Nessa semana dedicada ao Wes Anderson, confesso que escrever sobre identidade a partir dos seus filmes foi um desafio. Depois de sermos brindados com textos incríveis dos meus colegas, a responsabilidade é ainda maior.

Para isso, recorri a Laura Mulvey com o seu clássico “Prazer visual e cinema narrativo” para, então, ler O Grande Hotel Budapeste a partir dela. Apesar de ser um texto que muitos estudiosos consideram ultrapassado, ele é pioneiro no que se propõe. Mulvey faz uma introdução a análise do ponto de vista do filme, a partir da psicoanálise, e principalmente uma crítica feminista ao que é produzido no cinema para gerar o prazer visual.

Em termos mais simples, Mulvey fala sobre a “mirada” do filme – imagina que seus olhos são a câmera e como o filme é gravado (os planos, os recortes) é como o espectador vê o mundo, àquela realidade. A questão é que a maioria dos filmes (senão todos, mas sejamos otimistas em acreditar que existam filmes feministas, ainda que a arma do mestre não sirva pra destruir a casa do mestre) tem o olhar masculino, é sempre o homem que se busca atingir.

É o que a autora Laura Mulvey denominou “male gaze”, ou seja, uma mirada masculina sobre a mulher. Esse olhar masculino pode ser travado a partir de uma identificação do espectador com o – protagonista, ou o personagem masculino – olhar que esteja contemplando a mulher. A mulher vira um objeto de desejo e exibição, existe só para esse olhar e, este mesmo olhar que permite que ela exista nesse contexto.

A partir de Mulvey, O Grande Hotel Budapeste se confirma por um lado como um filme extremamente patriarcal, por se tratar de uma história com dois protagonistas homens. Em seu desdobramento cabe ainda o fato de que as personagens femininas desenvolvem papéis subalternos na trama.

“O paradoxo do falocentrismo em todas as suas manifestações consiste em sua dependência da imagem da mulher castrada para dar ordem e sentido ao seu mundo” – Laura Mulvey

Todavia, o que me chamou a atenção é que as mulheres retratadas não são as que são os tipos (esteriótipos) que costumam ser objetos de desejo: a freira já na primeira cena, as amantes enrugadas do M. Gustave e a mocinha com a mancha no rosto. Nenhuma mulher foi tratada como objeto de desejo, ainda que por outras características as personagens possam ser desejadas – riqueza? juventude? habilidades?

Outro detalhe interessante é que Anderson brinca muito com o rol masculino/feminino no personagem  – interessantíssimo – do M. Gustave. Ele é o DonJuan-pegador-master do hotel e ao mesmo tempo entende tudo de esmalte. O trabalho de corpo dele possui em toda a atuação traços femininos, ao mesmo tempo que é o líder do grande hotel e o protagonista. Vejo na construção da identidade desse personagem uma ironia muito interessante no que toca o binário homem/mulher.

Mulvey fala ainda sobre as formas de prazer e seu texto “funciona” como uma tentativa de desmascarar, a partir da psicoanálise, que estratégias/ferramentas/princípios que o sistema patriarcal usa como estratégia no cinema para despertar uma variedade de possíveis prazeres no espectador.

A autora enumera algumas, tais como: a escoptofilia; que seria o prazer de olhar e submeter às coisas/pessoas/situações a esse olhar e, também o prazer de ser olhado. Esse item talvez seja o mais fácil de observar no filme, pois, ao assisti-lo – pura e simplesmente?- já submetemos Gustave, Zero e todo o Hotel a nós mesmos. Mas, também podemos pensar que a história se passa a partir do ponto de vista do jornalista, contando para o espectador a conversa que ele teve com o Zero. Ou seja, temos ai pelo menos três “fases” de escoptofilia : 1) espectador; 2) jornalista; 3) jornalista + Moustafa. Se isso fosse uma conta matemática, O Grande Hotel Budapeste teria então, três razões a mais para gerar prazer no espectador?

