Antes de mais nada, devo te parabenizar. E a mim também. Afinal chegamos até aqui: o fim do ano. Mais um. Segundo as estatísticas, você teve que sobreviver a quase 50 milhões de raios, a 1 milhão de acidentes na estrada e a talvez milhares de balas perdidas. Não é nada fácil.

Agora, aproveitando esse clima de reflexão sobre o ano que passou, vou falar sobre algumas obras que marcaram o meu 2014. De repente podem ser uma boa opção para quem ficou paranoico com o papo de raios, acidentes e balas perdidas, e decidiu passar o ano-novo sozinho num bunker no subsolo.

 

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Hora de gastar as gordurinhas das festas.

1  Black Mirror (televisão)

Esqueça Arquivo X, Fringe ou outra bobagem sem sal que está passando na TV a cabo (dá pra ver que eu não vejo TV a cabo há um tempo). A série britânica Black Mirror cumpre o papel de uma boa ficção científica — analisar e refletir o momento em que vivemos e fazer isso de uma maneira irreverente. Não se trata de uma mera distração.

Em Black Mirror, cada episódio é uma história fechada com cerca de 50 minutos de duração. Não há um estilo único. O primeiro episódio se passa em nosso tempo e não possui quase nada de científico, enquanto o segundo é uma distopia orwelleana onde as pessoas vivem numa espécie de fliperama gigante e tem que passar o dia inteiro correndo para ganhar dinheiro e gerar energia. As histórias são unidas pela ironia e pelo humor negro, mas, principalmente, por uma crítica ácida à nossa sociedade midiática.

Dá para encontrar a série no Netflix americano e britânico.

 

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2  Jogos de Sokoban (vídeo game)

Sokoban é o jogo mais simples possível. E mais complexo. Pra quem nunca viu, cheirou ou comeu, trata-se de um quebra-cabeça em que você precisa arrumar objetos numa determinada posição para passar de fase.

Foi criado por Hiroyuki Imabayashi em 1981 para computador, mas com a explosão de jogos indies na internet, surgiram várias versões diferentes, cada uma com sua peculiaridade. Você pode estacionar naves espaciais, cortar grama e fazer dois porquinhos se encontrarem, o importante é sempre empurrar alguma coisa.

Há níveis variados de dificuldade. Eu gosto dos mais facinhos, mas que fazem você se sentir inteligente. Nem sempre é fácil achar. Vou colocar o link de alguns, para quem quiser testar.

Sokoboom – Visualmente falando, é menos minimalista do que a maioria. Em matéria de objetivo, porém, não poderia ser mais básico: empurrar caixas.

Pig Friend – Esse é o dos porquinhos. É fofo e tem uma musiquinha que fica na cabeça.

Heroes of Sokoban – Mistura de dungeon, rpg e sokoban. Cada personagem (guerreiro, ladrão, mago) tem um poder diferente.

 

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3 – Boyhood (cinema)

Você ainda não viu Boyhood? Sério? Então dê um jeito. Não comece 2015 sem ele.

O que eu mais gosto nesse filme é como ele dá peso às coisas pequenas que nos moldam sem a gente perceber. Os pequenos comentários, os pequenos gestos. Mesmo nas poucas cenas mais pesadas do filme, a narrativa está mais interessada num detalhe do que na ação expositiva.

Eu vou pegar um exemplo para ficar mais claro. E não se preocupe, não é um spoiler, não vai estragar nada. Tem uma cena em que o protagonista entra no banheiro da escola e dois colegas começam a intimidá-lo sem qualquer razão. Num drama típico, a gente veria esses dois colegas fazendo todo tipo de agressão relacionada à bullying: bater, roubar, chantagear, enfiar a cabeça da pessoa na privada. No Boyhood, não. A cena corta, e logo passamos para uma nova cena. O conflito do protagonista com esses dois colegas não é retomado.

Ao meu ver, o filme nessa cena propõe o seguinte questionamento para o espectador: você já não acha ruim o suficiente uma pessoa ser ameaçada no colégio? Será que é necessário mostrar mais violência para você se sentir preocupado com alguém? O breve diálogo no banheiro basta para mostrar o absurdo que é uma criança ameaçar outra apenas por uma leve diferença. (O protagonista é branco, saudável, made in USA — imagina se fosse negro, emigrante, gay ou deficiente?)

 

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4 – Bojack Horseman (animação)

Não é toda hora que estreia uma animação adulta que não seja sobre uma família.  Na série original do Netflix, Bojack é um cavalo e ex-ator de sitcom em decadência. Ele decide contratar uma escritora-fantasma para fazer sua autobiografia numa tentativa de levantar a carreira e aproveitar o resto de fama. Mas o livro vira uma análise do seu passado e traz de volta antigos remorsos, além de criar alguns novos.

O forte da série é o visual exótico, que mistura personagens animais com seres humanos, e a construção da história do Bojack, que vai ganhando mais complexidade a cada episódio.

 

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5 – Is the Man Who Is Tall Happy?: An Animated Conversation with Noam Chomsky (documentário/animação)

Uma entrevista muito legal dirigida e conduzida pelo Michel Gondry (Brilho eterno de uma mente sem lembranças) com o linguista e filósofo Noam Chomsky. Uma das coisas mais legais desse filme é que o Gondry não tira as partes em que fala errado ou em que o Noam Chomsky dá uma resposta um pouco mais dura, ele brinca com essas situações e parte delas para uma nova questão. O filme realmente passa a sensação de que está sendo feito enquanto a gente vê, não é só o close de uma cabeça falando como a maioria dos documentários.

Társio Abranches
Aluno com mais estrelas douradas na classe de alfabetização da Escola Cachinhos de Ouro, também sou formado em Rádio e TV e em Produção Editorial pela UFRJ, mas não com tanto louvor. Trabalho como revisor de livros, tenho um conto publicado pela Andross Editora, já fui crítico de quadrinhos do site O Grito e vez ou outra faço uma tirinha para confirmar que desenho mal. Você vai me ver falando sem parar sobre quadrinhos e suas páginas que misturam cultura pop, arte, vanguarda, conservadorismo e tudo que couber num balão de fala. Vou mostrar o que tem de melhor e o que tem de pior no mundo do gibi, então não se preocupe se você está por fora do assunto. Acompanhando a coluna você vai entender que tem quadrinho para cada um e que nem tudo é super-herói com cueca para fora da calça. E se você curte cueca para fora da calça, tem lugar para isso aqui também.

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