Sabe a sensação de sair do cinema e só querer falar sobre o filme durante semanas? Ou um sentimento de leveza junto a uma projeção de sua vida à história previamente vista? Ou até mesmo um sabor de quero mais? Não? Pois creio que ainda não viram os filmes certos.  Esta semana tive uma experiência cinematográfica, que me fez correr para casa e escrever imediatamente acerca da obra (sim, não era um filme qualquer, é uma obra de arte). O filme em questão é Boyhood, do cineasta estadunidense Richard Linklater. O que me levou ao cinema foi uma questão muito relevante: a produção. Explicarei melhor, o diretor levou 12 anos realizando o longa (longuíssimo, quase 3h). Entretanto, os 12 anos não foram por conta de falta de dinheiro ou problemas com estúdios e executivos; e sim, a proposta de direção.

Seis momentos do personagem e o crescimento do ator perante às câmeras

Enquanto produtora, quando tenho acesso a esse tipo de obra fico no mínimo instigada. Todavia, se tratando de  Linklater isso era também algo nada impossível de relacionar. Uma produção de longa metragem tem em média 3 a 6 meses de rodagem. É apenas uma estimativa, essa variável pode mudar de acordo com forças externas que fogem do controle da produção (clima, desastres naturais ou qualquer outro incidente). O tempo de produção depende de algumas características do projeto: roteiro, proposta de direção, elenco, locações, cenários, gênero e o orçamento. Há filmes, que sua proposta é justamente um tempo específico de produção (como A Falta Que Nos Move de Chris Jatahy, que teve 15h de rodagem ininterruptas).

No geral, as sequências são rodadas de acordo com a locação ou com especificidades de controle da produção. Exemplo: se um filme tem 3 cenas numa mesma rua, mas cronologicamente não são seguidos; mesmo que isso seja algo muito ruim para a criação do personagem (para o ator), por questões financeiras e/ou práticas rodam-se no mesmo dia. Ou se um super mega astro está escalado para 4 cenas, em distintos momentos do filme e só pode rodar em dias x e y, serão rodadas suas cenas. Isso acontece na maioria dos casos, por determinações da produção. Entretanto, Linklater teve o respaldo de seu produtor executivo que brigou com unhas e dentes para produzir o filme em 12 anos. Algo quase que inimaginável para produtores. A proposta veio de uma ideia de mostrar as mudanças na vida de um jovem à partir de momentos de sua vida.

Isso poderia ser feito com mudanças de elenco e efeitos de computação. Todavia, o cineasta tinha em uma de suas propostas se ater à realidade e manter-se fiel às emoções e reais mudanças em uma pessoa. Uma ideia inovadora, porém contra o estilo de produção norte-americana. Boyhood tem uma trama simples, mas que desperta no público as emoções das diversas fases na vida de uma pessoa. A sutileza de um gesto, com o decorrer da história transforma o rumo dos personagens. Em 2002, iniciou a rodagem e com um “trato” com seus atores: durante 12 anos se encontrariam para 3 ou 4 dias de rodagem. E assim o fez, sem anunciar o projeto à mídia.

Com um roteiro aberto e uma finalização feita anualmente à partir de seu material, o cineasta só veria o resultado ao fim da última rodagem. E sem poder voltar atrás para mudar algum detalhe que tenha desgostado. Como produtora, esse tipo de realização é estimulante e como espectadora é emocionante. O amadurecimento do jovem Mason (inicia a produção com 6 anos e finaliza com 18) através de pequenos recortes de sua vida, suas mudanças corporais, novos cortes de cabelo, acnes, bem como o desenvolvimento artístico do ator são visíveis à câmera. Os acontecimentos são naturais, ao passo que o processo de escrita de roteiro em aberto proporcionou ao diretor liberdade no direcionamento da história.

