Na quarta-feira passada meu avião, procedente da terra do Tio Sam, pousou no Aeroporto internacional Antônio Carlos Jobim, também conhecido como Galeão. Na bagagem, nada de eletrônico e produtos com preços mais baratos que no Brasil, mas algumas experiências bem interessantes para serem refletidas e compartilhadas.

Quando você tem o compromisso de escrever regularmente sobre um assunto, você passa, obviamente, a procurar ativamente mais conhecimento sobre o tema, fazer pesquisas, ler matérias, livros e acessar outras fontes em busca de novidades e material para escrever. Porém, acho que o mais belo desse processo é quando as coisas simplesmente surgem e dão o “clique”.

Dá série “não consigo falar isso sem parecer esnobe e metida”: fui abençoada nessa vida pela possibilidade de poder viajar com frequência e quando você tem esse tipo de oportunidade, ou quando você viaja várias vezes para o mesmo lugar, em algum momento, você para de se importar com produtos e passa a se importar mais com as experiências. Os produtos são sempre os mesmos, os preços são tabelados e o que passa a fazer a diferença entre as viagens são as experiências que você viveu, que comida nova você descobriu, quem você conheceu, qual show você pode ir. É aí que as viagens começam, de fato, a mudar sua visão do mundo.

Juntando isso tudo, uma das coisas que eu fiz nesta última viagem foi assistir um jogo de basquete. Não foi o primeiro que eu presenciei da NBA, já tinha assistido a 3 deles anteriormente (Orlando Magic, Lakers vs. Clippers e Knicks), mas este, pré-temporada com o ginásio vazio, foi o que mais me marcou. O jogo? Orlando Magic vs. Flamengo no Amway Arena. Ai você, caro leitor, pensa: “mas qualquer flamenguista assistindo um jogo do seu time em outro país ia ser memorável”. A frase estaria correta, o grande erro é que não sou flamenguista.

Sou botafoguense, nata, de família, desde quando nem tinha memória ainda, quando o patrocínio ainda era 7Up (primeiro patrocínio, com sentido de patrocínio, não apenas do esporte, que lembro na memória) e tio Almir me levava pro Maracanã com meu irmão e primos. E pior, sou aquela botafoguense que torce contra o Flamengo, porque foi assim que tio Almir me ensinou. Botafogo x Flamengo eu era proibida de ir porque “tinha muita briga e era perigoso”. Uma vez, lá pros 10 anos, fiquei revoltada que o Botafogo perdeu a final de um campeonato, ameacei virar Corinthians – achava que outro time do Rio a família não ia aceitar, tio Almir me deserdou. Mais de um ano sem ir no Maraca. Aprendi que o Flamengo de SP é o Corinthians. Hoje em dia só bebo GuaraFogão e não faço conta na Caixa Econômica.

A rivalidade entre os times no futebol, principalmente da soma dos times do Rio contra o Flamengo, não é novidade. Todo mundo que torce pra algum time, de qualquer esporte, sabe que não conseguiria torcer pra outro. Não dá, o grito não sai. Ainda mais no futebol do Brasil.

Quando comprei o ingresso do jogo, me gabei “partiu torcer contra o Flamengo em nível internacional”, “tomara que perca” e “vou com a camisa do Magic”. Só que ninguém me avisou que cantariam o hino nacional ao vivo antes da partida começar. A Copa das confederações e a Copa do mundo estiveram aí para nos provar a força do nosso hino nacional. E antes disso, eu já desabava com sua execução na minha formatura da UFF.

Eu acho impressionante como uma música, símbolo de uma nação, mexe tanto com as emoções de seu povo. A nossa bandeira, dá orgulho, abre aquele sorrisinho no canto da boca, mas o hino não. O hino faz os mais valentes desabarem em lágrimas.

Nos EUA, qual seria o símbolo mais forte da nação: a bandeira ou o hino? Eu acredito ser a bandeira, hasteada em diversas casas e em tamanhos desproporcionais no meio de avenidas.

Um hino e a divisão súbita de pensamento, não era mais Flamengo vs. Magic. Era Brasil vs. EUA. Confesso que ficou muito difícil, se não impossível, torcer contra o Flamengo. Não dava para vaiar meu país, da mesma forma que não dava para torcer pelo Flamengo. “Deu ruim”. Achei que fosse só comigo, mas minha mãe, menos fanática pelo Botafogo que eu, mas com maior desamor pelo Flamengo, compartilhou o mesmo pensamento.

Ponto do Magic, gritinhos. Ponto do Flamengo, palmas. Não torci por ninguém e torci por todo mundo.

Torci pelo bom jogo e pela questão de ter um time do Brasil jogando nos EUA. Pensei: que foda! “o primeiro clube do país a ter sido convidado a enfrentar equipes da NBA nos Estados Unidos, durante a pré-temporada da liga americana.” e eu estava lá assistindo. Outro esporte no Brasil se projetando internacionalmente além do futebol. F**a-se que é o Flamengo. Isso é irado.

Em um mundo não muito distante, não seriam os países “marcas” que tentam se estabelecer como fortes e reconhecidas. Não estamos o tempo todo tentando mudar a visão que os países possuem do nosso “gigante”?

Outro ponto muito interessante desse jogo foi ver a diferença entre as torcidas. Um jogo de basquete da NBA é repleto de entretenimento: cheerleaders, mascote, música, animadores de torcida, jogos com o público, apresentadores e marcações musicais para a plateia acompanhar e dar incentivo ao time. Acho tudo isso muito legal e que alguns esportes no Brasil deveriam investir um pouco mais nessa área.

Parênteses – Anos atrás quando acompanha o time de vôlei masculino RJX, eles faziam umas ações dessas. Era muito divertido. Mas com o fim do patrocínio pela OGX, sei nem como anda o time atualmente – Fecha parênteses.

Mesmo com toda essa parafernalha, a torcida dos EUA é “fria”. Sentados, conversando sobre a vida, de vez em quando assistem ao jogo, sem canções, sem gritos e seguem coreograficamente as deixas dos animadores de torcida. Do “outro lado” (os lugares não são separados por torcidas), “minoria”, os brasileiros entoavam canções, hinos, o nosso espetáculo único. E aí percebemos nossas peculiaridades, nossa cultura, que me enchem de orgulho.

Óbvio que o Flamengo tomou uma lavada: 106 vs. 88.

Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

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