Um fato claro de quem escolhe trabalhar com Produção Cultural nesse Brasilzão é que a cultura entra na sua vida junto com a cafeína. O brownie então dispensa apresentações e a mistura de chocolate com café desceu dos céus ao som de trombetas celestiais. Já o videogame, no mínimo Mario Kart fez parte da sua infância ou de seus filhos. Inegável o valor social e cultural daquela molecada reunida, tomando Nescau e disputando o controle (sim, cresci num apartamento e daí?! Não escolhi isso, mas existe felicidade no play, eu juro! rs)

O que quero trazer desses 3 assuntos para a gestão não tem nada a ver com o que disse até agora, pois a ideia não é falar sobre resultados (brownie, café e videogame) mas sobre o processo que 3 empresas escolheram para a produção de seus produtos. Venho batendo na tecla da valorização do processo, assim como vemos nesse vídeo, porque encontrei um sentido muito forte nisso. Sentido esse que venho trazendo mais e mais para minha vida.

São três exemplos bem bacanas e inovadores para fazer a gente pensar sobre a organização que queremos dar ao nosso trabalho/negócio. 

Em uma palestra na Casa Soul há alguns meses, tive o prazer de ouvir o Guilherme Lito (esse cara do vídeo aí de cima) falar sobre uma experiência que ele viveu no Brownie do Luiz. Além da delícia que é o que essas pessoas produzem, existe um processo interno que gera um resultado muito mais interessante individual e coletivamente. Existem vários aspectos internos que vale a pena pesquisar, mas destaco o que segue:

Sustentabilibrownie Social: Investimos nos sonhos da nossa família (sócios + funcionários)

Governança transparente e democrática

 

– Ah, que blá blá blá bonito para colocar no site.

A experiência que o Guilherme relatou, me mostrou uma prática bem coerente com essa teoria aí. Depois citar alguns exemplos de pessoas que realizaram sonhos trabalhando na empresa, como terminar o ensino ou viajar de avião, ele contou como eles resolveram a distribuição de lucros. Em um certo momento o negócio deu certo e teve lucro do qual não havia mais com o que reinvestir, então chamaram todos (empacotadeira, cozinheiro, sócio etc) para debater como seria a partilha desse recurso. Não foi fácil atingir o consenso, mas após algumas experiências eles chegaram a um modelo satisfatório.

Ao agir com transparência e incluir as pessoas no processo decisório eles deram responsabilidade a todos pelo resultado final. Se em tempos modernos apertávamos parafusos, em tempos contemporâneos podemos participar do que vem antes e depois do parafuso.

Falando em transparência, a galera do Curto Café é um exemplo magnífico. São amigos que gostam de café e resolveram fazer café. Mas você viu o preço de um bom expresso no centro? Para ter uma ideia, é relativo ao preço do coco em Ipanema, do tacaca nas estação das Docas em Belém ou do sanduíche de mortadela no Mercado Municipal em São Paulo! Eles resolveram então entregar ao cliente a decisão do quanto pagar, só que para isso abriram todos os custos. Quando você chega no local em que eles operam e se depara com os seguinte quadros:

– Bom, mas e se eu resolver pagar só os 0,50 centavos, vou ter que lidar com a cara feia da pessoa do caixa e isso vai me coagir a pagar mais.

Só que não. Olha como funciona o caixa deles: você cobra, paga e pega seu troco, se houver.

Assim, você sabe o que você esta pagando e porque. É justo, honesto e arrisco dizer que ninguém deixou de pagar. Se existiram não pagantes, foi só a excessão para confirmar a regra.

– Tá, e o videogame???

Vamos lá. Existe uma empresa chamada Valve que criou jogos de videogame de grande sucesso como Counter-Strike e Half-Life. Mas o processo interno deste é o que vale atentar aqui. Eles aplicaram na prática um conceito chamado Flat Organization, algo que vemos em certas medidas nas outras iniciativas aqui citadas também. No site deles:

We’ve been boss-free since 1996.
Imagine working with super smart, super talented colleagues in a free-wheeling, innovative environment—no bosses, no middle management, no bureaucracy. Just highly motivated peers coming together to make cool stuff. It’s amazing what creative people can come up with when there’s nobody there telling them what to do.

