando as bilheterias de 2 semanas (S.O.S. Mulheres Ao Mar e O Candidato Honesto);
  • 1 comédia nacional entre as 20 maiores bilheterias do ano (Até que a Sorte Nos Separe 2 , em 15º lugar);
  • 114 lançamentos de filmes nacionais;
  • Tivemos uma bilheteria anual de 155 milhões de espectadores, sendo 19 milhões consumidores de filmes brasileiros;
  • Desses 19 milhões de espectadores de produções brazucas, cerca de 12 milhões são provindos de comédias;
  • Até Que A Sorte Nos Separe 2 foi o filme mais visto em 2014, com quase 4 milhões de espectadores, ainda que tenha estreado em 2013;
  • Dos 10 filmes nacionais com maior bilheteria em 2014, apenas 2 não são do gênero comédia;
  • Dos 10 filmes nacionais com maior bilheteria de todos os tempos, Se Eu Fosse Você 2 é a única comédia comercial desse ciclo atual presente na lista;
  • Leandro Hassun estrelou 3 dos 10 filmes brasileiros mais vistos em 2014.

Esses são dados do ano que teve baixa de lançamentos e espectadores. Em 2013, foram 127 filmes lançados e cerca de 28 milhões de espectadores de produtos nacionais. Entretanto, 2014 foi o ano de grandes produções como Captain America – The Winter Soldier, Hunger Games, The Fault In Our Stars, Frozen, HobbitX-Men: Days of Future Past, The Amazing SpiderMan 2 , Guardians of The Galaxy e Maleficent. O cinema nacional competiu com as grandes franquias cinematográficas e em salas multiplex, que insistem em disponibilizar 10 das suas 12 salas para Transformers.

O que significa isso?

Apesar dos grandes blockbusters e mega produções, os brasileiros têm optado também pelo cinema nacional. As comédias estão criando franquias, como exemplo Se Eu Fosse Você. Esta produção, embasada nas comédias românticas hollywoodianas, não apenas tem uma sequência, como ganhou série de TV e espetáculo musical. Ele está tirando a oportunidade do filme independente? Não, ele está gerando mais trabalho para os profissionais do audiovisual, mais consumo de um produto nacional e mais rendimento no setor cultural. Até Que A Sorte Nos Separe já vai ganhar seu terceiro filme. Paulo Gustavo vai estrelar mais 2 filmes esse ano. S.O.S Mulheres ao Mar terminou de rodar sua sequência.

Desempenho dos lançamentos de produções nacionais. A meta é chegar a 150 anuais.
Desempenho dos lançamentos de produções nacionais. A meta é chegar a 150 anuais.

O problema não está em fazer comédias comerciais. O problema está em não arriscar em diferentes gêneros. O problema está em não investir no cinema nacional. O problema é o cinema nacional não ter uma mentalidade de indústria, assim como Hollywood. O problema é ver o cinema nacional dependendente de editais e leis de incentivo. O problema são os distribuidores fecharem as portas para os outros gêneros. O problema é o UCI cobrar 25 reais em um ingresso. O problema é o Cinemark dar mais salas a Iron Man que aos filmes nacionais.

Como a produção é distribuída e vendida ao público é outro alarmante. Em 2012, Marco Dutra lançou o  suspense Quando Eu Era Vivo. O longa é estrelado por Antonio Fagundes e Sandy Leah. Das recordações que eu tenho de Sandy Leah atuando me vêm à cabeça a novela Estrela Guia (Fail) e o longa Acquaria (Epic Fail). Ter Sandy como parte do elenco principal me deixou com mais medo do que quando vi The Blair Witch Project.

Não preciso dizer que não vi o filme nos cinemas. Entretanto, o mesmo teve boa repercussão nas críticas, o que me instigou a vê-lo. De fato, o longa é uma produção interessante e Sandy Leah cumpre com o papel. Todavia, acredito que escalar Sandy como atriz seja algo arriscado. Algumas pessoas poderiam ter assistido por ser estrelado por ela, muitas outras, como eu, poderiam ter evitado o filme por tê-la no elenco. Para o diretor do Filme B (portal especializado em cinema) Paulo Sérgio Almeida, falta nos produtores e diretores de cinema de autor uma visão de marketing e venda do produto; pois, segundo ele, estes acreditam apenas no potencial do produto para conseguir público.

O diretor Marcelo Galvão, antes um publicitário, entende isso. Sua produção Colegas é uma comédia que foge do roteiro das comédias comerciais. Apresenta uma aventura entre 3 amigos. O filme em sua semana de estreia ficou em segundo lugar nas bilheterias de São Paulo, perdendo para o Beautiful Creatures. O longa é estrelado por Leandro Hassun? Não, o elenco é formado por jovens portadores de síndrome de down. O que Marcelo fez foi uma campanha publicitária. Ele também foi atrás de seu público-alvo e exibiu a produção em diversas localidades para esses grupos. Além disso, levou a festivais e mostras mundo afora. Em seu mês de estreia teve cerca de 150 mil espectadores. Nada mal para um filme nâo comercial, sem globais e sem uma temática prosaica.

Entendam: as comédias não estão tirando o lugar do cinema de autor. A culpa não é da Ingrid Guimarães com sua franquia De Pernas Pro Ar. É difícil competir com a Globo Filmes, produzir na raça e sem dinheiro (ou com muito pouco), ter que vender o teu carro para alugar os equipamentos, ficar 10 anos levantando fundos, montando pouco a pouco e no final ter apenas uma sala no Botafogo às quartas-feiras 15h45. Mas está difícil para todo mundo. Diretores como Roberto Santucci e Felipe Joffily iniciaram suas carreiras fazendo os filmes de assinatura. Migraram para as comédias e são diretores com inúmeros sucessos de bilheterias.

Não há problema algum em  produzir e dirigir filmes de gêneros comerciais. Isso pode também ser uma porta para fazer aquilo que você objetiva. Não podemos desmerecer o trabalho dos atores, diretores e roteiristas que criaram esses fenômenos. Monica Martelli, por exemplo, lacrou um sucesso nos cinemas com um longa inspirado em um monólogo escrito por ela mesma (assim como seu amigo Paulo Gustavo). Quer algo mais artístico e com cara de Brasil que isso?

Comédias populares de riso fácil não são algo exclusivo do cinema brasileiro!!!

E por fim, mais uma vez. Por favor, tá feio e tá chato. Parem de julgar as comédias nacionais. Se você não gosta, apenas não veja. Deixe cada um com seu cinema. Elas estão aumentando o público do cinema nacional, fomentando mais produções, dando emprego a novos atores e competindo as franquias norte-americanas como gente grande. Falar mal dos filmes do Leandro Hassun não aumentará a bilheteria do longa do Claudio Assis.

Beijo no ombro.
Beijo no ombro.

Fontes FilmeB  Ancine  Plano Nacional Cultura   EBC

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

1 COMENTÁRIO

DÊ SUA OPINIÃO