Sei lá o que o quadrinhista disse! Como eu iria saber? Para começar, quem aqui já viu um quadrinhista e um animador em um bar? Sem querer ofender, não são o tipo de pessoa que sai muito de casa. Talvez se for em alguma convenção de Guerra nas Estrelas ou um bar no World of Warcraft, quem sabe. Mas posso dizer que se os dois se encontrarem, vão ter muito o que conversar.

Quadrinho e animação são as duas formas mais populares de narrativa com imagens. Ambos lidam com ferramentas semelhantes e lutam para ser considerados como arte séria e não só como entretenimento infantil. Razão por que cada vez mais andam juntos. E se quisermos entender melhor como funcionam nosso desenho animado e gibi de cada dia, precisamos olhar de perto essa relação.

 

Quadrinho: o microcosmo da animação

Tom Gauld faz milagres com alguns bonequinhos. Parece simples, mas não é.
Tom Gauld faz milagres com alguns bonequinhos.

A principal decisão que um artista precisa tomar ao montar uma página de HQ ou os frames de uma animação é a mesma: o que colocar no desenho e o que tirar. Em outras palavras, o que o leitor/espectador pode intuir e o que precisa ver.

Toda arte lida com limites. Eu diria até que toda atividade humana lida com recursos limitados. Se você é um quadrinhista, há o limite do tamanho de página (não há como ter 10 quadros numa tira de jornal) e o do número de páginas (o calhamaço da graphic novel vai contar uma história diferente de uma leve revistinha de 16 páginas). Se você é um animador, há o limite de tempo (é uma série? é um curta de 3 min ou de 10 min? é um longa-metragem?) e o limite do aspecto — o tamanho da tela (celular, TV, cinema, 16:9, 4:3). E, claro, há os limites financeiros, que às vezes vão decidir até se o cara vai fazer uma animação ou um quadrinho.

O quadrinhista está no núcleo da narrativa visual porque justamente lida com mais limites do que o animador. O quadrinho tradicional não tem som, não tem movimento; é preciso sugerir muito mais ao leitor. Vários elementos precisam estar implícitos em uma só imagem.

Plagiando um exemplo do velho Will Eisner, digamos que em uma cena um casal se encontra na rua. Imagine que o homem leva a mulher para seu carro, abre a porta para que ela entre e depois ele entra no carro e começa a dirigir. Há muita informação nessa frase enorme, certo? E a maioria não traz nenhuma emoção ou nada que seja essencial à história. O importante é eles entrarem no carro. Então basta uma imagem: o homem abrindo a porta de trás para a mulher.

Daí o leitor interpreta: se ela vai sentar como carona, então ele vai tomar o assento de motorista, e se eles estão entrando no carro, provavelmente vão para algum lugar. Pronto. O artista economizou espaço e tornou a leitura dinâmica.

Direto do livro Quadrinhos e Arte Sequencial, de Will Eisner.
Direto do livro Quadrinhos e Arte Sequencial, de Will Eisner.

O quadrinhista precisa ser funcional e artístico. A falta de espaço é um fator importante, mas é necessário que a página cause impacto, seja agradável ao olhar (o que não significa obrigatoriamente ser bonita). É uma verdadeira corda bamba, e tudo isso provavelmente sem ver a cor de dinheiro.

O quadrinhista enxerga o essencial de uma imagem sem deixar de lado a estética. Isso é elementar na animação. Quais são as poses chaves de uma ação? Como passar movimento sem grandes efeitos especiais? Como criar um todo coeso? Tudo o que um animador precisa pensar, o quadrinhista pensa.

 

O quadrinhista na nova Era de Ouro do Cartoon Network

Claro, não sou o único que percebeu o quanto o quadrinho é essencial para a animação. Vários cartunistas se tornaram grandes nomes do desenho animado. Quer dizer, você conhece Os Simpsons, né? E deve ter reparado no nome que sempre aparece na abertura: Matt Groening. Antes de criar a série, ele fez sucesso com suas tirinhas Life in Hell nos anos 80. Ele foi chamado por produtores de TV para fazer uma adaptação dos quadrinhos, mas preferiu fazer algo novo, com receio de perder os direitos dos personagens da tirinha para os produtores. Assim surgiu Os Simpsons, que botou a animação no centro do entretenimento adulto.

Uma página do Matt Groening.
Antes dos Simpsons, havia Life in Hell.

Mas, embora a galera dos quadrinhos andasse pelos estúdios de TV de vez em quando, a relação se tornou muito mais forte e simbiótica com o surgimento do Hora de Aventura. Dá claramente para ver uma ruptura nos estilos de desenho do Cartoon Network pré e pós-Hora de Aventura. Antes as produções era muito voltadas para a comédia nonsense, mas sem a originilidade do Laboratório de Dexter e outros clássicos. Quem acompanha o CN, sabe que o perfil mudou.

O Hora de Aventura não é só um desenho viajante, mas também fala sobre sentimentos e problemas do dia a dia: solidão, crise familiar, crescimento, responsabilidade. A comédia nonsense continua rolando, mas agora há terror, fábulas, ficção científica, fantasia e inclusão (Steven Universe e Hora de Aventura possui um elenco forte de mulheres e homens e personagens possivelmente homo, bi e assexuais).

