É isso. Tamos aí. Mais um Dia da Consciência Negra. Mais uma vez um cara branco falando sobre negros na arte. Espero não falar besteira. Se falar, podem bater.

Não é de hoje que se pede por uma maior diversidade nas várias mídias por aí. Acho que cinema, música e teatro avançaram bastante. Mas os quadrinhos ainda me parecem com um pé atrás. São poucas as histórias nas livrarias brasileiras que falam de personagens negros ou que são de autoria de negros.

Acredito que isso tenha muito a ver com a estratégia das editoras de vender volumes com preços altos. É difícil encontrar quadrinhos por menos de 20 reais; até revistinha de super-herói na banca está custando 8 reais. Para muita gente pode parecer nem tão caro assim, mas para quem é pobre — e as classes mais pobres são formadas majoritariamente por negros — é um custo difícil de arcar.

Então, obviamente, o pobre não é o alvo das editoras. O prato preferido delas é o público de alto poder aquisitivo, em sua maioria branco. Ou seja, são quadrinhos de brancos para brancos. Pode soar uma simplificação, mas é verdade. Quando você procura um produto para vender, está procurando por algo com que seu público-alvo se identifique.

As editoras não estão preocupadas se o homem ou a mulher negra vão se reconhecer no que está sendo produzido. Elas querem quem possa gastar mais de 100 reais numa livraria. Pior, elas querem aquele sujeito que tem uma livraria no bairro. Acesso à leitura é complicado — a média brasileira é 1 livraria para 65 mil habitantes. Bairros ricos como Ipanema tem menos habitantes que isso e bem mais livrarias. É uma desigualdade evidente.

Em vez de buscarem públicos novos, as editoras continuam a vender quadrinhos mais caros, e as livrarias fecham em vez de abrir, concentrando-se mais em determinadas regiões. Há todo um público ignorado que poderia estar comprando quadrinhos. As HQs independentes estão contribuindo muito para a inclusão social, só que há um limite pra quem é independente. Para penetrar esse país, precisa de aliar o Estado, as editoras e os livreiros.

Agora, chega um pouco da minha sociologia pé de chinelo. Queria recomendar alguns quadrinhos que tocam na temática negra.

Morro da Favela, de André Diniz

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Esse é o tipo de quadrinho que deveria ter em toda escola do Rio de Janeiro. É uma aula sobre favela. André Diniz, no seu traço chapado e simbólico, faz uma biografia em quadrinhos do fotógrafo Maurício Hora, que nasceu no Morro da Providência, filho do primeiro grande traficante de lá. A graphic novel mostra bem a mudança do tráfico, que se tornou mais violento à medida que a polícia se tornou mais violenta. E denuncia a dificuldade de que todo morador da favela tem de viver com o rótulo de marginal.

Morro da Favela pode ser comprado para Kindle no Amazon e encontrado na Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro. Você pode ver mais trabalhos do André Diniz aqui, e do Maurício Hora aqui.

Akissi, de Marguerite Abouet e Mathieu Sapin

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O quadrinho é o lar favorito das crianças endiabradas e que não aceitam qualquer tipo de encaretamento. Calvin, Cascão, Luluzinha, Mafalda e agora, entrando pra turma, Akissi. Essa menina da Costa do Marfim não aceita ser deixada para trás e tenta sempre virar a sorte a seu favor, apesar de isso quase sempre piorar tudo. No volume lançado pela editora Ática Scipione, Akissi sequestra um bebê, dedura os podres de quase todos os membros da família, perde a bola do coleguinha e ganha dinheiro cobrando ingresso das outras crianças para assistir Spectreman em sua casa.

A infância na África em um olhar alegre e divertido, sem cair na vitimização. Da mesma autora de Aya de Youpougon.

Captain America: Sam Wilson, de Nick Spencer e Daniel Acuña

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Graças aos filmes, todo mundo já aprendeu a não confundir Capitão America e Super-Homem. Acontece que o Capitão América dos quadrinhos já não é mais o loirinho modelo norte-americano. O uniforme agora pertence a Sam Wilson, afro-americano do Harlem, antes conhecido como Falcão. Mas a razão por que as histórias de Sam Wilson estão chamando atenção não é tanto por sua cor, mas por sua postura política.

Sam Wilson não pretende ser só um soldado da democracia, mas sim um representante do povo, principalmente das minorias. Em suas primeiras histórias, em vez de lutar contra super-vilões ou ameaças externas, ele luta contra um grupo norte-americano ultra-conservador que persegue imigrantes mexicanos. O alinhamento mais liberal da HQ tem levantado crítica da imprensa conservadora, que acha que isso não é assunto para quadrinho de super-herói.

Se a série vai se aprofundar nos questionamentos políticos ou arregar para o conservadorismo, é difícil saber. Ainda está no número 3 e só dá para comprar importando. De qualquer forma, é um caminho interessante para um super-herói clássico, e quem é de esquerda agradece.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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