Chegando ao espaço cênico, o incenso me conforta. Não sei se é incenso da Glória, Catete, Urca, Leblon, Copacabana ou Ipanema, mas era do meio de uma encruzilhada que vinha um cheiro unificador. Será que o paraíso tem esse odor?

O aroma nos distancia do paraíso. Esse vislumbre de que na Zona Sul se desfruta de qualidade de vida é distorcida dentro dos cômodos privados dos bairros mais desejados do Rio de Janeiro. Jô Bilac, dramaturgo que vem presenteando o teatro carioca, tem 6 textos curtos compilados provenientes do Drama Diário (página virtual com publicações teatrais); tratam de um desabafo histérico, de uma afinidade restringida, de um protesto venenoso, de uma sinceridade reveladora, de um apego medroso, de um devaneio infame desvelado.

As histórias são invasões permitidas que penetram no âmago, desconstruindo qualquer consenso sobre os estados extremos da humanidade. Examinar essa região carioca é afirmar que não há paraíso no qual o homem não extrapole, surpreendendo os cotidianos considerados mais estáveis e pacíficos. Jô não fraqueja nas palavras, o conflito contemporâneo da realidade carioca leva ao encontro: a explanação do ridículo acessa um ponto iluminado de Consciência no espectador promovendo, através da conexão com a história, reflexões íntimas acerca do que é transitável, inesperado, mutável, surpreendente – ou seja, tudo mesmo.

paraiso nelsonO desfile, digo, espetáculo, é iniciado com apresentação desses personagens na encruzilhada – o chão é demarcado com fitas que aludem a estradas que cercam a privacidade desses indivíduos, os protegem e os relacionam. A Sede das Cias, na Lapa, recebe em primeiro plano a Doceria do Vicentinho na Glória, enquanto ele atende uma ligação anônima sobre a infidelidade da sua esposa. Concomitante, no Catete,  Elisa só deseja que seu namorado passe no concurso público. A tensão entre a namorada e cunhada no Leblon é recolocada na Urca em outra conjuntura: o jovem dentista conhece os pais da namorada um tanto quanto desenxabida (sem graça). Fatinha e Mauro discutem em uma Copacabana sombria sobre uma paixão perdida devotada a uma garota de programa. Logo ao lado, em Ipanema, o rapaz espera Rosane para ir ao baile ao passo que se sente receoso na conversa com a sogra. São 17 personagens executados por apenas 5 atores; um desafio digno que amém o Grupo Fragmento realiza com competência. Ana Carolina Dessandre, Carolina Ferman, Diogo de Andrade Medeiros, Elio de Oliveira e Monique Vaillé me confundiram. Quando já não sabia mais quem era quem, tratavam de ferver a intensidade da minha atenção e novamente me surpreendia: todos estavam críveis em seus estados de busca pelo humano, envolvidos por agradáveis inserções hilárias, conduzidas por Jô Bilac, as quais foram devidamente defendidas.

Não há como negar, está ali: Nelson Rodrigues. Ele abraçado ao Lars Von Trier sustentou a pesquisa do Grupo Fragmento. A inspiração é clara no teor polêmico, na ambiguidade e na dubiedade assumida, na oposição a comercialização/padronização da arte, na capitulação dos enredos fragmentando-os, na metaforização surrealista perfurante, na provocação: expor as mazelas ocultas é uma das grandes responsabilidades dessas duas referências – senão a maior.

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Reconhecer na obra as alusões a esses mestres é gratificante. A iluminação vermelho sangue em dois momentos de perturbação máxima dos personagens tem efeito incisivo no espectador; ou o breu repentino que altera a atmosfera, inesperadamente, e, da mesma forma, nos reconecta com estado anterior. O mesmo acontece com a trilha de Frederico Demarca em momentos específicos: repenso duas vezes sobre o que esperar de Copacabana, não quero encontrar com as Fátimas. A cenografia de Vanessa Alves é básica e pontual. Ela se conforta com o figurino de Patrícia Muniz que por vezes alimenta e preenche muito mais a cena do que os elementos e objetos. Há bons momentos de aproveitamento espacial, o que me conquistou foram alguns quadros que me remeteu afetivamente a Relatos Selvagens. No entanto, há uma falta de acabamento na estrutura como um todo: espaços inutilizáveis que se tornam um vazio engolidor da cena.

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A fragmentação trabalhada no grupo se encontra desestruturada; o fragmento para ter valor completo em si tem que ser contundente, obter substância. A peça se realiza com a transferência dos atores entre os 17 personagens. Sendo assim, é um espetáculo de atores, como uma conclusão de um estudo próprio somente deles, sem um mapeamento e um foco tridimensional pra cena. Os momentos em que não se mantém vivo é devido à falta de costura que afeta a sedução do espectador no desencadeamento das cenas – sendo cenas independentes, o desafio de amarrar é superior. Nota-se que a evolução apresentada não se sustenta nas entre-cenas fraquejando no final de cada passagem e retomando somente depois da cena seguinte ter um breve desenvolvimento. A direção de Nirley Lacerda se esfarela no que permeia o espetáculo; as inspirações já mencionadas dão um colorido para a fragmentação sugerida na montagem, mas ela, por si só, parece escapar das nossas mãos e vistas. Se não fosse pela entrega dos atores, aparentaria ser realmente só um amontoado de esquetes que possuem certas interseções entre si. Suponho, portanto, que no que a diretora pecou em movimentação cênica, compensou acertadamente na orientação dos atores.

Paraíso Zona Sul, em cartaz até 22 de maio, é uma peça dessas que você conversará limitadamente devido a existência que encerra em si mesma. Não se estende.
SERVIÇO:
De 06 a 22 de maio na Sede das Cias
Endereço: Rua Manoel Carneiro 10, Lapa
Informações: (21) 2137-1271
Classificação indicativa: 16 anos
Preço do ingresso: R$ 20,00 (inteira)
Duração do espetáculo: 60 min
Gênero: tragicomédia
Horário: 20h
Temporada: quartas, quintas e sextas (06/05 à 22/05)
Compre pela internet: http://www.compreingressos.com/espetaculos/4365-Paraiso-Zona-Sul

 

Hikari Amada
Hikari tem uma certeza na vida: teatro. Ele se apresenta não como um hobby, um desejo, uma carreira; é um dogma. Canceriana camuflada de maquaigem aquariana e sabor agridoce de leão tem mania de transformar tudo em poesia sarcástica, mas sempre com uma boa dose de impacto (lê-se drama). Integrou as cias. Trupe do Experimento e Sociedade das Artes. Já fez teatro infantil, adulto, musical e deu pinta em novela. Atriz formada na Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, estuda Produção Cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e trabalha no Centro Cultural da Justiça Federal. Assim que finalizar a formação de ensino superior, pretende expandir os horizontes teatrais, espirituais e filosóficos.

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