Museu Afro-Brasileiro (Mafro), uma das 73 instituições museológicas de Salvador.

Segundo o Panorama Setorial da Cultura Brasileira, no último ano apenas 4% da população frequentou museus ou galerias. Curiosamente, essa é uma das categorias mais associadas à noção de cultura durante a pesquisa, evidenciando o distanciamento das pessoas com aquilo que tradicionalmente enxergam como cultural. Como disse uma das autoras do estudo, Gisele Jordão, em entrevista para o site Cultura e Mercado, “entender o consumo artístico depende de compreender as ofertas artísticas”. Sabemos que, além de estarem distantes simbolicamente da população, por conta da associação com a “alta cultura”, os museus ainda estão distantes fisicamente: 79% das cidades brasileiras não possuem estas instituições. Visando ampliar essa oferta, foi criado no Paraná o Programa Primeiro Museu, dando a qualquer município brasileiro a oportunidade de abrir museus até então inéditos na localidade.

A publicação Museus em Números, do Instituto Brasileiro de Museu (Ibram), e informações atualizadas do Cadastro Nacional de Museus ajudam a entender a necessidade de uma ação como o Programa Primeiro Museu. O Brasil possui 3,4 mil instituições museológicas, concentradas em determinadas regiões e municípios com população mais elevada. O Sudeste e o Sul contam com 67% dos museus brasileiros, com destaque para os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro. O Nordeste aparece em terceiro lugar, com aproximadamente 21% do total de museus, com destaque para a Bahia, Ceará e Pernambuco.

Ainda nessas regiões, no entanto, a desigualdade é verificada: no Nordeste, apenas 14% dos municípios têm museus, no Sudeste esse número sobe para 26% e, no Sul, para 32%. Ainda dentro dos Estados que podem se orgulhar de contar com muitas unidades, a má distribuição é gritante: 45% dos museus da Bahia (73 de 163) estão em Salvador e 47% dos museus do Rio de Janeiro (139 de 295) estão na capital fluminense, por exemplo. E a concentração continua sendo verificado se observarmos o número de museus por cidade. Conforme a pesquisa Museus em Números de 2010, dos 1.174 municípios que possuem museus, 66% contam com apenas uma unidade e 94% dispõem de, no máximo, cinco unidades. Cinco dos 68 municípios restantes concentram 460 instituições museológicas. As cidades de São Paulo e Rio de Janeiro somam 296 museus, o que representa 8,7% do total existente no País.

O cenário apresentado mostra a nobreza do Programa Primeiro Museu: resgatar e preservar a memória para se construir um patrimônio cultural nas diversas localidades brasileiras se faz urgente. A iniciativa é do Instituto Cultural Ingá e do Museu da Família, sediados em Maringá (PR), com patrocínio da Lei Rouanet. Lançada nacionalmente em 2014, a ideia já foi implementada no Paraná, onde diversos municípios adotaram o programa. Da etapa nacional, com inscrições abertas até 15 de dezembro, poderão participar entidades políticas e comunitárias, como prefeituras, câmaras municipais, associações civis sem fins lucrativos, entidades filantrópicas, instituições de ensino, clubes esportivos, igrejas, cooperativas, dentre outros, desde que comprovem vínculo com a comunidade a ser beneficiada. Os museus poderão atender a todo o município, ou a localidades específicas, como distritos, regiões administrativas ou bairros.

É importante notar que as primeiras localidades a receberem os museus a partir do Programa foram municípios de pequeno porte, como São Tomé, Bom Sucesso e Santa Tereza do Oeste, com 5,7 e 10 mil habitantes, respectivamente. O programa terá como resultado para cada comunidade atendida a criação de um museu comunitário virtual, um projeto cultural para implantação do museu físico, a ser enquadrado na Lei Rouanet, e a capacitação de agentes locais na gestão do projeto. Os municípios que já aderiram à iniciativa estão na primeira fase. Entendendo que a memória de um território é coletiva, a construção desses museus contempla uma metodologia participativa, garantindo aos moradores dessas localidades o acesso a uma página online para digitalizar suas fotos, músicas, receitas culinárias e recordações em geral, a fim de preservar sua história pessoal e, consequentemente, a memória do local.

A metodologia da participação para a preservação seguida pelas instituições paranaenses me remete à cidade de Senhor do Bonfim, no interior baiano. Lá, um colégio particular, o Centro Educacional Sagrado Coração, criou há 10 anos o Memorial Senhor do Bonfim, a partir do entendimento de que o município não possuía até então um espaço para consulta sobre o passado. A etapa inicial para construção do Memorial se deu através da realização de gincanas entre os estudantes, por seis anos consecutivos, para recolher documentos históricos junto aos moradores da cidade. O texto de convocação dizia: “Nesta sala, cuja finalidade é servir como fonte de pesquisa, gostaríamos que contasse sua biografia, a história de sua empresa, alguns dos seus trabalhos, para que as gerações posteriores possam conhecer um pouco da sua história. Sua colaboração, fornecendo-nos informações, documentos, retratos, livros, objetos de arte, enriquecerá este arquivo e dará aos estudantes a oportunidade de sentir como nossa terra é rica em cultura, recursos naturais e pessoas de grande talento e personalidade.”. De fato, o espaço tem servido como principal referência de estudos para pesquisadores sobre a história de Senhor do Bonfim. Seu acervo conta com mapas da região desde 1901, jornais a partir de 1903, decretos municipais, fotografias, biografias, livros, trabalhos literários, entrevistas, composições musicais, vídeos, fitas cassetes, discos, CDs, convites etc. O Memorial funciona até hoje, sem investimento público de qualquer natureza. A falta de recursos impede que o colégio realize um trabalho de manutenção e limpeza adequada do arquivo ou disponibilize funcionários para trabalhar no espaço. Desse modo, Senhor do Bonfim, com 129 anos de emancipação política, se configura como um dos municípios nordestinos que não possuem museus, dado que representa 86% da região, como já explicitado.

Casos como o de Senhor do Bonfim são frequentes e dizem sobre a ausência de políticas públicas de cultura nas cidades brasileiras. Sabemos que o Programa Primeiro Museu não tem potencial para reverter isoladamente as estatísticas sobre a desigualdade na distribuição de espaços culturais no país, mas é um indicativo de transformação.

Adriana Santana
Em trânsito permanente entre o sertão e o litoral baiano, gosta dos dias quentes. Geminiana, com ascendente em Áries e Lua em Aquário, respeita a astrologia. Podem acusá-la de patriota, uma vez que prefere cinema, literatura e música nacional. No entanto, não é bairrista: gosta de sotaques e só viaja para ouvi-los. Na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), se formou em Produção Cultural. Profissionalmente, desenvolve projetos culturais comunitários e presta assessoria de comunicação para eventos. Academicamente, estuda Cultura e Território e Políticas Culturais. Apaixonada por conversas, ainda que despretensiosas, acredita no diálogo e no trabalho colaborativo.

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