Quantas vezes conversando com alguém você não precisou se explicar melhor com frases como “o que eu estou querendo falar…”, “acho que você não entendeu direito…”? Quando a relação entre o emissor e o receptor já está estabelecida, você tem a possibilidade de se explicar. A parte da mensagem que não é entendida é chamada de ruído. Apesar de ter se explicado, você teve ruído na comunicação e, às vezes, isso pode causar alguma confusão no meio do caminho. Quando se trata de apresentar um projeto para um patrocinador, você muitas vezes não pode se explicar, não tem a chance. E se a sua mensagem não está bem transmitida, você não passa nem para uma segunda fase de avaliação.

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Sou formada em duas áreas distintas: de um lado o Bacharelado em Produção Cultural, com todos os estudos culturais que incluem com maestria os aspectos sociais de um projeto, as artes, o estudo da sociologia e sua aplicação cultural, o questionamento político, público e privado, do financiamento e acesso à cultura, os modelos de como deveriam ser. Do outro lado o tecnólogo e a pós-graduação em Marketing com o foco na gestão empresarial, a viabilidade, a preocupação com a marca, o público-alvo, estudos para desvendar os pequenos mistérios da cabeça do consumidor, criar visibilidade, fazer a comunicação acontecer.

São áreas distintas, formando profissionais com características e experiências diferentes e, principalmente, vocabulários diferentes. É como se um falasse espanhol e o outro português, são idiomas parecidos, mas não são iguais.

Em um passado não muito distante, no qual as áreas não eram interdisciplinares, não tinha muito problema cada um saber só do seu nicho, só a “cultura” da sua profissão. Hoje em dia não podemos ter esse luxo, precisamos entender o que o outro procura e falar a “língua” dele. Não basta estar apenas bem explicado, você precisa explicar em palavras que o outro entenda. Precisa aprender o “espanhol”.

Por esses dias estava lendo o livro 10 must reads on communication, da Harvard Business Review, por coincidência o primeiro artigo (Change the Way You Persuade, by Gary A. Williams and Robert B. Miller) falava um pouco sobre isso, com outro exemplo. A história contava que muitas vezes usamos uma única linguagem, uma apresentação do tipo “one-size-fits-all”, para pessoas que pensam diferente de nós, e que precisávamos ajustar os formatos, porque no final de tudo Bill Gates não toma decisões do mesmo jeito que Larry Ellison.

Trazendo isso pra realidade da produção cultural, o que quero dizer é: enquanto o produtor está preocupado em enfatizar o lado artístico e como as populações ribeirinhas da cidade X vão se beneficiar do projeto – conforme os estudo que aprendeu na faculdade e o motivaram a fazer o projeto – o departamento de marketing da empresa está querendo saber também sobre público-alvo, o que isso tem em comum com a empresa, verba e outras questões técnicas – porque são as técnicas que guiam a empresa financeiramente para poder patrocinar o projeto.

Se isso está certo? Eu acho que não. Acho que o produtor precisa se inteirar das questões de Marketing tanto quanto a empresa precisa sensibilizar os profissionais que lidam com os projetos culturais, para entenderem o além do retorno no imposto de renda, saber mais sobre artes e cultura. Não digo que isso é uma realidade em todas as empresas patrocinadoras, mas muitas delas não possuem um produtor cultural, ou um profissional com essa bagagem sociocultural, na equipe que de fato aprova os projetos a serem incentivados.

Na faculdade de Produção Cultural tive inúmeras disciplinas que me pediram para escrever um projeto cultural nos moldes da Lei Rouanet, fui treinada tecnicamente para aprovar um projeto na Lei, mas será que esse modelo atende o que as empresas querem saber? Já digo que não! Se você copiar e colar seu projeto da Lei Rouanet e apresentar em uma empresa, estará jogando uma oportunidade fora. Acontece que os itens que mais interessam as empresas não estão ali da maneira como elas gostariam de ver. E se eu aprendi isso na faculdade de Produção Cultural? Não, ninguém dentro da faculdade de “artes” me contou que aquilo só servia para o lado das Leis de Incentivo.

A faculdade de Propaganda e Marketing não tinha nenhuma disciplina de Marketing Cultural, mas tinha de Marketing Esportivo e aprendi a fazer um projeto para a empresa ver. Da mesma forma que existem técnicas para escrever para a Lei Rouanet, também existem para os projetos direcionados as organizações corporativas. Não deveria os produtores falarem mais sobre isso? Captação de recursos é uma área tão bem remunerada porque poucos detêm a habilidade de se comunicar com as duas partes do “jogo”.

O grande questionamento que me faço é: quantos projetos deixaram de ser pré-selecionados porque não estavam com uma linguagem e comunicação claras? Porque não falavam a língua do outro?

E se no final disso você está me questionando que dicas eu daria para os produtores repensarem seus projetos, de uma forma mais atrativa para as organizações, essas seriam:

  1. Estudem muito bem seu projeto e conheça seu público-alvo! Isso é seu trunfo para todo o restante do projeto.
  2. Revisem a gramática e evitem frases longas. Usem a pontuação a seu favor. Não encham linguiça. “Tempo é dinheiro” Imagina um projeto confuso no meio de outros 200.
  3. Deem importância ao retorno ao patrocinador sem serem redundantes. Dá para perceber quando você coloca duas coisas iguais com palavras diferentes. Quantifiquem! (60 anúncios em tal mídia, 30 spots de rádio em tais mídias)
  4. Façam uma apresentação objetiva e atraente. Use recursos visuais: gráficos, imagens, aplicações de logomarca. Apresentações devem atrair atenção, seu projeto também. Leiam o livro: Super Apresentações – Como vender ideias e conquistar audiências
  5. E, principalmente, informe-se sobre a empresa e destaque as similaridades do seu projeto com a marca (missão, visão, público-alvo, personalidade, produto, etc.). Você precisa conhecer para quem você está falando. É como uma entrevista de emprego, o perfil do seu projeto precisa encaixar no perfil do programa cultural da empresa.
Juliana Turano
Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e pós-graduada em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Idealizadora e gestora do site TagCultural e projetos derivados, trabalhou como produtora de importantes empresas como Grupo Editorial Record, Espaço Cultural Escola Sesc e Rock in Rio, nas edições de Lisboa 2012 e Brasil 2013. Megalomaníaca, criativa, entusiasta da música e do ballet clássico, não perde um espetáculo de dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro ou um festival de música legal. Adora viajar e aproveita suas viagens para assistir espetáculos de importantes companhias como do Royal Opera House e New York City Ballet. Também aproveita para comparar o desenvolvimento cultural de outros países com o do Brasil e sonha que seu país se desenvolva mais nesse campo.

1 COMENTÁRIO

  1. […] Eu e Thiago já escrevemos anteriormente sobre a necessidade do diálogo ser igualado entre as produtoras e os investidores (meu texto aqui e texto do Thiago aqui). A clareza na política de investimento não seria uma das maneiras de igualar a comunicação entre os lados? O curioso é que as empresas não conseguem nem divulgar quem são os responsáveis por projetos culturais e dar acesso à eles pelos produtores. Ganha quem se relacionar melhor, quem tiver o melhor contato. Não é a toa que captador ganha até 10% do valor do projeto. Tendo uma rubrica dessas, vale a pena facilitar as coisas? Think about it! […]

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