Último texto do ano: “Tema livre”, disse a nossa CCO e grande amiga, Juliana Turano. Isso pode causar um certo grau de indecisão em uma libriana como eu. Muitos assuntos para falar, tantas coisas que aconteceram em 2014. Como escolher? Como terminar o ano com um texto que traduzisse os  meus últimos 365 dias?

Bom, decidi então fazer uma síntese do que a arte me mostrou e me fez compreender esse ano. Estive envolvida em diversas manifestações artísticas nesses últimos meses e elas me fizeram criar uma nova visão de mundo e foram construindo essa Liana aqui, que escreve para vocês no dia 30 de dezembro de 2014.

Por qual arte começar? CINEMA! Este ano fiz meu primeiro filme, denominado “Corpo da Cidade”.  Uma parceira com o colunista de Gestão Convite - Corpo da CidadeCultural do Tag, Thiago Saldanha.  O que eu aprendi com o “Corpo da Cidade”?  Que nem sempre precisamos ter um roteiro prévio definido e estabelecido na vida. Às vezes, basta uma ideia inicial e o próprio decorrer do processo vai mostrando os próximos caminhos, naturalmente. Uma pequena ideia que tivemos durante conversas virtuais, se transformou em um curta-metragem, que já teve mais de vinte exibições e se desenrolou em mais de quatorze performances de dança e poesia pela cidade. E ainda ganhamos um prêmio com ele!!! Tudo isso em menos de oito meses.

Outra coisa importante que aprendi com o filme é que depois de criada, uma obra ganha o mundo. E as outras pessoas interpretam e tiram lições sobre ela que nós não tínhamos nem proposto e pensado durante o ato de criação. E isso é maravilhoso: o olhar do público sobre uma obra de arte.  O “Corpo da Cidade” não é mais meu, nem do Thiago e nem da nossa maravilhosa equipe de criação (a qual eu serei eternamente grata). O filme pertence agora a todos que tiverem acesso, refletirem e tirarem conclusões sobre ele. O projeto ganhou vida própria e caminha com seus próprios pés. E como é gratificante vê-lo crescer! Essa foi minha maior lição de desapego do ano.

Vamos agora ao TEATRO: “Porto de Memórias”. A convite da minha mestra Regina Miranda, participei deste incrível projeto, que contou a história do Rio de Janeiro através de performances artísticas pela cidade. Reviver desde a chegada da Corte da Imperatriz Leopoldina até o Nascimento do Samba me fez entender muito mais sobre a história da cidade e sobre mim mesma. A história do Rio é riquíssima e às vezes pouco conhecida por seus habitantes. É papel da arte trazer essa cultura histórica à tona, tornado-a viva, através dos artistas. Uma salva de palmas ao “Porto de Memórias”! E fica a dica: ano que vem o Rio comemora 450 anos. Acho que muito pode ser celebrado e produzido sobre a cidade maravilhosa, saindo do óbvio e dos famosos cartões postais!

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Projeto “Porto de Memórias” no Paço Imperial

Chegou a hora da LITERATURA: Vou começar citando o projeto “Toda poesia”, de grandes amigos que fiz na vida. A ideia deles é de que tudo é poesia, dependendo de como se olha para as palavras e de como se encara um texto elaborado ou os mais simples versos. Eles já gravaram vídeos com mais de 139 pessoas (estou incluída entre elas) entre 12 e 84 anos. Desejo intensamente que o projeto cresça e mostre ao mundo o valor da poesia da vida!

Em sintonia com este projeto, cito o “Poesia Viral”, de outros grandes amigos, que objetiva viralizar a criação literária, através da contação de histórias para crianças e de performances que encantam o público, com textos de autores conhecidos ou desconhecidos, afinal, não importa: porque a palavra é sempre mágica e poderosa quando bem utilizada! Outro grande aprendizado de 2014.

a arte da vidaGostaria ainda de citar dois livros que me marcaram esse ano. Um, eu me dei de presente: “O prazer do poema” do Ferreira Gullar. Um livro para ler com os olhos, a cabeça, a pele e o coração. Um livro de sensações. Uma seleção de poemas de tirar o fôlego, para fazer ir além. Afinal, foi o próprio Gullar que afirmou: “A arte existe porque a vida não basta.”. “O prazer do poema” comprova isso!

