(1887-1963) Aquarela

Quem visita a cidade de Buenos Aires tem a possibilidade de conhecer o museu casa Xul Solar. A casa abriga obras, trabalhos, rascunhos, pinturas, aquarelas, pianos, estudos e uma infinidade de mistérios que o artista argentino criou. Mais, muito mais do que classificar a obra nas caixinhas do cubismo, do surrealismo, do fauvismo ou do futurismo, o impressionante em transitar pela casa do artista é ver emergir um mundo outro, muito diverso daquele do lado de fora das paredes da casa, muito diverso da decadente e não menos encantadora Buenos Aires.

Se nas aquarelas do artista podemos ver certa relação com linhas, escadas, caminhos que se desenham para cima, para baixo, para qualquer direção, a casa do artista também parece seguir o mesmo percurso. A impressão que temos é quase como se estivéssemos em um dos desenhos de Escher. As escadas sobem e descem em ângulos inclinados, desenhando formas geométricas sem nenhuma explicação mais evidente. O deslocamento pela casa parece se tratar de um deslocamento em uma instalação de arte, que nos desloca daquele contemplar distanciado e estático para nos conferir um movimento não somente físico, mas também de relação com a casa e com as obras de Xul Solar – “ao redor e através” como Claire Bishop em suas reflexões sobre instalações de arte afirmou.

Foi ao redor e através de uma intimidade que se sugere naquele espaço que foi o lar de Xul Solar que pude me sentir deslocada de meu prumo e viajar pelo universo complexo e intrincado que o artista convida a mergulhar em seus trabalhos. E neste momento de Mundial, neste momento que abrimos as portas de nossa casa Brasil para tantas nações, culturas e povos, que escolho a obra “Dragão” para alegrar ainda mais estes dias.

Com uma evidente influência oriental nas obras do artista, também o “Dragão” manifesta esse olhar. Nas curvas de um dragão verde, uma porta-bandeira se equilibra com seu vestido vermelho, suas fitas verde e azul, e um amarelo ouro nas mãos como que a iluminar, a guiar o caminho do dragão. Talvez não fosse necessário, pois não falta luz: um sol trabalhado no estilo, quase como se trajasse óculos escuro-azuis sob o equilíbrio de seu nariz vermelho; uma lua cuja face escondida é azul e a que se mostra é vermelho felicidade-exibida, meteoros amarelo-brasil circulando um vermelho luz-paixão-de-existir; sem contar as inumeráveis estrelas cor de liberdade-anarquia conscientes de seu papel de existir em um firmamento no qual a harmonia é ser, existir e nada mais.

Não menos ausente, um símbolo do zodíaco a nos lembrar que se não houvesse uma referência explícita aos signos, não se trataria de uma pintura de Xul Solar. E qual seria esse signo? – libra. Os outros signos que me perdoem, mas o equilíbrio é fundamental! Mesmo quando nada sugere equilíbrio, ele está ali – ao alcance de quem quiser e/ou puder compreendê-lo. Mesmo que não se possa conceber um equilíbrio no caos – lá está ele.

Vale lembrar que caos pode ser muito produtivo. Vale lembrar que a confluência de tantas nações pode ser um caos extremamente produtivo e alegre. E nos mundiais isso me parece se dar. Não sei em que Brasil algumas pessoas vivem, mas no Brasil em que eu vivo as pessoas vibram com a Copa do Mundo!!! As pessoas ficam felizes em viver um momento esperado por quatro anos e de saber que chegou a hora de exibir ao mundo inteiro a paixão brasileira – o futebol. Queridos protestantes-manifestantes que aspiram um mundo melhor, um Brasil melhor – negar um momento cultural como a copa, é negar sua própria brasilidade. Dizer que não vai ter copa além de uma ingenuidade quase engraçada, além de ser impositivo e ditatorial é mentiroso – porque no fundo, lá no fundo, estamos todos torcendo para que o Brasil ganhe mais uma estrela.

Por que ao invés de viver um dos momentos em que mais se tem orgulho de ser brasileiro e de nos servir desse momento como possibilidade de revigoramento de nossa identidade cultural, deveríamos negá-lo? Vai ter Copa SIM!! Já estamos tendo Copa SIM!! E no dragão de Xul Solar, a bandeira que mais se destaca das outras é a do Brasil. No Dragão de Xul Solar, a festa que se dança, que se celebra está colorida pelas bandeiras de meu país. Os manifestantes que me desculpem – mas alegria é fundamental. E na obra do argentino, nosso hermano latino, país rival do futebol, nossas cores estão lá estampadas.

 

Caroline Alciones

Vivendo a Copa do Mundo

 

 

 

*Escrito por Caroline Alciones, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq “Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade” sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

Participou da primeira equipe de colunista do TagCultural, contribuindo com seus textos sobre Artes Visuais de 07 de abril de 2014 à 09 de março de 2015.

Caroline Alciones
Caroline Alciones é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes da Universidade Federal Fluminense (UFF). É bacharel e licenciada em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e bacharel em Produção Cultural pela UFF, tendo sido bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Universidade Federal Fluminense (2012-2013), é membro do grupo de pesquisa CNPq "Arte e Democracia: produção e circulação da arte na contemporaneidade" sob orientação do Prof. Dr. Luiz Sérgio da Cruz de Oliveira. Caroline Alciones faz traduções e revisões no campo das artes, além de ter participado da curadoria das exposições Arte e Cultura indígena do povo Karajá e Genealogia Nobiliárquica do Teatro Brasileiro. Atualmente, trabalha junto ao PROJETO SOCIAL A TOCHA!

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