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Outra estratégia é a identificação, chamada por Mulvey de narcisismo, que é o prazer gerado quando nos vemos refletidos no filme. Esse ponto achei o mais difícil… Mas, pensando na construção dos personagens e os enxergando no sentido mais amplo temos: um branco líder chefe, um migrante minoria estagiário apaixonado, a milionária velhinha subversiva, o jornalista que envelhece, a menina apaixonada, os filhos injustiçados e os vilões. Em algum momento já fomos ou vamos ser esses personagens. Se isso for impossível, em algum momento desejaríamos ser, não? (ok, Mulvey, mais um ponto!)

Ou seja, a libido (o prazer da mirada da escoptofilia) e o ego (identificação) produzem no espectador o prazer. Encontro esses dois pontos no filme de Anderson, no entanto, o que me agradou foi ver que além de ter construído personagens complexos, ele não cai no óbvio de um filme blockbuster ao tratar a mulher. Não é um filme feminista, mas não é um filme que se vale das ferramentas óbvias de “male gaze”, a mulher não é objetificada e os traços atribuídos ao feminino são usados de maneira inteligente, corajosa e – porque não? – interessante.

Na verdade, acredito que a identidade em Anderson dá MUITO pano pra manga. Sua própria estética, elementos que ele usa em cena, as questões ligadas a nacionalidade, a própria questão da fronteira e do exílio do Zero. A relação dos corpos jovens x velhos e muitos outros pontos que podem ser desenvolvidos. Podemos trabalhar uma semana Especial II do Anderson?

Como começa o filme, releio: As histórias vêm naturalmente.

Annanda Galvão
Annanda Galvão Ferreira da Silva têm quase tantas profissões quanto sobrenomes: designer de moda pelo SENAI/Cetiqt, Produtora Cultural pela Universidade Federal Fluminense. Cursou Gestão Cultural na Universidade Lusófona de Lisboa e foi investigadora pelo CNPQ-Pibic na Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) em Políticas Culturais, sendo seu artigo “A visão do Conselho Federal de Cultura sobre as artes popular e erudita” premiado na V jornada de iniciação científica da FCRB e também pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio (2012). Mestre pela Universitat de Barcelona onde cursou o mestrado “Construção e Representação de Identidades Culturais”. Atualmente é aluna do programa de doutorado em Estudios Migratorios da Universidad de Granada, onde continua estudando as migrações a luz das políticas culturais. Tendo atuado em diversas áreas da produção e gestão cultural, realizou instância de colaboração no departamento de conteúdo do teatro do governo espanhol e catalão Mercat de les Flors, tendo coordenado o projeto "Trocas - formació i dansa" de intercâmbio entre entidades espanholas e brasileiras, foi também colaboradora e palestrante do IPAM - International Performes Arts Meeting que acontece dentro do Festival Grec em Barcelona. É professora de elaboração de projetos culturais do curso de formação de agentes culturais dentro do Programa Favela Criativa da Sec-rj gestionado pelo Cieds. É idealizadora de projetos nas áreas de cinema, arquitetura e educação. Apaixonada por viagens, carimbos no passaporte, museus, livros e pessoas , é curiosa por natureza e espera mostrar um pouquinho do que têm visto mundo a fora para os leitores do TagCultural.

3 COMENTÁRIOS

  1. […] Se levarmos em conta como as identidades e as narrativas – as maneiras que contamos a mesma história – podem fazer variar a mesma identidade, o produto, a narrativa do HP, evoca superação e fantasia. A identificação acontece quando Harry é um menino frágil, ou quando ele é estudante, na maneira que acompanhamos ele crescendo, ou quando ele aprende, se revolta, entra em crise e dúvida. A identificação também pode acontecer quando vemos na tela o que gostaríamos de ser ou ter, sobre isso escrevi mais no post sobre prazer visual no Grande Hotel Budapeste. […]

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