Há muito, muito tempo atrás eu escrevi um texto aqui pro Tag sobre publicidade infantil e rock progressivo. Veja bem, eu sempre tive raiva de comercial de TV. Principalmente os ruins. E já trabalhei um tempinho fazendo música pra eles; o que desenvolveu em mim uma mistura de ódio com desprezo e um tantinho assim de fúria incontrolável, toda vez que vejo uma atrocidade dessas passando na TV. Eu sei que eu podia só mudar de canal, mas o caso é que eu gosto de ter raiva! E acho que uma das formas mais saudáveis de lidar com ela é mantendo bem pertinho e vendo a porcaria do comercial até o último segundo e analisando cada detalhezinho odioso e debatendo comigo mesmo por horas e revendo o maldito toda vez que é transmitido e reavaliando as questões discutidas anteriormente e finalmente gritando minhas conclusões pra televisão porque dessa forma os publicitários escutam.

Isso tudo acontece de forma particularmente obsessiva com comerciais baseados em música. E de forma especialmente auto destrutiva com uma modalidade em especial: os hinos.

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“Mmmmmfffgghhnnnngrrrrhrhtt”

 

Não sabe do que eu tô falando? Claro que sabe; não se faça de besta que isso me irrita demais, hein!

Tô falando dessas propagandas que tentam criar hinos absurdos pra vender seus produtos, tipo essa mais recente do Bob’s dos lambuzados. Argh. Só de lembrar já sinto meus cabelos caindo. Veja essa maravilha da publicidade brasileira antes da gente continuar a conversa:

 

 

Nossa senhora, não dá um ódio? Alguma coisa nesses 11 jovens brancos, um negro e um coroa da internet cantando um hino fictício ridículo com aquelas caras determinadas e cuidadosamente lambuzadas de molho “especial” me deixa doido de raiva! Sério, o quê que se passa na cabeça desses criativos, caceta? Eu tenho algumas teorias que desenvolvi ao longo de vários chiliques e que gostaria de compartilhar com você, mas primeiro vamos tentar descobrir o que é um hino.

Rápido, para a Wikipédia!

É, dessa vez ela não foi de grande ajuda, não. A versão brasileira só fala de hino de igreja, e diz que também existem os hinos nacionais, veja só! A estadounidense parece reconhecer os hinos nacionais como algo um pouco mais expressivo e diz que hino é, de modo geral, uma canção-símbolo para um grupo de pessoas. Mas claro que a gente sabe que o hino é uma música de celebração, de união e identificação; feito pra ser cantado com orgulho por um monte de gente ao mesmo tempo. Gente com algo em comum e muita vontade de compartilhar isso com quem quer que seja. E a música é uma das formas mais fáceis de se atingir isso, já que exige muito pouco (você não precisa cantar bem e nem saber a letra direito) e tem uma recompensa emocional gigante (já que geralmente se canta pelo seu país ou time do coração). Aliás, esse papo tem bastante a ver com esse texto aqui; depois dá uma lida!

E é justamente nesse ponto que os hinos comerciais podem parecer adequados, mas são exatamente o contrário!

 

 

A propaganda quer vender algo pra você, certo? Quase todo comercial de TV parte do pressuposto de que você ainda não tem o produto ou o que quer que estejam tentando te empurrar, e a partir daí usam de vários artifícios pra te convencer a dar dinheiro pra eles. Essa identificação forçada através de um hino é só uma tentativa um pouco mais elaborada de te fazer gastar dinheiro! Gente de bem.

Enquanto o hino do Brasil, por exemplo, fala da nobreza, das belezas naturais e da gloriosa e inenarrável história do nosso país, o hino dos lambuzados do Bob’s tenta falar de como você adora se lambuzar, de como você não tem problema em sujar as mãos e de como você é sem noção. Enquanto uma música fala do seu país, a outra fala de você. Enquanto um hino funciona como um símbolo seu, o outro implora pra que você adote a simbologia criada por ele. Resumindo: esse hino babaca nem sequer é sobre o Bob’s; é sobre um tipo específico de gente que eles acham que come lá!

 

 

É isso que me deixa mais puto nesses hinos de comercial. Os caras nem se dão ao trabalho de fazer uma música que tente te convencer a deixá-los mais ricos, sabendo que você não tem obrigação nenhuma de fazer isso. Não, o que eles fazem é reduzir um símbolo de identificação popular a um jingle, assumindo que você já tá do lado deles, que você já faz parte da legião patriótica de compradores de tubos e conexões, de cerveja de milho e de fast food super faturado! Eles precisam do seu dinheiro, mas fingem que não tão te pedindo apoio; em vez disso eles dizem: “Olha essa música aqui que eu fiz pra você cantar junto com nossos milhões de outros consumidores como você! Ela gruda na cabeça, né?”

Eles criam uma identidade pra você, usam e abusam dela e não te dão crédito nenhum! E o fato de usarem a música pra fazer isso me faz tirar as calças pela cabeça! Quer dizer, aquela bodega que quando acaba “a gente” quer de novo pelo menos é mais sincera com a gente. Claro que essa música ainda tenta te incluir no mundinho cor de rosa de intestino bem regulado deles, mas pelo menos não apela pra um símbolo deturpado, bizarro e absurdo de patriotismo de consumidor. É tipo “olha, eu sei que você nunca tomou nosso iogurte, mas esse monte de gente aqui quer de novo quando acaba, ta vendo? Cê não quer dar uma provadinha, não?”

 

 

Pode fazer uma musiquinha grudenta e odiosa pra me mostrar que todo mundo gosta do seu produto, não tem problema. Mas não vem tentar me convencer de que eu nasci no Bob’s, não!

André Colares
Me chamo André Colares e sou formado em Música e Tecnologia pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro; estudei orquestração e contraponto, bem como composição para tv e cinema. Trabalhei como arte-educador em música no setor educativo do CCBB do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo, onde curso a carreira de composição musical na Omid Academia de Áudio. Trabalho como compositor de trilhas sonoras e/ou sound designer para cinema, teatro e publicidade; mas principalmente vídeo games, que são minha maior paixão desde sempre. Musicalmente gosto de tudo e estou sempre inclinado a considerar qualquer manifestação musical como algo bom e de valor. Qualquer Manifestação Musical. Então pra mim não existe esse papo de música ruim, certo? Que bom que combinamos isso! Também sou mal-humorado, daltônico, magrelo e barbudo. Nessa ordem.

1 COMENTÁRIO

  1. Sem discordar em nada do que você disse, apenas acrescentando.
    Eu tive uma aula com a planner da agência que fez essa campanha e é até interessante entender de onde ela vem (sem julgar o critério qualidade), mas eles fizeram uma pesquisa e perceberam que o fast food, em específico o Bob’s, é o lugar onde as pessoas comem se lambuzando “sem querer”e eles quiseram validar isso, como se fosse ok se lambuzar. Além disso, tem algo a ver com o fato deles terem lançado opções de mais molho nos sanduíches ou algo do tipo…

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