 

O outro livro eu ganhei de presente, da minha querida melhor amiga Isabella Carneiro. É o “A arte da vida”, do Zygmunt Bauman.  Estou em plena leitura e já encantada. A obra faz uma exposição maravilhosa das condições e dos limites que influenciam nossos projetos de vida. Uma leitura super recomendada para esse fim/ início de ano, quando queremos dar um rumo ao novo ciclo!

 

 

E por fim: o tema é livre,  mas eu não poderia deixar de falar da minha querida e amada DANÇA, que me faz levantar todos os dias com gostinho de quero mais. Em Abril, fui contratada como bailarina no Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para as temporadas de Ballet.  Dançar em um corpo de baile é vivenciar o verdadeiro significado do que é um grupo, um conjunto, uma comunidade. É saber que um não funciona sem o outro e que o todo depende de cada um.

Dançando em um corpo de baile, você aprende que é preciso superar as diferenças em prol de algo maior.  Não interessa se você não se dá com alguma das integrantes do grupo. Pode ser a sua pior inimiga, mas vocês terão que estar em uníssono e na mesma sinergia.

Acho, por fim, que o maior ensinamento é que você aprende a olhar ao redor, a respeitar o espaço do outro, a sentir o ritmo das pessoas e saber que você é parte disso tudo, e ao mesmo tempo, tudo isso não funcionaria corretamente se você não se empenhasse!

Valsa das Flores Ballet "O Quebra-Nozes" Corpo de Baile do Theatrp Municipal do Rio de Janeiro Foto Stephanne Fernandes
Valsa das Flores -Ballet “O Quebra-Nozes”
Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Foto Stephanne Fernandes

E se todos nós pensássemos a humanidade como um enorme Corpo de Baile? Não seria incrível?  Cada país respeitando a fronteira do outro, as pessoas aprendendo com as diferenças, sentindo o ritmo dos dias, atuando em redes e compreendendo que cada um tem um lugar especial nessa coreografia de translação da Terra!

Que tal fazer de 2015 um maravilhoso espetáculo? Só depende de nós! De todos nós! Então, dancemos a dança da vida em um grande Corpo de Baile!

Feliz ANO NOVO!!!!

 

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Ballet “O Quebra-Nozes”- Flocos de Neve
Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

 

Liana Vasconcelos
Bailarina formada pela Escola Estadual de Dança Maria Olenewa (Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e pela Royal Academy of Dance, de Londres. Conta em seu currículo com diversas premiações em concursos nacionais e internacionais. Ganhou, em 2009, o prêmio de melhor bailarina no Seminário de Dança de Brasília e foi agraciada com uma bolsa de estudos para o Conservatório de Dança de Viena. Pertenceu à Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro, São Paulo Companhia de Dança e se apresenta como bailarina convidada em diversos festivais de dança no Brasil. É Bacharel em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a monografia “Memória da Dança: Importância, Registro, Preservação e Legado”. Fez parte do elenco da novela “Gabriela”, da Rede Globo de televisão como bailarina/atriz. Foi contratada pela São Paulo Companhia de Dança, como Pesquisadora, para elaborar duzentos verbetes relativos à dança no Rio de Janeiro, para a enciclopédia online “Dança em Rede”, criada por esta companhia. É também colunista de dança no Blog Radar da Produção É bailarina-intérprete e produtora, junto ao diretor Thiago Saldanha e a coreógrafa Regina Miranda, do projeto “Corpo da Cidade”, uma experimentação em vídeodança que busca dialogar o corpo dançante da bailarina clássica com as transformações urbanas que a cidade do Rio de Janeiro vem sofrendo. Atualmente, é bailarina contratada do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro É apaixonada pelas artes cênicas, espectadora frequente dos teatros do Rio de Janeiro, ama viajar e vive em eterna dança.

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