E o que isso significa? Como diz o handbook para novos contratados da Valve, não há qualquer gestão e ninguém reporta para ninguém. Existe um fundador/presidente, mas nem ele é seu chefe. A empresa é sua para se aproximar das oportunidades e se afastar dos riscos. A infraestrutura interna é montada para valorizar as trocas entre funcionários, onde as mesas são móveis para que novos grupos se formem entorno de novos projetos. Num projeto você pode ser o líder, em outro mão de obra, em outro apenas um colaborador pontual…

 

Olha o organograma:

 

 

É claro que existem críticas a esse processo, como há críticas a tudo. Nada é perfeito. É preciso arriscar um novo modelo se o modelo que você tem não lhe satisfaz. Esses caras estão arriscando.

Para fechar, um resumo básico:

  1. Brownie – valorização das pessoas e inclusão nos processos decisórios gera melhores resultados. Relação ganha-ganha, justa e transparente.
  2. Café – transparência e honestidade na precificação gera confiança e engajamento do cliente.
  3. Videogame – quebra de estruturas rígidas, verticalizadas e dominantes, trazem liberdade criativa e maior responsabilidade pelos resultados.

Acho que na Cultura poderíamos ter  a liberdade de inventar o nosso jeito de fazer negócio, muito mais do que uma empresa que vende cacau com açúcar em latas ou outra que faz infusão de uma semente torrada e moída. O nosso tema já é por si revolucionário. Só que, ao contrário, vejo as produtoras tentando se adequar a um modelo de gestão e condução do século XX, que já não está mais funcionando no mundo corporativo. É necessário diálogo entre diferentes linguagens de gestão, ainda mais nesse momento de transição de modelos que mencionei em outro post, mas dentro de casa é possível fazer diferente.

Um coisa que tenho aprendido é que devemos absorver tudo, misturar com que tem dentro de nós e aplicar o que fizer sentido da maneira que for possível.

E aí, qual a forma de trabalho que você vai inventar?

Aos que não conhecem o Brownie do Luiz ou o Curto Café, fica meu convite. Será um prazer trocar essas e outras ideias ao vivo, degustando essas maravilhas.

Até!

Ps: pouco cansativo né? Nem eu aguentava mais. Tentarei ser mais conciso na próxima!

Thiago Saldanha
Uma pessoa em processo. Todos os dias acordo com fome por informação e tento absorver o máximo que posso. Sinto-me um eterno aprendiz. Estou aproximadamente conectado 85% das horas em que estou acordado e pretendo equalizar ainda mais essa conta entre real e virtual... é preciso equilíbrio nessa vida. Na verdade sou meio fissurado por tecnologias e redes digitais, tanto que comprei meu primeiro celular ainda moleque, economizando dinheiro do lanche e da passagem, enquanto minha mãe achava o Teletrim um máximo. Falando em mãe, ela foi quem me levou para assistir a primeira programação cultural que tenho memória, um teatrinho infantil perto de casa. Anos depois, eu quem estava naquele mesmo palco. Mais um pouco e saí do palco, fui para a coxia e para a técnica. Na sequência a coordenação de palco, a produção e agora a gestão, mas não mais naquele palco e não mais com Teatro, mais ainda na cultura. Sou do mato, do mar e do ar. Meio viciado em adrenalina. Adoro cafés e cerveja. Sagitariano com ascendente em escorpião e quero mais sempre, não que isso signifique que quero muitas coisas. Como há escrito em alguns muros de algumas cidades: as melhores coisas da vida, não são coisas.

1 COMENTÁRIO

  1. Perfeito! O mundo mudou, as relações sociais se transformaram e tá na hora de rever velhos conceitos e se abrir para criar ou assimilar novas propostas. Quando participamos dos processos em curso, somos agentes. Isso nos ajuda a se localizar e se posicionar no campo em que atuamos. Além de gerar pertencimento, gera responsabilidade e a felicidade de ser o que é. Ser o empresario, ser o cozinheiro ou simplesmente ser o consumidor. O brownie é delicioso. A loja é aconchegante. Eu nem tomava café… passei a tomar café. O que percebemos em todas essas formas de gestão é o engajamento desses agentes. Isso é envolvente! Falando nisso… Novos Modelos de Gestão para o Sec XXI – http://www.bizu.vc/cursostudio512

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