Já parou pra pensar em como o cinema pode fazer a gente sentir todo o tipo de coisa? Susto, compaixão, tristeza, aflição, frio na barriga, esperança, nostalgia…

Não é à toa que muita gente simplesmente se recusa a assistir certos tipos de gênero. Outro dia, numa conversa com amigas, duas de nós estavam enlouquecidas citando títulos derivados de “o exorcismo de…” ou “…do mal” que ainda queriam ver enquanto a outra só repetia “Eu tô fora! Tá maluca!”.

Isso é porque sabemos que, uma vez envolvido pela narrativa, ela vai te atingir, e vai ser difícil escapar dela durante pelo menos 2 horas. Fato.

Mas o mais fantástico de tudo isso, é perceber como as diferentes narrativas podem usar os mesmos elementos visuais, mas, por serem trançadas de formas distintas, nos causam reações completamente diferentes.

Tá meio abstrato? Vou ilustrar:

 


Peter Pan (Pan), 2015

A mais recente versão live-action do personagem criado por J. M. Barrie não nos conta (a já contada muitas vezes) aventura de Wendy e seus irmãos. Mas sim, a história de como o jovem Peter (Levi Miller), um órfão criado por freiras malvadas na Londres de 1940, chegou à Terra do Nunca.

Com todas as premissas que envolvem o personagem Peter Pan e o ambiente Terra do Nunca, já é de se esperar que planos como esse abaixo apareçam ao longo do filme (ou na maior parte dele):

 

E o público em nenhum momento se sente surpreendido ou nervoso pelo fato do pequeno Peter estar flutuando ao redor de um planeta. Em outras palavras, ninguém pensa “Ai meu Deus, esse menino vai se machucar!”. Não. Está subentendido que você vai presenciar esse tipo de situação sem nenhum incômodo estomacal, afinal, no seu ingresso está escrito “Peter Pan”.

Essa narrativa, que todos já conhecemos, pertence a um mundo mágico, a um imaginário onde tudo pode acontecer, e quanto mais coisas lúdicas e inverossímeis acontecerem diante de seus olhos, melhor será a sua experiência com aquela obra.

 

O mesmo não se pode dizer desse outro filme:


cinema3A Travessia (The Walk), 2015
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Dirigido por Robert Zemeckis (o mesmo de Forrest Gump e Náufrago), “A Travessia” é baseado na história real do grande feito do equilibrista Philippe Petit (Joseph Gordon-Levitt), que atravessou o vão entre as duas torres do World Trade Center em cima de um cabo de aço. Sim, o cara realmente fez isso em 1974. Inclusive, essa mesma história já havia sido contada no documentário “O equilibrista” (Man On Wire), vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2009.

Aqui, diferentemente do ingresso escrito “Peter Pan” (terra-do-nunca-magia-imaginação-you-can-fly), o que você recebe de informação antes de chegar à sala escura é: “baseado em uma história real” (you-can’t-fly) e isso já muda completamente a performance do seu estômago ao longo da projeção.

Em outras palavras, planos como esse aí, são recebidos pela plateia ao som de “Não é possível! Esse cara é maluco!”.

E é aí que está uma das muitas demonstrações do poder que a narrativa tem de provocar nossos sentidos. Por causa dela, podemos ver crianças voando e aquilo vai nos provocar um encantamento, ou uma sensação de diversão. Ou, a narrativa, trançada de outra forma, pode fazer a gente se contorcer na poltrona vendo um cara se equilibrar num cabo de aço no topo de 110 andares de altura sem nenhuma proteção.

Os dois filmes (“Peter Pan” e “A Travessia”) aparentemente nada têm em comum. Mas ambos trazem à tona um tema muito precioso para a narrativa cinematográfica: a capacidade de viver o impossível.

Um órfão, tido como “nada extraordinário” tem a chance de embarcar em um navio pirata voador para a Terra do Nunca (lugar de onde sua mãe veio e onde o menino espera reencontrá-la).

E no outro lado, um jovem francês, que realizou algo que nenhum homem jamais havia realizado e nenhum outro voltará a realizar (uma vez que as Torres Gêmeas, como eram, já não existem mais).

Ambos vivem algo incrivelmente belo e impossível.

“Peter Pan” pode ser considerado um dos grandes filmes infanto-juvenis do ano. Com efeitos de tirar o fôlego, uma direção correta e um roteiro criativo e pouco previsível, além de puro encantamento, o filme proporciona uma nostalgia boa, para aqueles que, como eu, têm na figura do Peter Pan boa parte de sua infância.

Já “A Travessia” pode ser um tanto decepcionante em termos de roteiro e ritmo. Toda a saga de Petit até a realização de seu grande feito em Nova Iorque, é contada de forma leviana, deixando o personagem menos carismático do que poderia ser (apesar da ótima interpretação de Joseph Gordon-Levitt, carismático por natureza). Mas no fim das contas, trata-se de uma grande história, que mesmo se estivesse sob o pior roteiro ou piores direção e fotografia do mundo, jamais deixaria de ser bela e inspiradora.

A cena da travessia em si é o motivo pelo qual você pagará seu ingresso. Lindamente fotografada, interpretada e dirigida, a cena faz seu estômago dar voltas e as senhorinhas ao seu lado na sala de cinema rogarem por todos os santos. É um verdadeiro espetáculo vertiginoso.

Vertigem. Essa é mais uma das sensações que a narrativa é capaz de provocar. Agora pense se não é poderoso algo capaz de fazer você virar de cabeça para baixo e voar sobre terras encantadas sem tirar seus pés do chão?

Obs: Todos os tipos de narrativa, por definição, têm esse poder.

 

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Nathália Oliveira
Parte cineasta, parte bailarina e parte roteirista, Nathália Oliveira gosta de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Formada em Cinema pela PUC-Rio, ela trabalha atualmente como redatora publicitária na Rede Telecine e roteirista de projetos independentes. Ao longo de sua formação acadêmica fez curtas universitários e clipes musicais como assistente de direção, assistente de produção, assistente de fotografia, conselheira e animadora de equipe. Trabalhou durante 6 meses como voluntária no projeto social CriAtivos organizando um cineclube para crianças. Isso tudo sem deixar de frequentar as aulas de ballet e jazz. Apaixonada por cinema brasileiro, esta é sua primeira colaboração para um site cultural. Nathália acredita que todo filme merece ser visto e vai tentar te convencer disso.

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