Como Linklater tem o respaldo para fazer essa estripulia? Bem, temos que voltar para o início dos anos 90. Com um de seus primeiros longas, o cineasta entrou com o pé direito nos grandes festivais com o filme Slacker. Já o mencionei aqui, ao falar sobre o movimento do cinema independente mumblecore. O longa mostra diversos jovens evasivos (mais ou menos a tradução de slacker), mas que, segundo Linklater, são os jovens que mais tem a dizer por não caírem nas convenções da sociedade. Mais uma vez, uma trama simples. A grande questão é que o filme não tem um plot central, é multiplot ao mesmo tempo que não tem um plot. Confuso? Na narrativa, uma câmera percorre as ruas de Austin (Texas) acompanhando diversas pessoas, ela registra mais ou menos 1 minuto de cada diálogo e logo muda de foco. É como se um grande plano sequência fosse o fio da história, e que alguns tópicos dos jovens fossem interessantes a ela, e quando não mais seria ela trocava de personagens.

Algo genial para um cineasta em seu segundo longa metragem. Depois de Slacker vieram vários longas que abordariam os jovens em diversos momentos da vida ou adaptações de peças de teatro. Mas é com a trilogia Before Sunrise que o cineasta ganha respaldo para produzir como quiser. O primeiro filme nos anos 90, dois jovens se conhecem num trem. A história percorre as ruas de Vienna com diálogos apaixonantes. Linklater se coloca como mulher ao criar um roteiro à partir de uma experiência da vida. Estava em um trem, quando viu uma mulher e se encantou. Imaginou  como seria se ele a chamasse para sair do vagão com ele e andar pelas ruas a conhecer a cidade.

O filme é uma projeção de um possível rumo de sua vida. O mais incrível é que 9 anos depois, o trio resolve dar uma continuação. A mostrar que fim deu os dois personagens. À partir de Before Sunset temos algo incrível nas produções de Linklater: a colaboração. Julie Delpy e Ethan Hawke, que co-roteirizam a os seguintes filmes da “franquia” junto ao cineasta. Os diálogos saem naturalmente e os atores têm o poder de olhar para trás como seus personagens e perceberem o quanto amadureceram em 9 anos. Não só os personagens, mas também eles mesmos. Já Before Midnight, se consolida a relação como roteiristas e atores. Vemos um time que joga bem juntos, mais que um time, uma família. Uma trama simples, com diálogos doces e com um possível direcionamento dos personagens. Os filmes da trilogia, têm um toque de especial em mostrar aquele momento na vida do casal. E sem muitos adornos, seus diálogos e emoções são o grande espetáculo.

Mesmo com alguns percalços em sua filmografia, Richard Linklater é o tipo de cineasta que não entedia Hollywood. Suas produções de assinatura mostram sempre uma mente inquieta que está sempre buscando novas formas de produzir naturalismo e ser verdadeiro com seus personagens, com novas experimentações narrativas. E se não viram nenhum filme que foi abordado neste artigo, por favor, vejam o mais rápido. Estão perdendo um cinema apaixonante (sem ser piegas).

Thais Nepomuceno
Fã efusiva do cineasta Alexander Payne, cultiva um sonho cinematográfico: um dia, John Cusack aparecer na janela de seu quarto, segurando um boombox no alto, tocando "In Your Eyes" (assim como no filme "Say Anything"). Thais Nepomuceno é produtora cultural, com especialização em cinema. Durante um ano estudou produção cinematográfica na ESTC em Lisboa, onde produziu o curta-metragem “Chronos” da diretora portuguesa Joana Peralta. Antes de sua formação no exterior, Thais já havia colaborado em sites de cinema, participado de curadorias em cineclubes e estagiado na TV Brasil. Foi quando dirigiu e produziu o curta-metragem "A View To A Kill - the Director's Cut". O filme já participou de festivais universitários e exibições em cineclubes. Esta pequena produção, com custo zero, feito a partir da colaboração de seus amigos é uma grande brincadeira com os clichês do terror adolescente; auto-definido como freshy trashy movie. Atuou na coordenação de pós-produção da TV Globo e agora está realizando seu mestrado em Formatos e Conteúdos Audiovisuais, na Universitat de Valencia (Espanha). E não fale mal do Leonardo Dicaprio perto dela.

DÊ SUA OPINIÃO