Muitos ficaram ansiosos pela estreia de Los Hermanos – Esse é só o começo do fim da nossa vida, segundo documentário dirigido por Maria Ribeiro. E não é pra menos. A banda foi parte importante de uma geração e carregou consigo uma legião de seguidores fieis que sabem de trás pra frente cada letra interpretada pelo quinteto carioca.

Poucos, porém, sabem que a atriz e apresentadora já se aventurou na direção de documentários antes. E fez uma bela estreia.

Em Domingos (2009), uma das (muitas belas) frases ditas por Domingos de Oliveira, e que resume bem sua maneira de ver sua vida, é: “Eu sou aquilo que as mulheres que eu amei fizeram de mim.” E de fato, o Domingos do filme é o que a diretora Maria Ribeiro faz dele.

Logo no início do documentário a voz de Maria deixa bem claro: “É o meu Domingos”. E passamos a ver o cineasta, ator e dramaturgo com os mesmos olhos cheios de ternura da diretora estreante.

Domingos de Oliveira começou sua carreira no teatro como ator e passou a dramaturgo e cineasta. Com mais de 20 filmes na carreira, inúmeras peças de teatro e trabalhos em televisão, Domingos é figura fundamental na história da arte brasileira.

O documentário é fruto de oito anos de filmagens. Em 2002, Maria passou a acompanhar Domingos com uma câmera, registrando sua rotina e gravando conversas raras e profundas entre os dois. No início, Maria filmava sozinha, sem ainda a definição de que esse material iria compor um documentário. Sua intenção era simplesmente registrar as palavras do homem que ela tanto admira. Por isso, muitas das imagens do filme estão com qualidade inferior em relação à outras. O que começou como um registro despretensioso foi se tornando algo mais consistente. Com bastante conteúdo filmado e já com a ideia do filme na cabeça, Maria contou com a ajuda de profissionais para finalizar a obra. Parte dessas informações é contada logo no início do documentário, deixando bem explícito o processo livre e sem grandes intenções da direção além de fazer essa homenagem-registro a Domingos de Oliveira.

Esse “evidenciar o processo” se apresenta não só na voz da narradora-diretora, como também na fotografia do filme. Maria se deixa filmar em diversos momentos. Nas conversas íntimas com Domingos, em que ela faz questão de se posicionar na frente da câmera – e não ao lado ou atrás, como a maioria dos documentaristas –  e até em vídeos mais antigos, que podemos chamar de “caseiros” em que Maria – com carinha de adolescente ainda – aparece sem se preocupar com a filmagem.

Mostrar o processo do documentário aproxima o espectador do assunto e da construção fílmica. Eduardo Coutinho tinha como marca registrada essa forma de apresentar seus filmes. Em Jogo de cena (2007) a primeira imagem projetada é a de um anúncio de jornal que convida mulheres a contarem suas histórias para participarem de um documentário. No brilhante Edifício Master (2002), além de abrir o filme com uma sequência de sua equipe entrando no prédio-personagem com equipamentos em mãos, há momentos em que vemos a produtora do filme conversar com algum morador dizendo que já haviam conversado antes e marcado a entrevista. É como o ilusionista que revela o truque antes de fazer a mágica. E acreditem, a mágica acontece ainda mais encantadora.

Além do material filmado por ela, Maria utiliza imagens do arquivo pessoal de Domingos e trechos de obras do cineasta como os filmes Separações (2002) e Todas as mulheres do mundo (1966).  É aí que conseguimos enxergar a semelhança de Domingos com seus personagens e sua maneira de contar uma história. É aí que entendemos que Domingos e sua obra são uma coisa só.

A visão que Maria Ribeiro nos dá de Domingos é a de um homem cercado por grandes amores. Mulheres, autores, teatro, cinema… É uma visão apaixonada sobre um homem apaixonado. E assim como ele, Maria não se furta de expressar essa admiração, esse amor profundo que faz do Domingos da Maria, um Domingos de todos nós.

No seu novo filme, a diretora novamente se debruça sobre personagens cercados de paixão por todos os lados, não podemos esperar nada menos que um filme fervoroso e cheio de vida. Aguardamos ansiosamente.

 

Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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