Mesmo depois de meses de penúria, o cenário continua claro e inevitavelmente pessimista: Brasil em maus lençóis econômicos, retração mercadológica, menos dinheiro para famílias se refletindo em menos dinheiro para gastar com cultura (visto como bem supérfluo). Daí, menos livros sendo vendidos, mercado encolhe, menores tiragens, custo unitário maior: um ciclo vicioso da economia do livro.

Agora, porém, outros presságios agourentos se assomam à vista do mercado: os fabricantes de papel Suzano e International Papers anunciam um reajuste no preço de seu material, inflando o valor do papel em surpreendentes 24%, seguindo-se a um acúmulo de reajustes de 11% em 2015. E isso, para o mercado livreiro como um todo, indica dificuldades no porvir.

O presidente da Câmara Brasileira do Livro, Luís Antonio Torelli, faz um diagnóstico sinistro sobre o que isso significa para a indústria:

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) estima que o impacto desse reajuste no preço final para os consumidores será de 16%. Trata-se de um índice incompatível com atual quadro recessivo do País. Não há como as famílias assimilarem um aumento de tal proporção. Portanto, o encarecimento do papel nacional e suas consequências na cadeia produtiva são um desestímulo ao hábito de leitura, que já é baixo em nosso país, de 1,7 livro por habitante/ano.

Não é novidade o baixo índice de leitura do povo brasileiro, cujas razões são sociais e históricas: alguns teóricos afirmam que nosso país jamais passou por uma fase de “letras”, tendo pulado do analfabetismo para os meios audiovisuais surgidos com o rádio e televisão no século XX, carecendo de uma fase onde o principal meio de lazer e comunicação fosse mediado pela palavra escrita; assim, não se teria formado uma cultura literária no país equivalente a das contrapartes europeias e norte-americanas e, portanto, deixando o país carente de uma base histórica de leitores.

Por outro lado, outros afirmam que isso continua a se perpetuar em relação ao ensino de literatura como material programático compulsório durante os tempos de segundo grau, que, ao ser entregue de uma maneira estéril e aos tons de obrigação para alunos despreparados para assimilar a carga literária daquele conteúdo, acaba os afastando da leitura como um todo durante a vida adulta.

Hoje em dia, porém, o mercado do livro é regido por mais do que a vontade de ler: como todo produto cultural, os livros têm preço. E um aumento significante do valor de uma de suas principais matérias-primas está destinado a aumentar o valor do livro, encarecendo o produto e portanto, afetando a leitura como passa-tempo, como estudo, como opção viável de cultura e entretenimento. Diz Torelli:

Além do desestímulo à leitura em geral, já bastante danoso ao País e à economia, as famílias terão de despender mais dinheiro para comprar livros, inclusive os filhos estudantes, num momento em que é elevado o seu nível de endividamento, de queda da massa salarial e crescimento do desemprego. Assim, os efeitos do aumento do papel são graves para as gráficas, editoras, livrarias, distribuidores, vendedores porta a porta e, principalmente, para a sociedade.

É, portanto, danoso até a mais que a literatura; o é ao próprio acesso à educação.

Mas o que pode acontecer? Aumento no preço dos livros afastaria os leitores, por sua vez diminuindo a quantidade de livros vendida e portanto impressa, que por sua vez aumenta mais uma vez o custo do livro por motivos industriais? As editoras começarão a procurar alternativas, imprimindo livros em massa em países estrangeiros para compensar a oferta de papel? Com leis com a do projeto 7.867/2014, proibindo a impressão de projetos a ser vendidos para o PNLD no exterior, a editora fica de mãos atadas frente a uma política de preços que, quem sabe, pode acabar sendo danosa para toda a cadeia produtiva.

Então, o que fazer além de tentar o diálogo?

Resta ver, agora, se o e-book finalmente pega.

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Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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