Alguns dos desenhos que Pen Ward fez para vender a ideia do Hora de Aventura.
Alguns dos desenhos de Pen Ward em preparação para o episódio piloto.

A mudança nos desenhos do Cartoon Network se deve principalmente à entrada de quadrinhistas indie na produção. Pendleton Ward, quando vendeu a ideia do Hora de Aventura para o canal, mostrou uma série de tirinhas com os personagens, e ele era conhecido por seus quadrinhos de humor esquisito (e bota esquisito nisso!). Quando o desenho foi aprovado, ele fez questão de chamar para o projeto quadrinhistas do cenário indie. Adam Muto, Sam Alden, Michael DeForge, Luke Pearson, Rebecca Sugar (que se tornaria a criadora do Steven Universo), Seo Kim, Jesse Moynihan, Thomas Herpich, Patrick McHale (criador do Over the Garden Wall); todos frequentavam as feiras de quadrinho independente.

Como todos os artistas possuem estilos singulares e um domínio da narrativa, eles trouxeram uma nova estética para o Cartoon Network. Quebraram o parâmetro da narrativa convencional de 3 atos e criaram formas novas de contar história. Por exemplo, quem vê Hora de Aventura sabe que nem todo episódio tem um encerramento de fato. Nem sempre o personagem chega a uma conclusão e um desafio pode fazer com que ele volte aonde tudo começou. Dependendo do quadrinhista/artista que trabalha no episódio, a história pode ser uma crônica do dia a dia ou uma viagem astral por dimensões lisérgicas.

Storyboard por Rebeca Sugar
Storyboard por Rebeca Sugar
Storyboard por Thomas Herpich. Repare que o Storyboard é bem mais técnico do que um quadrinho.
Storyboard por Thomas Herpich. Repare que o storyboard é beeem mais técnico do que um quadrinho.

Mas como essa influência do quadrinhista se dá? Os quadrinhistas, em geral, trabalham no storyboard, que de certa forma é uma versão em quadrinhos da animação, que vai servir como guia para os animadores. Só que acontece que no Hora de Aventura e no Steven Universo não existe a fase do roteiro típica. O pessoal não senta e escreve uma descrição detalhadas das cenas. É mais como se escrevessem um rascunho da história e a desenvolvessem durante o storyboard. Então quem faz o storyboard é o roteirista de fato. Por isso o estilo do quadrinhista influencia tanto os episódios e o desenho animado.

A Rebecca Sugar do Steven Universo é bem incisiva em suas declarações sobre o processo de trabalho dela. Quem quiser participar da equipe não pode só desenhar ou só escrever, precisa saber compor uma história através de desenhos. A moda pegou, e hoje produtor de TV virou figura fácil nas antes desconhecidas feiras de quadrinhos da Califórnia, caçando talentos para novos desenhos animados.

 

Pontos de atrito

Um quadrinhista pode se dar bem com animação, mas acho que o contrário é mais difícil. O quadrinho aceita um certo desleixo na arte. Erros de desenho podem tornar a arte mais afetiva. Uma pessoa desenhou aquilo ali, isso é parte de alguém; sua personalidade. Animação não lida tão bem com erros.

Geralmente as séries e os filmes são feitos no computador. É raro a animação ser feita à mão. A não ser que seja um monstro como Hayao Miyasaki, que também é um mangaka (autor de mangá). Ou o jovem Don Hertzfeldt, que sempre foi animador de raiz, trabalhando sozinho, à mão, e usando um traço peculiar de boneco de palito.

Miyazaki humilhando como sempre.
Miyazaki humilhando como sempre.

Para os quadrinhistas, a maior dificuldade com animação é ter paciência com o processo de trabalho. Um minuto de animação pode levar dias, até meses dependendo da complexidade. Uma página pode ser feita em um dia só, com uma caneta simples, sem necessidade de maiores recursos ou uma equipe.

Já os animadores profissionais teriam dificuldade de pensar na página em si, na parte gráfica. O quadrinhista não pensa só na sequência de imagens. A maneira como elas compõem uma página é significativa. O tamanho dos quadros, o tipo da moldura, tudo isso muda a percepção do leitor. Pode existir um quadrinho que os quadros da página formem um círculo e você precise ir girando a revista para acompanhar a narrativa.

O leitor é muito ativo quando comparado ao espectador sentado na poltrona. Na webcomic, o leitor pode clicar, rolar a página para cima, para baixo, pros lados; tudo isso pode ter uma função na narrativa. Para um animador muito especializado, de uma produtora mesmo, desses que só animam o cabelo de um personagem, é muita coisa para pensar.

Mas creio que as diferenças entre animação e quadrinho são circunstanciais e dependem somente de disposição para serem vencidas. Cada vez mais a mistura entre quadrinhistas e animadores vai crescer. Até porque para os quadrinhistas os estúdios de animação representam um dinheirinho confiável, e para os animadores o quadrinho representa uma oportunidade de expressar sua individualidade.

E há quem diga que os dois casam muito bem com a indústria do videogame. Só falta mesmo é todos se encontrarem no mesmo bar.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

2 COMENTÁRIOS

  1. Tarsio, querido, nem sei se vai ler esse comentário.
    Estive te procurando pela internet (menos facebook, pq não tenho) para te pedir seu e-mail.
    O que tenho não está mais ativo.
    Manda um e-mail para mim, se puder…

    Thalita.

DÊ SUA OPINIÃO