Cá estamos nós mais uma vez meu povo! E aí, cansando do meu entusiasmo quinzenal por investigar qualquer coisa que entre por um ouvido e não saia pelo outro? Pois azar o seu, porque ainda não cansei de conversar sobre o papel do som nessa nossa vidinha medíocre e hipócrita, haha! E seguindo um ensinamento budista que vi não sei onde, é importante que você experimente algo de que não tenha gostado uma segunda vez. Se ainda não gostar, experimente de novo e de novo, e se na centésima vez você ainda não encontrar um mínimo de prazer nessa atividade, continue repetindo e lá pela milésima vez você vai perceber que não consegue mais viver sem isso (o que quer que seja)! Sinta-se livre pra não acreditar em nenhuma palavra desse “provérbio” e retrucar com o usual “quer dizer que se eu comer cocô de cavalo mil vezes vou acabar gostando?”. Já tô acostumado com respostas assim quando apresento esse ponto de vista, e digo que essa reação é exatamente a questão central do provérbio: baixar a guarda e se permitir. Por isso trate de ir baixando esses punhos e tirando sua armadura de “música boa” porque hoje vamos ter uma conversinha sobre gosto e preconceito musical. E nem vem com esse papo de que gosto não se discute porque se discute sim e é agora!

 

bring it

 

 

Já reparou como gosto não se discute principalmente quando é o seu que está sendo criticado? Fico imaginando o porque disso. Talvez a gente tenha uma necessidade enorme de se justificar e sempre procure milhares de razões pra amar ou detestar algo, mesmo que as vezes nem haja nenhuma! Mas porque? Você já deve saber a resposta né? Porque a gente quer fazer parte de um grupo, de uma comunidade especial onde todos os integrantes compreendem a genialidade do Los Hermanos ou do Blind Guardian e se apoiam mutuamente como uma falange espartana! Mas será que é pra tanto? Quer dizer, será que é tão necessário assim separar o que a gente ouve do que “os outros ouvem”? O que eu (muito tendenciosamente) estou querendo dizer é que quase sempre os argumentos usados pra separar música boa de ruim, não são exatamente musicais. São sociais.

Duvida? Então vamos começar lá de trás:

 

 

Isso que é música boa, não é verdade? Coloque isso pra tocar na próxima reunião de amigues que você for e receba seu certificado de amante e conhecedor da boa música! Mas pensa uma coisa comigo: como você acha que o Blues era visto nas primeiras décadas da sua existência em pleno período entre guerras? Acertou quem disse que era taxado de música do diabo porque incitava a violência e comportamentos lascivos, que os músicos eram envolvidos com crime, drogas e bebida e por aí vai. Agora me diz, quantos desses argumentos dizem respeito a música? Pois é. Mimimi social; e pior, racial, já que o Blues é de origem 100% negra.

Mas essa história tá soando um pouco familiar? Em que outro lugar de passado escravista, nasceu uma forma de música que saiu direto das lavouras pros centros urbanos, sendo rapidamente julgada como promíscua, de baixo valor intelectual e cujos praticantes eram presos simplesmente por portar instrumentos musicais característicos dela?

Estamos começando a nos entender:

 

 

E pergunto de novo: algum argumento musical? Alguma análise sobre como as harmonias não estavam condizentes com as leis pré-estabelecidas ou como o ritmo era só uma batucada sem sentido, sem ordem? Nada. A sociedade é júri, juiz e carrasco sem ter uma gota de formação musical. É mais importante saber que tipo de gente cria a música, do que de fato dar atenção a ela.

Mas espera, eu tô sendo pessimista demais né? Quer dizer, tanto o Blues quanto o Samba hoje em dia já são reconhecidos como a grande música e uma forma de expressão genuína e de valor! Ambos passaram por muitos anos de sofrimento e repressão, mas finalmente alcançaram o Hall da Fama pra que você possa escutar Howlin’ Wolf ou Pixinguinha no último volume sem medo de sofrer preconceito musical! Não é maravilhoso?

Então porque você enche a boca pra dizer que isso aqui nem sequer é música?

 

 

Porque esse tipo de música só incita a violência e putaria? Porque os artistas são envolvidos com crime e drogas? Muito cuidado porque você pode estar reproduzindo um discurso com o qual não concorda sem nem parar pra pensar um pouco nele! Será que cabe à gente julgar o que é ou não é música? Será que cabe a alguém? Porque a gente não pode simplesmente ouvir uma música algumas vezes e por mais que não goste, tentar encontrar algo de bom nela? Será que nosso paladar infantil não está impedindo nosso bom gosto de se expandir um pouco?

Se liga nesse som, por exemplo, que há uns 6 anos não era nem música direito e hoje em dia é trilha da Malhação até:

 

 

Quem decide quando finalmente é a hora de reconhecer o Tecno Brega como música? A Globo?

Eu não quero te obrigar a gostar de Funk, Axé, Tecno Brega, Hip Hop ou Forró. Você tem direito de não gostar de nenhum desses gêneros; mas talvez seja a hora de repensar o porquê. Será que você entende tanto de música assim a ponto de saber que estilo tem mais valor que outro? Ou você só não quer sair da sua zona de conforto e dar uma chance (ou mais) pra novos gostos? E outra: você se ligou que todos esses gêneros musicais “inferiores” tem origens em parcelas bem específicas da sociedade? Coincidência né?

 

Nessas horas é sempre bom escutar o conselho da sua mãe:

Coma os legumes também.

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

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