Pois é: voltamos àquele velho assunto que se assomava em comunidades do Orkut na década passada. Hoje em dia, falar mal de Crepúsculo, de Stephanie Meyer, é chutar cachorro morto, de tantas as críticas ao enredo, aos personagens, ao relacionamento retratado, às mudanças nas lores das criaturas fantástica que permeiam a série. Depois da fadiga coletiva, a série como um todo tornou-se alvo aceitável. Quando o livro (e o filme que seguiu a tiracolo) aqui em 2008, quem não se lembra das infinitas discussões que surtiram por aí a respeito de seu mérito literário, críticas a seu sucesso como fenômeno cultural, amor ou ojeriza à tendência com a histórias de vampiro em romances paranormais, os debates incipientes sobre elitismo literário?

Fenômeno cultural de fato, tanto por ter ajudado a fomentar bolsos e corações tanto pela intensa e acirrada discussão a respeito da obra, para o bem ou para o mal (e conheço pessoas, grandes amigas até hoje, que se conheceram na comunidade “Eu odeio Crepúsculo” do Orkut). Além, é claro, das gerações estrangeiras de fandom, que nos presentearam com Cinquenta Tons de Cinza. Divago.

Faz uma década esse ano do lançamento original. Em comemoração, temos até mesmo uma nova versão adaptada por Meyer, com os gêneros dos personagens invertidos. Uma experiência diferente? Não sei, não li ainda, mas acredito que várias cenas do romance possam ganhar novas conotações. Temos o vira-vira. Uma homenagem interessante ou uma tentativa descarada de ganhar dinheiro por cima de obra velha?

Digam-me vocês, mas voltamos: em meados de 2005, Stephanie Meyer publicava nos Estados Unidos o que viria a caracterizar o fenômeno coletivo do que passaria a ser visto como o “romance paranormal com vampiros”. Mesmo que não fosse a primeira (Diários do Vampiro foi publicado em 1999, por exemplo), foi o que, de fato, bombou a proporções estonteantes. Alguns podem se lembrar de serem as pessoas que liam os livros avidamente; outras, as que os criticavam sem ter jamais posto os olhos em uma página, olhando para o rosto de Robert Pattinson e cuspindo, gaguejante, “ele brilha no sol. Isso não é vampiro”.

Pois é.

Mas, na verdade, o que é um vampiro? A resposta é: não há um consenso. Há um mínimo multiplicador comum: morto-vivo folclórico que se alimenta de essência vital, geralmente sangue de criaturas vivas (obrigado, Wikipédia!). Mas, como toda lenda folclórica, há inúmeras variações regionais, cada qual com seu próprio pequeno conjunto de regrinhas e superstições, que variam do ser que levanta da tumba, ao que deve contar todo o arroz do caixão, não pode atravessar água corrente, teme crucifixos, tem uma saudável alergia a alho e o eventual não poder entrar na casa alheia sem ser convidado. São pequenos pedaços de lenda que vão se aglomerando conforme vão sendo repetidos (mais uma vez, como todo folclore) e que entraram no imaginário popular por superstição, rumores e, em tempos modernos, também através da mídia.

A mesma Wikipédia de onde tirei algumas das definições acima estabelece o livro The Vampyre, de John Polidori, com seu simpático aristocrata protagonista, como a origem do vampiro carismático e elegante tão presente hoje em dia em inúmeros filmes, séries, livros e representações desse tipo de criatura na cultura pop. Mas, é claro, o que viria a ser reconhecido como a “essência” do vampiro midiático é o que veio do nosso bom Bram Stoker, ao escrever seu Drácula. 

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Drácula de Stoker, no entanto, não é o clássico vampiro folclórico tanto quanto os Cullen não o são. Algumas representações de vampiro mais antigas os listavam como tendo peles escuras e arroxeadas, descrevendo-os mesmo como cadáveres inchados, corpos que saíram da tumba e foram se alimentar e aparecem de dia com sangue espalhado pelo rosto todo. Talvez fosse uma aproximação maior para com suas origens folclóricas do que veríamos em Crepúsculo, mas, apesar de ser um estabelecedor de gênero, não era um cânone tamanho para que ficassem escandalizados que Meyer jamais chegou a ler Drácula, segundo a própria, antes de escrever seu livro.

Já em relação aos vampiros como trágicas criaturas incompreendidas e românticas não foi nem de longe criação de Meyer. Tendências do tipo parecem já ter sido exploradas desde os anos 1960 por Marylin Ross em seu Barnabas Collins e levadas adiante pela popular série das Crônicas Vampirescas de Anne Rice, levadas para o cinema com Entrevista com o Vampiro (e contando com o elenco de Brad Pitt, Tom Cruise e Antonio Banderas que já podia participar de uma equivalência com o Pattinson da década passada).

O cânone de Meyer foi inventado e incrementado de suas possíveis fontes e pesquisa na internet, e por que não? Já foi feito, continuará a ser feito e, agora que paramos para pensar, não tem grandes questões por trás disso. Apesar da roupagem fantástica, afinal, Crepúsculo é um romance (daí o romance paranormal) e, suponho, foram mais esses do que os outros aspectos que o fizeram crescer bombar como o fenômeno que gerou. Hoje em dia, é normal olhar para trás e pensar em quão engraçado era ter investido tanto esforço e tempo em brigar sobre o mérito de Crepúsculo na internet. Mas, para muitos, éramos todos adolescentes.

Bruno Alves
Paulistano de nascimento, jundiaiense de coração e carioca honorário. Formando em Comunicação Social (Produção Editorial) na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é assistente editorial na Bertrand Brasil e leitor de gosto eclético: ama literaturas contemporâneas e ficções de gênero em igual medida. Eventualmente tenta a mão na ficção, com resultados aqui e ali.

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